AVISO: ESTA ANÁLISE CONTÉM SPOILERS
Em setembro, quando escrevi sobre “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, confessei que estava cansado de filmes de super-heróis. E não era uma reclamação sobre pessoas fantasiadas salvando o mundo, afinal, cresci consumindo esse tipo de produção. Minha canseira vinha da insistência dos estúdios em transformar o cinema em uma grande linha de montagem, na qual cada filme precisa justificar a existência de outros cinco, mesmo que isso custe a identidade artística da obra.
Naquela crítica, argumentei que a Marvel havia encontrado um bom diretor em Destin Daniel Cretton, mas continuava incapaz de confiar completamente em sua visão. Agora, assistindo a “Cara de Barro”, da DC, me deparei com uma situação curiosa: finalmente temos um filme que não parece interessado em vender o próximo lançamento da franquia, mas que, mesmo assim, sofre com uma direção que não explora todo o potencial do material.
E talvez essa seja a maior ironia da experiência. “Cara de Barro” é um ótimo terror corporal. Temos violência, deformação, obsessão, uma boa dose de nojeira e um protagonista cuja transformação física é acompanhada por uma decadência psicológica bastante interessante.
É um filme que sabe o gênero ao qual pertence e, para minha felicidade, não tenta disfarçar sua natureza com as piadinhas obrigatórias de um blockbuster de super-heróis. Entretanto, ao sair da sessão, fiquei com aquela sensação de ter assistido a algo muito bom que, por alguma razão, se contentou em não ser excelente.
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A primeira coisa que me agradou em “Cara de Barro” foi justamente a ausência da necessidade de se comportar como uma grande produção de super-heróis.
Não precisamos de uma apresentação interminável sobre Gotham, de quinze referências ao Batman ou de um personagem explicando como aquela história vai se conectar ao próximo filme da Liga da Justiça. Nós simplesmente estamos naquele universo, e isso basta.
É algo tão simples que chega a ser estranho precisar elogiar.
Durante anos, a Marvel conseguiu convencer boa parte de Hollywood de que um universo compartilhado precisava ser constantemente lembrado ao público. Cada aparição especial se tornou um evento, cada referência virou uma promessa e cada cena pós-créditos passou a valer mais do que boa parte do filme que a antecedia.
O resultado foi uma sucessão de produções que, muitas vezes, parecem ter vergonha de existir sozinhas. Aqui, felizmente, não temos esse problema.

Gotham funciona como uma cidade real, com suas particularidades absurdas, sua violência urbana e uma elite artística que parece viver em outro planeta. A presença de elementos reconhecíveis do nosso cotidiano, como a cerimônia do Oscar, ajuda a estabelecer uma ligação bastante curiosa entre a fantasia e a realidade. E o melhor é que nada disso precisa ser explicado.
Nós reconhecemos aquele ambiente porque os personagens se comportam naturalmente dentro dele. Não há uma preocupação excessiva em convencer o espectador de que aquele mundo existe, tampouco uma necessidade de justificar cada absurdo com uma referência aos quadrinhos.
A cidade simplesmente existe, e o horror se desenvolve dentro dela. Essa naturalidade me fez lembrar de algo que elogiei em “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: a possibilidade de explorarmos a vida cotidiana de personagens extraordinários sem transformá-los em peças de um grande evento cinematográfico.
A diferença é que, enquanto Cretton precisava disputar espaço com a fórmula Marvel, James Watkins aparentemente recebeu liberdade suficiente para fazer um filme de terror. O problema é o que ele decidiu fazer com essa liberdade.

Já vimos esse monstro antes, e mais de uma vez
Precisamos falar sobre o roteiro de “Cara de Barro”, porque é aqui que começam minhas principais ressalvas.
Matt Hagen, interpretado por Tom Rhys Harries, é um homem arrogante que sofre uma violência brutal e vê sua vida desmoronar. Desfigurado e desesperado para recuperar aquilo que perdeu, ele encontra uma possibilidade de transformação física que, naturalmente, acaba se tornando sua maldição. A partir daí, temos uma história de vingança bastante convencional.
Um homem que sofreu nas mãos de outras pessoas decide que chegou sua vez de fazer o mundo sofrer. Até aqui, nenhuma novidade. O que considero mais interessante é a maneira como essa vingança vai deixando de ser direcionada apenas aos responsáveis por sua tragédia e começa a atingir pessoas que, objetivamente, não lhe fizeram mal algum.
Existe uma distinção importante entre inimigos e adversários. Os inimigos de Hagen são aqueles que efetivamente participaram de sua destruição. Já seus adversários são pessoas que possuem aquilo que ele gostaria de ter: reconhecimento, beleza, prestígio e uma vida que considera superior à sua.
Enquanto sua obsessão cresce, essas duas categorias começam a se confundir. E é justamente nesse momento que sua monstruosidade deixa de ser apenas física.
Não estamos mais acompanhando alguém interessado em reparar uma injustiça, mas um homem incapaz de aceitar que outras pessoas possam possuir aquilo que lhe foi negado. Sua relação obsessiva com quem lhe ofereceu apoio também revela essa incapacidade de compreender o outro como alguém independente de seus próprios desejos.
O problema é que nós já vimos esse caminho diversas vezes.
Em “A Mosca” (1986), David Cronenberg transformou a deterioração corporal em uma experiência de perda de identidade, intimidade e humanidade. Em “O Homem sem Sombra” (2000), Paul Verhoeven apresentou um protagonista cujo experimento científico servia como desculpa para abandonar os limites morais que ainda restringiam seu comportamento.

E, se quisermos uma comparação mais recente, basta lembrar de “A Substância” (2024), de Coralie Fargeat, que levou a obsessão pela aparência e pelo reconhecimento a consequências físicas absolutamente grotescas.
Não estou dizendo que os filmes sejam iguais. Cada um possui preocupações diferentes, mas todos trabalham, de alguma maneira, com a ideia de que a transformação do corpo pode revelar a verdadeira natureza de um personagem.
Hagen não se torna moralmente monstruoso simplesmente porque sua aparência mudou. A transformação apenas lhe oferece possibilidades que antes não estavam disponíveis. E aqui encontro uma oportunidade parcialmente desperdiçada.
Temos um protagonista com conflitos interessantes, um corpo que pode assumir diferentes formas e uma obsessão que, teoricamente, não possui limites. Mas o roteiro prefere seguir um caminho bastante previsível, apostando em situações que reconhecemos antes mesmo de acontecerem.
Não me incomoda assistir a uma história conhecida. Afinal, se originalidade absoluta fosse requisito para um bom filme, provavelmente teríamos que descartar boa parte da história do cinema.
O que me incomoda é perceber que o roteiro possui elementos suficientes para fazer algo mais interessante e parece não saber exatamente como combiná-los.
O elenco faz um excelente trabalho para sustentar esses conflitos, especialmente Harries, que consegue transmitir a arrogância, a vulnerabilidade e o ressentimento de Hagen sem transformar o personagem em uma caricatura ambulante.
Mas existe um limite para aquilo que o carisma dos atores consegue resolver. E, por mais que eu tenha gostado do resultado, não podemos fingir que uma boa atuação transforma automaticamente um roteiro genérico em uma grande obra.

Uma ficção científica que nos respeita
Um dos meus maiores elogios ao filme está na maneira como a transformação é apresentada.
Existe uma preocupação em oferecer uma base científica para o absurdo, algo que me lembrou bastante os filmes de ficção científica e terror dos anos 2000.
Naquele período, Hollywood tinha uma verdadeira obsessão por experimentos laboratoriais, alterações genéticas e tratamentos revolucionários que, evidentemente, acabavam produzindo algum tipo de monstruosidade.
Podemos lembrar de “O Homem sem Sombra”, do “Homem-Aranha” de Sam Raimi e até de “Quarteto Fantástico” (2005), que possuíam diferentes graus de compromisso com a ciência, mas compartilhavam a necessidade de estabelecer uma explicação para seus acontecimentos.

Obviamente, não estou dizendo que essas produções sejam cientificamente corretas. Se fossem, provavelmente teríamos problemas muito maiores do que um homem capaz de se transformar em barro. O mérito está na verossimilhança.
“Cara de Barro” estabelece uma lógica interna relativamente convincente e permite que o espectador compreenda como aquela transformação pode acontecer dentro das regras apresentadas.
E isso faz uma diferença enorme. Sempre me incomodou a maneira como algumas produções confundem fantasia com ausência de lógica. Parece que, por estarmos assistindo a uma história sobre personagens extraordinários, somos obrigados a aceitar qualquer acontecimento sem questionamento. Aqui não.

Temos informações suficientes para compreender a premissa sem que o roteiro precise realizar uma palestra científica a cada quinze minutos. E, uma vez estabelecidas as regras, conseguimos aproveitar a experiência sem ficar constantemente pensando nas desculpas que os roteiristas inventaram para justificar o próximo absurdo.
O filme não precisa que acreditemos que aquela ciência funcionaria no mundo real, precisa apenas que acreditemos que ela funciona em Gotham. E, nesse aspecto, funciona muito bem.
James Watkins tem um bom filme nas mãos, mas parece não perceber
Se o roteiro é competente, embora previsível, os efeitos visuais são um dos grandes acertos da produção.
O corpo de Hagen possui uma materialidade importante para o terror corporal. As deformações são desagradáveis, a textura de sua transformação convence e temos a sensação de que existe alguma coisa profundamente errada naquela anatomia.
E é exatamente isso que esperamos de um bom body horror. Não basta apresentar uma criatura visualmente impressionante. Precisamos sentir o desconforto de observar um corpo deixando de funcionar da maneira como deveria.
Nesse ponto, a equipe de efeitos merece reconhecimento. Mas também precisamos separar a qualidade do trabalho técnico da maneira como ele é utilizado pelo diretor. E é aqui que James Watkins começa a me irritar.

Estamos falando do Cara de Barro, um personagem que pode alterar a própria aparência, assumir outras identidades e transformar seu corpo em praticamente qualquer coisa. Temos um dos conceitos visualmente mais interessantes da DC, um orçamento capaz de sustentar bons efeitos e um gênero cinematográfico que permite experimentar com deformações grotescas.
E, mesmo assim, Watkins parece satisfeito em fazer apenas o necessário.
As transformações funcionam, mas raramente impressionam pela criatividade dos enquadramentos ou pela maneira como a câmera acompanha as mudanças físicas.
O que poderia se tornar uma sequência memorável de horror visual frequentemente acaba sendo apenas uma boa demonstração de efeitos especiais. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Lembro que, na minha crítica de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, elogiei Destin Daniel Cretton justamente pela maneira como utilizava a câmera para transmitir os sentimentos de Peter Parker. Seus planos longos, os enquadramentos abertos e a relação do personagem com o espaço ajudavam a construir sua solidão sem depender exclusivamente dos diálogos. A câmera tinha uma função narrativa.
Em “Cara de Barro”, sinto falta dessa mesma preocupação.

Watkins sabe conduzir uma cena e demonstra competência na criação de tensão, mas raramente parece interessado em transformar a instabilidade física de Hagen em uma linguagem visual própria.
O personagem perde sua forma, sua identidade e seu controle sobre o próprio corpo. Por que a imagem não acompanha essa desintegração de maneira mais radical?
Por que não brincar mais com a composição, com a perspectiva ou com a própria percepção do espectador? Certamente não faltavam possibilidades.
É difícil não pensar em Cronenberg, que construiu boa parte de sua filmografia transformando o corpo humano em um território de experimentação cinematográfica. Ou mesmo em Coralie Fargeat, que utiliza enquadramentos desconfortáveis, cores agressivas e uma estética exagerada para fazer o espectador sentir a violência psicológica de seus personagens.
Não estou exigindo que Watkins copie esses diretores, mas gostaria de perceber uma vontade semelhante de experimentar. Sua direção está constantemente quase lá.
Temos boas ideias, boas cenas, bons efeitos e boas atuações. Mas, quando chega a hora de transformar tudo isso em uma experiência realmente marcante, parece que alguém pediu para não exagerar.
Mike Flanagan teria feito um filme melhor?
Essa foi uma das perguntas que mais me fiz depois da sessão.
Mike Flanagan, responsável pela concepção original e pelo primeiro roteiro de “Cara de Barro”, não assumiu a direção da produção. Compromissos com outros projetos, como “Carrie” e “O Exorcista”, impediram que ele ocupasse a cadeira que posteriormente ficou com James Watkins.
E, conhecendo sua filmografia, confesso que essa ausência me incomoda.

Flanagan é um diretor que compreende muito bem a relação entre trauma, sofrimento e horror. Basta observar “A Maldição da Residência Hill”, “Doutor Sono” ou “A Queda da Casa de Usher” para perceber sua capacidade de construir imagens que dialogam diretamente com o estado psicológico de seus personagens.
Em suas produções, o terror frequentemente funciona como uma manifestação visual de conflitos emocionais que já existiam antes da chegada do elemento sobrenatural.
E não consigo pensar em uma premissa mais adequada para essa abordagem do que a de Matt Hagen.
Temos um homem cuja arrogância, obsessão e incapacidade de lidar com a própria imagem são levadas às últimas consequências por uma transformação corporal. O monstro não surge para destruir sua personalidade, mas para revelar aquilo que já estava dentro dele.
É praticamente um convite para uma direção interessada em explorar a psicologia através da imagem.

Naturalmente, não temos como afirmar que Flanagan teria feito um filme melhor. Talvez sua abordagem fosse completamente diferente daquilo que estou imaginando. Talvez determinados problemas do roteiro permanecessem. Talvez ele sequer tivesse interesse em levar o visual para os caminhos que considero mais interessantes.
Mas, depois de assistir ao resultado de Watkins, considero bastante razoável lamentar a oportunidade perdida.
Principalmente porque a direção atual não chega a ser ruim. Se fosse, a crítica seria muito mais simples e direta.
Watkins entrega um filme tecnicamente competente, consegue boas atuações e demonstra conhecer os mecanismos do suspense. O problema é que sua linguagem visual parece insuficiente para a ambição da premissa.
E isso me incomoda muito mais do que um diretor que tenta algo extraordinário e fracassa.
Prefiro assistir a uma experiência artisticamente ousada que não funciona completamente do que a uma produção que possui tudo para experimentar e decide permanecer confortável.
O que fica de Cara de Barro?
Apesar de todas essas reclamações, saí do cinema bastante satisfeito.
“Cara de Barro” é uma boa produção de terror e uma escolha acertada para a DC, especialmente por mostrar que seu universo não precisa girar exclusivamente em torno dos grandes heróis.
Existe espaço para histórias menores, personagens moralmente questionáveis e gêneros que tradicionalmente não encontramos nos grandes blockbusters de quadrinhos.
E, depois de tantos anos vendo a Marvel transformar seus personagens em produtos de uma máquina que parece incapaz de descansar, é muito bom assistir a uma produção que simplesmente deseja contar sua própria história.
Mas não quero repetir um erro que sempre critiquei no cinema de super-heróis: confundir uma boa proposta com um grande resultado.
O filme possui ótimos efeitos, boas atuações e uma ambientação convincente. Sua construção científica respeita o espectador, enquanto a independência narrativa permite que a história respire sem a obrigação de promover o próximo lançamento do estúdio.
Por outro lado, temos um roteiro que recicla ideias já muito exploradas pelo gênero e uma direção que não parece interessada em transformar todo esse potencial em uma identidade visual memorável.
É um ótimo filme dentro daquilo que se propõe a fazer, mas não consigo ignorar a sensação de que poderia ter ido muito além.
Na minha crítica de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, reclamei que a Marvel parecia incapaz de permitir que seus diretores fizessem cinema sem a interferência constante da franquia.
Agora, com “Cara de Barro”, temos uma situação quase oposta: a DC parece disposta a permitir que seus filmes existam individualmente, mas isso não garante que seus diretores saibam aproveitar a oportunidade.
A liberdade criativa é fundamental, mas também precisamos de artistas dispostos a utilizá-la. E talvez essa seja minha maior frustração com “Cara de Barro”.
Pela primeira vez em muito tempo, não senti falta de um universo maior, de outros personagens ou de alguma grande promessa para o futuro.
Senti falta de um diretor mais ambicioso. Porque, desta vez, o monstro não precisava ser maior, mas o cinema poderia ter sido.
