Dois detentos que subiram na caixa d’água do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros, em São Paulo, em tentativa de fuga nesta semana, colocaram em alerta as quatro unidades do complexo prisional, enquanto a rotina do CDP Pinheiros II também foi marcada por um evento em homenagem ao Dia da Visibilidade Trans, voltado às 113 mulheres transexuais custodiadas ali.
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A ocorrência da fuga, acompanhada ao vivo por equipes de segurança, escancara fragilidades na estrutura e na vigilância do CDP, que reúne as unidades Pinheiros I, II, III e IV. Já a ação no CDP II, com atividades de saúde, beleza e orientação jurídica, mostra um esforço institucional da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) para humanizar o sistema, sobretudo para a população LGBTQIAP+ privada de liberdade.
O que aconteceu na tentativa de fuga no CDP de Pinheiros?
Dois presos tentaram fugir ao subir na caixa d’água de uma das unidades do CDP Pinheiros, em São Paulo, o que levou à imediata mobilização de agentes e equipes de segurança dentro e fora do presídio.
De acordo com informações internas, os homens escalaram a estrutura em área de circulação da unidade, gerando risco de queda e possibilidade de acesso a pontos sensíveis da instalação. A movimentação obrigou a interrupção de rotinas internas, com servidores concentrados na negociação e contenção dos detentos.
A SAP deve abrir apuração para mapear eventuais falhas de vigilância, checar se houve colaboração de outros presos e avaliar se a área da caixa d’água precisa de novas barreiras físicas ou reforço de efetivo. A avaliação é que ações como essa pressionam ainda mais um sistema já sobrecarregado e podem resultar em revisão de protocolos de escolta, ronda e monitoramento em altura.
Na prática, episódios de fuga ou tentativa de fuga impactam diretamente a segurança de servidores e reclusos, além de provocar efeito cascata nas demais unidades do complexo, que entram em regime de atenção redobrada, com revistas mais rigorosas e suspensão temporária de algumas atividades coletivas.
Como foi a escalada na caixa d’água pelos presos no CDP de Pinheiros?
Os dois detentos alcançaram a caixa d’água utilizando estruturas internas do próprio prédio, o que indica pontos de acesso possíveis a áreas elevadas do CDP Pinheiros que agora devem ser mapeados com mais rigor.
Após subir, a dupla permaneceu por tempo prolongado na parte superior da construção, em posição que dificultava a aproximação de agentes e aumentava o risco de queda. A situação exigiu isolamento do entorno, presença de equipes especializadas e negociação para que os presos descessem sem ferimentos.
A escalada, transmitida em tempo real por registros internos e relatos de funcionários, expôs a necessidade de rever cercamentos, grades e bloqueios de passagens que levam a telhados e caixas d’água, além de reforçar o treinamento das equipes para lidar com incidentes em altura, comuns em presídios verticalizados.
Como o CDP Pinheiros tem tratado a população trans e transexual?
O CDP Pinheiros II abriga 113 mulheres transexuais em alas específicas, seguindo a Resolução nº 11 da Secretaria da Administração Penitenciária, que garante uso de nome social, vestimenta adequada à identidade de gênero e alojamento que preserve a dignidade.
Nesta semana, a unidade realizou um evento em alusão ao Dia da Visibilidade Trans, comemorado oficialmente em 29 de janeiro, inspirado na música “Indestrutível”, de Pabllo Vittar. A programação incluiu bate-papo com gestores, roda de conversa sobre saúde, orientações jurídicas e um momento de beleza com itens arrecadados pelos servidores, além de café da manhã e apresentação musical.
O diretor geral substituto do CDP II, Gamaliel Domingos Sales Junior, participou do encontro e destacou a necessidade de reconhecer as barreiras enfrentadas por essa população antes e durante o encarceramento. “As dificuldades enfrentadas pelo público LGBTQIAP+ no cárcere e na sociedade são grandes e precisam ser reconhecidas”, afirmou.
A servidora Ana Maria Bezerra falou sobre avanços na legislação e nas rotinas processuais voltadas a pessoas trans, enquanto a diretora de saúde, Gabriela Marinho, comandou uma roda de conversa sobre doenças sexualmente transmissíveis, tirando dúvidas e reforçando a importância do cuidado contínuo em saúde dentro do presídio.
Segundo a SAP, a Resolução nº 11, em vigor há mais de uma década, orienta todas as unidades prisionais do estado a garantir direitos básicos a travestis e transexuais, como o uso de corte de cabelo e roupa íntima de acordo com a identidade de gênero, o registro do nome social em documentos internos e, quando solicitado, a alocação em celas ou alas específicas.
Voz das reeducandas trans
As próprias mulheres transexuais do CDP Pinheiros II relatam que ações como a da Visibilidade Trans têm impacto direto na autoestima e na sensação de pertencimento. Para Manuela, o cenário mudou em relação ao passado recente: “O Dia da Visibilidade representa uma conquista e isso deve ser comemorado com alegria”, disse.
Maryanna afirma que os projetos desenvolvidos na unidade a ajudam a ressignificar a passagem pelo cárcere. “Essas ações nos dão vida por meio da beleza e hoje sou mais que um número de matrícula”, declarou, ao comentar as atividades que unem cuidado estético e acolhimento emocional.
Natasha relata ter encontrado no presídio uma rede de apoio que não esperava do lado de fora. “Encontrei apoio e oportunidades em um lugar onde menos esperava, sou grata à SAP e aos servidores”, afirmou, defendendo que mais iniciativas semelhantes sejam levadas para outras unidades prisionais do estado.
Entenda o contexto
O complexo de Pinheiros reúne quatro Centros de Detenção Provisória (CDP Pinheiros 1, 2, 3 e 4), que concentram presos provisórios da capital paulista e da região metropolitana. As unidades convivem com problemas estruturais típicos do sistema prisional brasileiro, como superlotação, falta de servidores e pressão constante sobre as equipes de segurança e de saúde.
A tentativa de fuga com a escalada da caixa d’água expõe novamente o lado mais crítico desse cenário, com riscos de rebeliões, acidentes graves e danos à estrutura. Em paralelo, iniciativas como o evento da Visibilidade Trans no CDP Pinheiros II buscam enfrentar outra dimensão do problema: a violação de direitos e a vulnerabilidade extrema de grupos específicos, como pessoas trans, dentro das prisões.
Após o episódio da fuga frustrada, a expectativa é que a SAP intensifique a revisão de protocolos de segurança e, ao mesmo tempo, mantenha e amplie políticas de inclusão e respeito à diversidade. O equilíbrio entre controle rigoroso e garantia de direitos segue como o principal desafio para o complexo de Pinheiros e para o sistema prisional paulista como um todo.