Fale com a gente NC News TV Ao Vivo

Jovens passam até 4,5 horas por dia ouvindo conteúdos e especialistas alertam para isolamento e perda auditiva

Pesquisa revela o espaço ocupado por músicas e podcasts na rotina; OMS estima que mais de 1 bilhão de jovens estejam expostos a práticas sonoras de risco, enquanto especialistas discutem os impactos do isolamento acústico nas relações sociais.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Os fones de ouvido se tornaram companhia constante de muitos jovens, seja no transporte público, durante os estudos, na academia ou até nas tarefas domésticas. Uma pesquisa da Edison Research aponta que pessoas de 13 a 34 anos passam, em média, 4,5 horas por dia consumindo músicas, podcasts e outros conteúdos sonoros. O hábito, embora ofereça entretenimento e momentos de privacidade, preocupa especialistas por seus possíveis efeitos na audição, na atenção ao ambiente e nas oportunidades de convivência social.

O alerta vai além do comportamento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de jovens entre 12 e 35 anos estão expostos a práticas de escuta que podem provocar perda auditiva.

Uma revisão científica publicada na revista BMJ Global Health estimou que 23,8% dos adolescentes e adultos jovens analisados apresentavam hábitos de escuta considerados inseguros com dispositivos pessoais de áudio. O risco está relacionado principalmente à combinação entre volume elevado, duração e frequência da exposição sonora.

Ao mesmo tempo, pesquisadores investigam como a utilização constante dos fones pode transformar experiências cotidianas. A preocupação não é apenas ouvir música por muitas horas, mas deixar de perceber conversas, sons e situações que fazem parte da vida ao redor. Especialistas ressaltam, porém, que não existe comprovação de que utilizar fones cause isolamento social automaticamente. O impacto depende de como, quando e por que esses dispositivos são utilizados.

Brasileiros consomem cada vez mais áudio, mas estão falando menos; entenda os impactos

Jovens passam horas ouvindo música e podcasts durante o dia

O consumo de conteúdos sonoros se tornou uma das atividades mais presentes na rotina das novas gerações.

De acordo com a pesquisa da Edison Research, pessoas entre 13 e 34 anos dedicam, em média, quatro horas e meia por dia a músicas, podcasts e outros formatos de áudio.

Isso equivale a aproximadamente 31 horas e 30 minutos de consumo sonoro por semana.

O levantamento não significa que todas essas horas sejam passadas com fones de ouvido. Parte do conteúdo também pode ser reproduzida em caixas de som, computadores e outros equipamentos.

Ainda assim, a facilidade de utilizar dispositivos sem fio contribui para que a experiência de ouvir conteúdos acompanhe diferentes momentos do dia.

Um levantamento da Sociedade de Pediatria de São Paulo, divulgado em fevereiro de 2026, aponta que crianças frequentemente ultrapassam duas horas diárias utilizando fones, enquanto adolescentes podem superar quatro horas, especialmente em atividades de lazer.

O documento ressalta que a exposição prolongada, principalmente sem pausas e em volumes elevados, exige atenção.

Jovem relata dificuldade até para lavar louça sem fones

A experiência da nova-iorquina Atira Gali, de 24 anos, ajuda a ilustrar como ouvir música pode se transformar em um hábito automático. Em entrevistas ecentes, ela contou que costuma utilizar fones durante o deslocamento para o trabalho, no expediente e nas atividades domésticas.

Segundo a jovem, sua retrospectiva do Spotify já havia registrado 33.500 minutos de música em meados de novembro de 2025, o equivalente a mais de 558 horas.

Ela explicou que a música torna tarefas repetitivas mais agradáveis, mas reconheceu que passou a sentir dificuldade para realizar determinadas atividades em silêncio.

“Eu não consigo nem lavar a louça sem meus fones de ouvido porque simplesmente fico entediada”, relatou Atira Gali.

A jovem decidiu experimentar uma mudança na rotina e passou a caminhar até o trabalho sem ouvir música.

Depois de apenas dois dias, percebeu detalhes de seu bairro que não havia observado anteriormente, incluindo placas anunciando a abertura de quatro estabelecimentos comerciais.

Atira contou que fazia o mesmo trajeto diariamente, mas costumava caminhar com a atenção concentrada no conteúdo reproduzido pelos fones.

O relato é uma experiência individual, e não uma prova de que o uso dos aparelhos provoque perda permanente de atenção.

Fones podem diminuir oportunidades de interação social?

Além da audição, pesquisadores têm chamado atenção para os possíveis efeitos do isolamento acústico nas relações humanas.

Gloria Mark, professora de informática da Universidade da Califórnia, em Irvine, avalia que o uso constante de fones pode funcionar como uma barreira entre a pessoa e o ambiente.

Essa barreira nem sempre é intencional. Muitas vezes, os dispositivos são utilizados simplesmente porque ouvir música ou podcasts se tornou parte da rotina.

Entretanto, a presença dos fones pode sinalizar que alguém não está disponível para conversar, reduzindo a possibilidade de interações espontâneas.

Uma conversa rápida durante o intervalo das aulas, uma troca de comentários no transporte público ou um cumprimento no corredor são exemplos de contatos que podem deixar de acontecer quando as pessoas permanecem concentradas em conteúdos individuais.

Richard Davidson, fundador do Center for Healthy Minds, da Universidade de Wisconsin-Madison, também demonstra preocupação com a mudança.

Em entrevista à CNN Internacional, ele estimou que cerca de 90% dos estudantes que circulam pelo campus da universidade utilizam fones de ouvido. A porcentagem representa uma observação pessoal do pesquisador, e não o resultado de um levantamento estatístico sobre todos os estudantes.

Na avaliação de Davidson, essas mudanças podem limitar oportunidades de conhecer pessoas com experiências, ideias e origens diferentes.

Entretanto, os especialistas não afirmam que ouvir música seja prejudicial por natureza. A questão é identificar quando o hábito começa a substituir interações que a pessoa gostaria de manter.

Pesquisa brasileira encontra associação entre uso prolongado e sintomas psicossociais

Um trabalho científico apresentado no Congresso Internacional de Ciências de 2026 analisou a utilização de fones de ouvido e indicadores de bem-estar psicológico entre 52 estudantes universitários.

A pesquisa, conduzida por Juliana Gonçalves Vasconcelos Miranda, identificou que 36,5% dos participantes utilizavam os dispositivos entre uma e duas horas diariamente.

Outros 15,4% relataram usar fones por mais de cinco horas por dia.

Em relação ao volume, 28,8% afirmaram ouvir conteúdos em intensidade elevada, enquanto 71,2% disseram já ter utilizado o volume máximo do aparelho em alguma ocasião.

O estudo também identificou que 40,4% dos participantes relataram sensação constante de tensão e 34,6% apresentaram problemas de sono relacionados a preocupações.

Na análise estatística, os pesquisadores encontraram uma correlação positiva moderada entre o tempo de uso dos fones e indicadores de sofrimento psicológico.

Isso significa que, naquela amostra, os participantes que utilizavam os aparelhos por mais tempo tendiam a apresentar pontuações mais elevadas no questionário de saúde mental aplicado.

O estudo, entretanto, foi realizado com um grupo pequeno e utilizou informações declaradas pelos próprios participantes. Por ser uma pesquisa transversal, não permite concluir que os fones tenham provocado estresse, ansiedade ou isolamento.

Os resultados indicam uma associação que merece novas investigações, preferencialmente com amostras maiores e acompanhamento dos participantes ao longo do tempo.

OMS estima que mais de 1 bilhão de jovens estejam em risco auditivo

Se os possíveis efeitos sociais ainda estão sendo investigados, os riscos provocados pela exposição excessiva a sons intensos possuem evidências científicas mais consolidadas.

Uma revisão sistemática publicada em 2022 na revista BMJ Global Health reuniu 33 estudos, com informações de 19.046 participantes.

Os pesquisadores avaliaram práticas de escuta em pessoas de 12 a 34 anos e identificaram que aproximadamente 23,8% estavam expostas a níveis sonoros considerados inseguros por meio de dispositivos pessoais de áudio.

Nos ambientes de entretenimento, como festas, shows e casas noturnas, a estimativa de exposição insegura foi de 48,2%.

Com base nesses resultados e na população mundial da faixa etária analisada, o estudo estimou que entre 670 milhões e 1,35 bilhão de jovens poderiam estar sob risco de perda auditiva.

A OMS utiliza essas evidências para alertar sobre a necessidade de prevenir danos causados pelo volume excessivo.

É importante destacar que esses números representam pessoas potencialmente expostas a condições perigosas, não a quantidade de indivíduos que já desenvolveram perda auditiva.

O risco também não é provocado exclusivamente por fones. Shows, eventos esportivos, jogos eletrônicos e outras fontes de som intenso fazem parte das exposições consideradas.

Por que ouvir música alta pode causar danos permanentes?

A audição depende de estruturas sensíveis localizadas no ouvido interno, especialmente na cóclea.

Nessa região existem células ciliadas responsáveis por transformar as vibrações sonoras em sinais elétricos interpretados pelo cérebro.

Quando uma pessoa permanece exposta a sons muito intensos, essas células podem sofrer danos.

Em seres humanos, as células ciliadas auditivas não possuem capacidade significativa de regeneração. Por isso, determinadas lesões provocadas pelo ruído podem resultar em perda permanente da audição.

O risco depende de três fatores principais: intensidade sonora, duração da exposição e frequência com que a pessoa é submetida ao ruído.

Isso significa que ouvir música durante algumas horas em volume reduzido não apresenta necessariamente o mesmo risco que utilizar os fones em volume máximo durante períodos prolongados.

A Sociedade de Pediatria de São Paulo alerta que alguns dispositivos podem atingir intensidades superiores a 100 decibéis, nível que reduz consideravelmente o tempo recomendado de exposição.

A perda auditiva pode se desenvolver gradualmente, sem que a pessoa perceba imediatamente as mudanças.

Qual é o volume seguro para usar fones de ouvido?

A Organização Mundial da Saúde recomenda que os usuários procurem manter o volume abaixo de 60% da capacidade máxima dos dispositivos.

A entidade também orienta monitorar a intensidade sonora e, sempre que possível, manter a média abaixo de 80 decibéis.

O tempo de exposição considerado seguro diminui rapidamente conforme o volume aumenta.

Segundo os parâmetros de referência divulgados pela OMS:

  • 80 decibéis: até 40 horas semanais de exposição.
  • 85 decibéis: aproximadamente 12 horas e 30 minutos por semana.
  • 90 decibéis: até 4 horas semanais.
  • 95 decibéis: aproximadamente 1 hora e 15 minutos semanais.
  • 100 decibéis: cerca de 20 minutos por semana.
  • 105 decibéis: aproximadamente 8 minutos semanais.

Os valores representam referências de exposição sonora para proteção auditiva, e não limites que garantam segurança absoluta em todas as circunstâncias.

Outro detalhe importante é que o indicador de volume exibido no celular não corresponde diretamente a uma intensidade fixa em decibéis. O resultado depende do modelo dos fones, do equipamento e das condições de reprodução.

Por isso, utilizar recursos que monitoram a exposição sonora pode ser mais preciso do que considerar apenas a porcentagem do volume.

Uso prolongado também pode provocar irritação e infecções

Além dos riscos relacionados à intensidade sonora, o uso contínuo de fones intra-auriculares pode provocar problemas no canal auditivo.

Segundo o otorrinolaringologista Bruno Borges de Carvalho Barros, em entrevista à CNN Brasil publicada em setembro de 2026, fatores como suor, umidade, calor e atrito precisam ser considerados.

Quando um dispositivo permanece dentro do ouvido por muitas horas, especialmente durante atividades físicas, pode dificultar a ventilação natural da região.

Essa condição pode favorecer irritações na pele e aumentar o risco de problemas como a otite externa.

O compartilhamento de fones e a falta de higienização também merecem atenção.

Entre os sinais de alerta estão coceira persistente, dor, secreção, sensação de ouvido abafado e desconforto após a utilização dos aparelhos.

A orientação é limpar os equipamentos conforme as instruções do fabricante, evitar compartilhá-los e procurar avaliação médica quando surgirem sintomas.

Fones com cancelamento de ruído são mais perigosos?

Os modelos que utilizam cancelamento ativo de ruído não são necessariamente mais prejudiciais à audição.

Na verdade, a tecnologia pode ajudar a reduzir a necessidade de aumentar o volume em locais movimentados, como ônibus, metrôs e ambientes de trabalho.

A OMS recomenda dispositivos bem ajustados e com cancelamento de ruído justamente porque eles podem diminuir a exposição a sons excessivamente altos.

Entretanto, o isolamento acústico exige cuidados em determinadas situações.

Durante deslocamentos em vias públicas, por exemplo, o bloqueio de sons externos pode dificultar a percepção de buzinas, avisos e outras informações importantes para a segurança.

Por esse motivo, é recomendável manter atenção ao ambiente e considerar modos de transparência, que permitem ouvir parte dos sons externos, quando necessário.

A diferença está no contexto de utilização: em um ambiente controlado, reduzir o ruído externo pode ser confortável e até ajudar na proteção auditiva; em situações que exigem atenção ao trânsito, o isolamento excessivo pode representar um risco adicional.

Por que algumas pessoas sentem dificuldade de ficar em silêncio?

Além dos aspectos médicos, a discussão envolve a relação dos jovens com o tédio e com os momentos sem estímulos digitais.

Gloria Mark observa que a disponibilidade constante de músicas, vídeos, podcasts e redes sociais facilita preencher qualquer intervalo da rotina com algum conteúdo.

Esperar o ônibus, caminhar até o trabalho ou realizar uma tarefa doméstica são atividades que podem ser acompanhadas por estímulos sonoros.

A preocupação dos especialistas é que algumas pessoas deixem de experimentar períodos de silêncio e de atenção livre ao ambiente.

Richard Davidson destaca que momentos sem distrações também podem oferecer oportunidades para observar os próprios pensamentos e perceber situações que normalmente passam despercebidas.

Isso não significa que ouvir música impeça o autoconhecimento ou prejudique necessariamente a concentração.

Para algumas pessoas, os fones ajudam a organizar a rotina, reduzir distrações externas e tornar atividades desagradáveis mais confortáveis.

O ponto discutido pelos pesquisadores é a flexibilidade: conseguir escolher quando ouvir algo e quando permanecer em silêncio, em vez de sentir necessidade de preencher todos os momentos com estímulos sonoros.

O que dizem os jovens sobre viver conectados?

A experiência de Atira Gali não é a única a mostrar como os fones se tornaram parte da identidade cotidiana de muitos jovens.

Annabel Franklin, de 24 anos, também moradora de Nova York, contou à CNN Internacional que costuma ouvir música ou podcasts por aproximadamente 12 horas ao dia.

Segundo ela, o comportamento está tão integrado à sua rotina que dificilmente passa longos períodos sem utilizar os aparelhos.

A jovem não considera que tenha uma dependência dos fones, mas reconhece que prefere realizar as atividades acompanhada por conteúdos sonoros.

O relato demonstra que a frequência de uso, isoladamente, não permite diagnosticar uma dependência ou um transtorno de comportamento.

Para caracterizar um problema clínico, seria necessário avaliar fatores como sofrimento significativo, perda de controle e prejuízos concretos à vida cotidiana.

Ao mesmo tempo, as experiências de Atira e Annabel ajudam a ilustrar como os dispositivos passaram a acompanhar praticamente todas as atividades diárias.

Brasil também registra mudanças na forma de consumir áudio e conversar

O avanço do consumo de conteúdos sonoros também aparece em pesquisas brasileiras.

Um levantamento do Ibope, apresentado no Audio Pulse 2026 e abordado anteriormente pelo NC News, apontou que 93% da população pesquisada havia consumido algum formato de áudio nos 30 dias anteriores.

Entre os ouvintes de rádio, 31% também acompanhavam podcasts, enquanto 60% utilizavam plataformas de streaming musical.

Outro estudo, publicado em 2026 na revista Perspectives on Psychological Science, identificou uma redução estimada de 28% na quantidade de palavras faladas diariamente entre 2005 e 2019.

A pesquisa analisou dados de 2.197 participantes, de diferentes faixas etárias, e observou uma queda mais acentuada entre os mais jovens.

Os pesquisadores não estabeleceram que os fones de ouvido ou o consumo de áudio tenham causado essa diminuição.

Os levantamentos tratam de comportamentos distintos, mas ajudam a mostrar como a tecnologia alterou as formas de comunicação e ocupação do tempo.

Enquanto músicas, podcasts e mensagens digitais oferecem novas maneiras de aprender e se conectar, especialistas também destacam a importância de preservar oportunidades de conversa e convivência presencial.

Como utilizar fones sem prejudicar a audição e a convivência?

A recomendação dos profissionais de saúde não é abandonar os fones de ouvido, mas adotar hábitos mais conscientes.

Manter o volume em níveis moderados, fazer pausas regulares e evitar a exposição prolongada a sons intensos são medidas importantes para reduzir o risco de lesões auditivas.

A OMS recomenda intervalos em locais silenciosos, especialmente depois de períodos de exposição elevada, e orienta que os usuários prestem atenção a sinais como zumbido, dificuldade de compreender conversas e necessidade frequente de aumentar o volume.

Também é importante evitar dormir com os fones reproduzindo áudio continuamente, pois isso pode acrescentar várias horas de exposição sonora ao longo da noite.

No aspecto social, os especialistas sugerem reservar alguns momentos do dia para interagir com outras pessoas e observar o ambiente sem distrações.

Tirar os fones durante uma refeição compartilhada, uma conversa ou um deslocamento que exige atenção pode ajudar a equilibrar privacidade e convivência.

Essas escolhas não precisam ser transformadas em regras rígidas. O silêncio também pode ser uma necessidade de descanso, especialmente para pessoas sensíveis a estímulos sonoros ou que precisam de momentos de recolhimento.

O principal é reconhecer quando o uso dos dispositivos está sendo uma escolha consciente e quando começa a provocar dificuldades no cotidiano.

Os dados científicos mostram que a exposição excessiva a sons intensos representa um risco real à audição. Já os possíveis impactos sociais e psicológicos do uso constante ainda exigem estudos mais amplos.

Em uma rotina cada vez mais acompanhada por músicas e podcasts, o desafio não é deixar de ouvir conteúdos, mas encontrar espaço para escutar também o próprio ambiente e as pessoas que fazem parte dele.

Carregar Comentários