O padre Mário Reis da Silveira, da Paróquia Senhor Bom Jesus do Bonfim, em Ribeirão Preto (SP), tornou-se o centro de uma grave investigação conduzida pela Polícia Civil. O sacerdote é acusado de assédio sexual contra ex-frequentadores da igreja, em crimes que teriam ocorrido há cerca de 20 anos.
Silveira foi afastado por tempo indeterminado de suas funções na paróquia no mês de março. O inquérito está nas mãos da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), que já apreendeu os aparelhos celulares do padre para perícia e aguarda a emissão de laudos antes de colher o depoimento formal do suspeito.
Por meio de suas redes sociais, o sacerdote se manifestou afirmando que aguarda o resultado das apurações. “Estarei afastado até que se investigue veracidade ou falsidade da acusação que me chega. Seguirei rezando e contribuindo para a completa elucidação dos fatos alegados”, publicou.

O padrão dos abusos relatados
As investigações reúnem os relatos de pelo menos cinco pessoas que hoje são adultas, mas que eram crianças ou adolescentes na época dos crimes. As testemunhas descrevem um padrão semelhante adotado pelo sacerdote, que se aproveitava de sua posição de autoridade religiosa.
De acordo com o perfil geral dos depoimentos colhidos:
- As vítimas: Eram jovens muito inseridos na comunidade católica, geralmente atuando como coroinhas após realizarem o sacramento da Primeira Eucaristia.
- O local e o momento: Como as atividades da igreja eram sempre públicas, o sacerdote isolava as vítimas pedindo que o aguardassem para conversas particulares na sacristia (sala de uso do padre) logo após o fim das missas.
- A violência: Com a porta fechada, o padre investia contra os adolescentes com abraços forçados, beijos no pescoço, no rosto e na boca.
- Os relatos também incluem toques sem consentimento nas partes íntimas das vítimas e investidas para que os jovens tocassem no agressor.
- As vítimas descrevem o sentimento de “paralisia” durante as abordagens, sentindo-se tratadas como objetos e incapazes de reagir diante da figura de liderança do agressor.
Silêncio, trauma e denúncia tardia
Os episódios deixaram sequelas psicológicas severas nos denunciantes, que relatam sentimentos de culpa e dificuldades para estabelecer relacionamentos afetivos saudáveis na vida adulta. O trauma também fez com que se afastassem definitivamente da Igreja Católica.
No passado, a família de uma das vítimas chegou a procurar a Arquidiocese Metropolitana de Ribeirão Preto para relatar o caso. No entanto, de acordo com a fonte, a instituição religiosa exigiu que o adolescente, profundamente abalado, redigisse uma carta de próprio punho detalhando os abusos para que a queixa fosse adiante — o que o impediu de prosseguir.
A decisão das vítimas de levarem o caso à esfera criminal neste momento, rompendo décadas de silêncio, é impulsionada pelo desejo de proteger as novas gerações. Hoje pais de família, os denunciantes afirmam que a motivação para reabrir as feridas é garantir que outras crianças não passem pelo mesmo sofrimento nas mãos de seus agressores.