O argentino Sebastián Beccacece passa, na marra, de técnico pressionado a símbolo de resistência no Equador. Em 25 de junho de 2026, às 17h (de Brasília), ele comanda uma virada por 2 a 1 sobre a Alemanha, no MetLife Stadium, nos Estados Unidos, e corre para a arquibancada para comemorar com torcedores. O resultado mantém viva a seleção no Mundial de Seleções e, por tabela, o emprego do treinador.
Virada, arquibancada e desabafo em Nova Jersey
A partida contra a Alemanha nasce como julgamento público do trabalho iniciado em 2024. O Equador entra em campo com apenas 1 ponto, depois de perder por 1 a 0 para a Costa do Marfim e empatar em 0 a 0 com Curaçao, estreante em Mundiais. Do outro lado, uma Alemanha líder do Grupo E, com 6 pontos.
O roteiro parece repetir o drama de sempre quando os alemães abrem o placar com um gol relâmpago aos 4 minutos. A reação, porém, vem cedo. Aos 9, Angulo empata e devolve a seleção sul-americana ao jogo e ao torneio. O empate segura até os 32 do segundo tempo, quando Gonzalo Plata completa cruzamento após escanteio, debaixo da trave, sem chance para Neuer.
O segundo gol aciona algo em Beccacece. O técnico dispara em direção à arquibancada, escala o alambrado, some por instantes entre camisas amarelas. Torcedores o puxam pelos ombros e pela camisa, numa cena improvável para quem, horas antes, se dizia pronto para ir embora.
Naquele momento, o Equador passa a 4 pontos e entra entre os oito melhores terceiros colocados, com chance real de seguir ao mata-mata. Em campo, os jogadores se abraçam. Fora dele, o treinador que divide o país vira, por alguns minutos, um torcedor em transe.
“Se as coisas não acontecerem, terei que ir embora”
A explosão emocional tem contexto. Na véspera, em 24 de junho de 2026, Beccacece admite publicamente que sua continuidade depende do desempenho no Mundial. A entrevista coletiva, em Nova Jersey, funciona quase como um pré-aviso de demissão.
“Ainda temos uma possibilidade de avançar. Se as coisas não acontecerem, terei que ir embora. É um lugar de que gosto muito, mas sei que o futebol é feito de resultados, independentemente do merecimento”, diz o técnico, em tom sereno. A frase corre o país e alimenta a sensação de fim de ciclo.
A campanha recente não justificava tamanho abismo. Desde que assume a seleção em 2024, Beccacece perde apenas duas partidas antes do torneio e conduz o Equador ao segundo lugar nas Eliminatórias Sul-Americanas, à frente de Brasil e Uruguai. A boa fase sustenta a aposta da federação e cria expectativa em torno de um time jovem e agressivo.
O Mundial, porém, não perdoa tropeços. O revés para a Costa do Marfim e o empate sem brilho com Curaçao detonam uma onda de críticas. O treinador vira alvo direto das arquibancadas. “No outro dia, fizemos tudo o que podíamos para marcar pelo menos dois gols, mas não conseguimos. E isso se traduz em raiva nas pessoas, o que é compreensível. Eu nunca reajo aos insultos das pessoas. Eu os entendo e os aceito”, afirma.
Confiança interna, desconfiança nas arquibancadas
O contraste entre o técnico abraçado por torcedores no MetLife e a rejeição nas semanas anteriores expõe a fratura da relação. O próprio Beccacece reconhece que ainda não conquistou o país que agora o ergue nos braços.
“Ainda não consegui entrar no coração do torcedor. Conquistei a confiança dos meus jogadores, das pessoas que trabalham comigo e de quem está na seleção, mas claramente ainda não conquistei o torcedor. Há coisas em mim que talvez eles não gostem”, admite.
Dentro da federação e do elenco, o cenário é outro. A diretoria mantém o treinador mesmo sob pressão, amparada pela campanha nas Eliminatórias e pela boa relação com o vestiário. Jogadores se alinham ao discurso de proteção coletiva. O próprio técnico insiste que as cobranças devem mirá-lo, não o grupo.
“Sou grato ao Equador e me sinto melhor do que quando cheguei. E devo isso ao Equador também; sempre levo algo de cada lugar por onde passo. Prefiro que fiquem bravos comigo do que com os rapazes, porque eles dão tudo de si”, afirma.
A cena do “técnico que pula arquibancada” cristaliza essa tentativa de reaproximação. Um treinador conhecido pelo estilo intenso, que nos clubes se desdobra à beira do gramado, escolhe se lançar literalmente em direção ao setor que mais o contesta.
Classificação, dinheiro em jogo e futuro em aberto
A vitória sobre a Alemanha reduz a temperatura, mas não encerra o caso Beccacece. O Equador ainda depende da combinação de resultados no grupo e da tabela geral para confirmar a vaga no mata-mata como um dos melhores terceiros colocados. A Costa do Marfim, com 3 pontos, briga pela segunda posição, enquanto Curaçao tenta surpreender de novo.
No plano financeiro, a classificação à segunda fase significa mais do que alívio esportivo. As seleções que avançam garantem ao menos R$ 57 milhões (US$ 11 milhões) em premiação. O campeão fatura R$ 259 milhões (US$ 50 milhões). Para o futebol equatoriano, que usa o Mundial como vitrine e fonte de receita, a continuidade no torneio pesa nas contas e na projeção internacional dos atletas.
O impacto também é interno. Uma eliminação precoce provavelmente detonaria a saída do argentino e forçaria a federação a acelerar a busca por um novo nome, com reflexos nos projetos de longo prazo. O trabalho iniciado em 2024, baseado em renovação gradual e em um modelo de jogo propositivo, poderia ser interrompido no meio do ciclo.
Beccacece não foge desse cenário. “Temos a possibilidade de seguir em frente e, se as coisas não derem certo, terei que deixar um lugar que amo muito… mas sei que tudo se resume a resultados”, reforça. Ao mesmo tempo, insiste que, qualquer que seja o desfecho, sai “melhor do que quando chegou”.
O que se vê no MetLife Stadium, no entanto, é um personagem que adia a própria sentença com uma escalada literal. O treinador que transforma a beira do campo em arquibancada, e a arquibancada em extensão do banco de reservas, compra tempo e altera a narrativa de sua passagem pelo Equador.
Os próximos dias dirão se a imagem do técnico pendurado no alambrado será lembrada como o início de uma reconciliação ou como o último grande ato antes da ruptura. Por ora, o país que o olhava com desconfiança observa um treinador que se joga, sem rede, sobre o julgamento de seus torcedores.
Beccacece já está garantido no cargo após a virada?
Não. A vitória sobre a Alemanha reduz a pressão e fortalece o técnico, mas ele mesmo condiciona sua permanência à continuidade do Equador no Mundial.
O que a classificação ao mata-mata representa para o Equador?
Além do peso esportivo e de visibilidade, a vaga rende ao menos R$ 57 milhões em premiação e valoriza jogadores e projeto da seleção.
Por que Beccacece é tão questionado mesmo com boa campanha nas Eliminatórias?
Os maus resultados no início do Mundial e a falta de identificação plena com a torcida derrubam a confiança, apesar do desempenho sólido desde 2024.