A organização do Mundial de Seleções aplica, em menos de dois anos, três punições que atingem de frente a disciplina em campo e o combate à discriminação. A CBF é multada em 20 mil dólares após Brasil x Japão, Madibo pega cinco jogos de suspensão por fraturar o canadense Ismael Koné, e a federação israelense recebe sanção de 150 mil francos suíços por omissão diante de atos racistas.
Brasil paga por cartões, Catar perde peça-chave
A multa ao Brasil nasce de um jogo elétrico em 18 de junho de 2026, quando a seleção vence o Japão por 2 a 1 e sofre para virar o placar. Danilo e Casemiro recebem cartões amarelos, o que, pelo artigo 14 do Código Disciplinar, custa 10 mil dólares por advertência. A conta chega a 20 mil dólares para a CBF.
O valor é modesto para uma das entidades mais ricas do futebol, mas a mensagem é clara. A organização transforma cada detalhe disciplinar em custo mensurável, com potencial de influenciar a forma como técnicos orientam seus jogadores em partidas decisivas.
Em campo, o jogo em questão reforça o peso de Casemiro no elenco. O Japão abre o placar com Kaishu Sano, em chute de fora da área, ainda no primeiro tempo. O Brasil reage na etapa final, empata com Casemiro e vira nos acréscimos com Gabriel Martinelli.
Carlo Ancelotti sai do gramado exaltando a profundidade do elenco e, indiretamente, a intensidade que cobra preço nos cartões. “Temos muitos recursos, no banco e no campo, é bom que os jogadores individualmente estão em bom nível. Temos que valorizar. Partida muito exigente. Japão não é uma equipe fácil, é intensa, muito organizada”, diz o técnico.
Enquanto o Brasil lida com o impacto financeiro e o risco de suspensões futuras, o Catar perde bem mais que dinheiro. No duelo contra o Canadá, em Vancouver, válido pelo Grupo B, o volante Assim Madibo comete uma falta que redefine o rumo da própria participação no Mundial.
Aos cinco minutos do segundo tempo, perto da linha lateral, Ismael Koné toca a bola para trás. Madibo chega por trás, acerta o adversário e provoca fratura na perna do canadense. O lance choca os jogadores, gera revisão do árbitro no vídeo e termina com cartão vermelho direto para o catariano.
O Comitê Disciplinar reage com uma das punições mais duras já vistas no torneio. Em 24 de junho de 2026, anuncia suspensão de cinco partidas para Madibo, com base no artigo 14.1.e, que trata de “jogo sujo grave”. “O Comitê Disciplinar da Fifa impôs a seguinte sanção ao jogador da seleção do Catar, Assim Madibo, que foi expulso em decorrência de um cartão vermelho direto (…) suspensão de 5 jogos por violação do artigo 14.1.e (jogo sujo grave) do Código Disciplinar”, registra o comunicado.
A decisão vale para as próximas partidas do Catar no Mundial e, na prática, encerra o torneio para o volante. O texto ainda lembra que a medida está sujeita a recurso ao Comitê de Apelação, mas qualquer revisão levará tempo e dificilmente mudará o fato de que o Catar precisa redesenhar o meio-campo sem uma peça central.
Horas antes da sanção, Madibo procura Koné em Vancouver e pede desculpas pessoalmente. O gesto humaniza um caso que, do ponto de vista disciplinar, é tratado como símbolo da prioridade em proteger a integridade física dos atletas, mesmo quando há arrependimento individual.
Racismo em Israel leva multa recorde e plano obrigatório
Longe dos gramados da América do Norte, o foco se desloca das entradas violentas para as arquibancadas. Em 2024, após reunião do Conselho em maio, a organização decide punir a Federação Israelense de Futebol (IFA) por não agir diante de episódios reiterados de racismo e de declarações públicas consideradas inflamadas e politizadas.
Torcedores de clubes locais, entre eles o Beitar Jerusalem, protagonizam incidentes que se acumulam ao longo dos anos. O Comitê Disciplinar conclui que a federação não adota medidas eficazes para conter os abusos e aplica multa de 150 mil francos suíços, cerca de R$ 1,09 milhão. O valor supera com folga as punições financeiras vistas nos gramados do Mundial.
A sanção não se limita ao caixa da entidade. A IFA é obrigada a implementar um plano de prevenção à discriminação, com campanhas educativas, monitoramento reforçado e mensagens públicas. Também precisa exibir, de forma obrigatória, conteúdo contra discriminação em seus próximos três jogos em casa, em competições de nível A organizadas pela organização internacional.
A decisão insere o futebol israelense em uma vitrine global de direitos humanos. Ao cobrar ações concretas, o órgão tenta responder à crítica recorrente de que trata o racismo nas arquibancadas como problema secundário. Agora, a federação precisa transformar discurso em política permanente, sob risco de punições ainda mais duras no futuro.
Pressão política, impunidade parcial e riscos ao jogo
Na mesma leva de decisões, porém, a postura muda quando o tema são clubes israelenses em assentamentos na Cisjordânia ocupada. A Associação Palestina de Futebol (PFA) pede sanções à participação dessas equipes em ligas organizadas pela IFA. O Conselho remete o caso ao comitê de governança, que conclui pela não intervenção.
Em comunicado, a organização afirma que “não deve tomar nenhuma medida, considerando que, no contexto da interpretação das disposições relevantes dos Estatutos, o status legal final da Cisjordânia permanece uma questão não resolvida e complexa no direito internacional público”. O texto reconhece a complexidade jurídica e, ao mesmo tempo, cristaliza uma sensação de impunidade parcial.
A recusa em interferir nas ligas de clubes sediados em assentamentos expõe o limite da atuação esportiva em meio a disputas territoriais. A entidade se mostra mais segura ao agir sobre racismo nas arquibancadas e violência em campo do que ao tocar em questões que esbarram diretamente na diplomacia e no direito internacional.
O contraste cria um cenário ambíguo. De um lado, a CBF paga pelos cartões de Danilo e Casemiro e sabe que a repetição do problema cobra preço financeiro e esportivo. O Catar perde Madibo por cinco jogos e precisa se adaptar sem um titular em plena fase final do Mundial. Israel encara uma multa alta e a obrigação de mudar a cultura de seus estádios.
Do outro, clubes em territórios contestados continuam a atuar sob o guarda-chuva da federação israelense, blindados por um impasse jurídico que a própria entidade descreve como “não resolvido e complexo”. A mensagem ao público global é que nem todos os temas recebem a mesma disposição para intervenção.
Os próximos meses e anos serão o teste real das decisões tomadas. No curto prazo, a multa à CBF tende a acender discussões internas sobre disciplina e gestão de elenco em jogos grandes. A seleção do Catar buscará recurso para reduzir a suspensão de Madibo, mas precisa montar um plano imediato sem o volante. A Federação Israelense terá de provar, nos três jogos marcados por campanhas anti-discriminação e além deles, que transforma as sanções em mudança estrutural.
A médio prazo, o Comitê Disciplinar será cobrado por coerência. Cada nova entrada violenta, cada cântico racista, cada disputa territorial que atravesse o futebol será comparada a essas decisões. A forma como esses casos evoluem tende a definir não só o clima do próximo Mundial, mas também o peso da palavra da organização quando fala em integridade do jogo e respeito aos direitos humanos.
Por que o Brasil foi multado se venceu o jogo?
A multa não está ligada ao resultado da partida, mas aos cartões amarelos recebidos. Cada amarelo custa 10 mil dólares à confederação, somando 20 mil no caso de Danilo e Casemiro.
Madibo ainda pode atuar neste Mundial de Seleções?
Na prática, dificilmente. A suspensão de cinco jogos vale para as próximas partidas do Catar no torneio e esgota o calendário da equipe, mesmo que haja recurso.
O que a federação israelense é obrigada a fazer após a multa?
Além de pagar 150 mil francos suíços, a IFA deve adotar um plano de prevenção à discriminação, com campanhas educativas, monitoramento e mensagens anti-discriminação em três jogos em casa.