O lateral marroquino Achraf Hakimi, 27, do Paris Saint-Germain, terá de responder criminalmente por acusação de estupro na França após decisão do último dia 19, do mês de junho. O Tribunal de Apelação de Versalhes negou o pedido de arquivamento apresentado pela defesa e autorizou que o caso siga para julgamento no Tribunal Criminal Departamental.
Julgamento avança em meio ao Mundial de Seleções
A decisão ocorre enquanto Hakimi disputa o Mundial de Seleções nos Estados Unidos pela seleção de Marrocos. O jogador esteve em campo no empate por 1 a 1 contra o Brasil, na estreia marroquina, e volta a jogar contra a Escócia, em Boston, sob vaias de parte da torcida.
O processo coloca em choque duas dinâmicas poderosas: a agenda da Justiça francesa e a vitrine global do futebol. O caso testa os limites da presunção de inocência no esporte e pressiona federações e organizadores, que não dispõem de regras específicas para atletas sob investigação por crimes sexuais.
Denúncia em 2023 e indiciamento
O caso começa em 2023, quando uma jovem de 24 anos procura uma delegacia em Val-de-Marne, região sudeste de Paris. Ela relata ter sido estuprada por Hakimi após conhecer o jogador pelo Instagram e aceitar um convite para ir à casa dele.
Segundo o relato, o lateral inicia investidas sexuais sem consentimento e comete o estupro. A jovem diz ter conseguido fugir e pedir ajuda a uma amiga. Naquele momento, ela não registra queixa formal, mas o depoimento leva a polícia a acionar a promotoria de Nanterre, que assume o caso pela gravidade das acusações e pela notoriedade do jogador.
Em março de 2023, Hakimi é indiciado. O processo segue em sigilo, com colheita de depoimentos, perícias e exames psicológicos. A partir daí, a disputa se desloca para o terreno jurídico e para a opinião pública, alimentada por notas de advogados e manifestações do atleta nas redes sociais.
Tribunal vê elementos para levar caso a julgamento
O recurso analisado pelo Tribunal de Apelação de Versalhes buscava encerrar o processo antes do julgamento. Os magistrados, porém, consideram que há elementos suficientes para que o caso seja examinado em audiência criminal, com testemunhas, confrontos e análise detalhada das provas.
Com a negativa, o processo segue para o Tribunal Criminal Departamental, responsável por julgar crimes de médio e alto potencial ofensivo na jurisdição francesa. Não há data definida para o início do julgamento, que deve ocorrer na França, enquanto Hakimi mantém contrato com o PSG e compromissos com a seleção marroquina.
A advogada da denunciante, Rachel-Flore Pardo, afirma que a decisão representa um marco para sua cliente, que convive há mais de três anos com o caso. “Após mais de três anos de batalha judicial, depois de ter sido caluniada e difamada pela defesa de Achraf Hakimi, esta decisão traz à minha cliente alívio e esperança”, diz.
Defesa fala em contradições; Hakimi culpa a fama
A defesa do lateral marroquino insiste na inocência do jogador e sustenta que o processo deveria ter sido arquivado. A advogada Fanny Colin afirma que os elementos colhidos favoreceriam o réu em qualquer outro caso. “A quantidade de elementos favoráveis ao acusado revelados pela investigação e pela instrução judicial teria, em qualquer outro caso, levado ao arquivamento do processo”, declara.
Os advogados apontam o que chamam de contradições e “supostas mentiras” da denunciante, além de laudos psicológicos que indicariam postura ambivalente e falta de clareza no relato dos fatos. Esses documentos embasam a tese de que a Justiça estaria cedendo à pressão da opinião pública por se tratar de um atleta de alto perfil.
Hakimi, nascido em Madri e naturalizado pela seleção de Marrocos, reforça essa visão. Nas redes sociais, diz que o processo só existe porque é famoso. “Se não fosse conhecido, nunca teria existido um caso”, afirma. Em outra mensagem, se diz alvo de uma narrativa distorcida: “Hoje, uma história que não é a minha está sendo contada em prejuízo da minha família, da minha vida e, sobretudo, da verdade. Às vezes tenho a sensação de ter me tornado um alvo fácil”.
O lateral afirma ainda que aguarda o julgamento para se defender publicamente. “Espero por esse julgamento desde o primeiro dia. E agora o espero com impaciência. Finalmente, poderei falar”, escreve. Em manifestação anterior, já havia criticado o que vê como banalização de processos: “Hoje em dia, uma acusação de estupro é suficiente para justificar um julgamento, mesmo que eu a negue e tudo prove que é falsa. Isso é tão injusto para os inocentes quanto para as verdadeiras vítimas. Aguardo com serenidade este julgamento, que permitirá que a verdade venha à tona publicamente”.
Pressão sobre clubes, federações e organizadores
O caso Hakimi tem impacto além da esfera penal. O PSG, um dos clubes mais ricos da Europa, e a federação marroquina precisam administrar o desgaste de imagem de um de seus principais jogadores em plena temporada e durante o principal torneio de seleções do planeta.
Enquanto enfrenta o processo, Hakimi segue em campo. No Mundial, é alvo de vaias em partidas recentes, incluindo o duelo contra a Escócia. O ruído extracampos interfere na narrativa esportiva, desloca parte da atenção da imprensa para o processo judicial e afeta o ambiente em torno da seleção marroquina.
No plano institucional, o caso evidencia um vácuo regulatório. A entidade máxima do futebol não tem normas que proíbam a inscrição de atletas investigados ou processados por violência sexual. A responsabilidade recai sobre as federações nacionais, que precisam decidir se convocam ou afastam jogadores nessa situação.
A ausência de uma diretriz uniforme produz decisões díspares e críticas públicas. Segundo levantamento divulgado em junho, ao menos cinco jogadores presentes no Mundial de 2026 são ou foram investigados por acusações de estupro anteriores ao torneio. O cenário pressiona dirigentes a repensar critérios de convocação e políticas de integridade.
Direitos das vítimas e possível efeito precedente
Para organizações de defesa dos direitos das mulheres, o avanço do processo contra Hakimi representa um sinal de que a Justiça leva a sério denúncias de violência sexual, mesmo quando o acusado é uma estrela internacional. A leitura é de que a decisão de Versalhes reforça a mensagem de que a notoriedade não impede o andamento de ações penais.
Juristas e entidades de direitos humanos acompanham o caso como possível precedente para outras situações envolvendo atletas de elite. Um julgamento com ampla cobertura pode influenciar a forma como clubes, federações e patrocinadores reagem a denúncias semelhantes, seja com afastamentos provisórios, seja com códigos de conduta mais rígidos.
O desfecho ainda é incerto. A Justiça francesa terá de avaliar depoimentos, laudos e a consistência das versões em um processo marcado por forte exposição midiática. Até lá, Hakimi segue dividido entre treinos, jogos e reuniões com advogados, enquanto a jovem denunciantes continua à espera de uma resposta definitiva do Judiciário.
O caso deve atravessar o Mundial e a próxima temporada europeia, com potencial para definir não apenas o futuro de um dos laterais mais valorizados do futebol internacional, mas também os limites éticos que o esporte está disposto a estabelecer para seus protagonistas.