O atacante do Santos que se apresentava como Robinho Jr. volta a ser Juninho em 2026.
Nome no uniforme, peso no sobrenome
Juninho decide abandonar a identificação que o ligava diretamente ao pai, o ex-jogador Robinho, preso desde março de 2024 por estupro coletivo cometido em 2013, na Itália. O gesto tinha sido pensado como homenagem quando ele foi promovido ao profissional, em julho de 2023. Com a prisão do ex-atacante, o que era tributo passa a virar fardo em campo e fora dele.
O próprio clube registra o movimento: “O atacante Robinho Júnior, do Santos, voltou a se chamar apenas Juninho. O pedido foi feito pelo próprio jogador”, informa o material interno. A mudança vale para uniforme, súmulas e toda a comunicação oficial.
No CT Rei Pelé, porém, nada muda na forma de tratamento. Companheiros, comissão técnica e funcionários sempre o chamam de Juninho. O apelido acompanha o jogador desde a base e ajuda a explicar a decisão agora. Ele opta por alinhar o que vive no vestiário com o que o torcedor enxerga no estádio e na televisão.
Amistoso no Pacaembu vira vitrine
O novo velho nome ganhou palco em 4 de maio de 2024, na Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo. Em amistoso contra o União São João, o Santos vence por 3 a 0 e testa formações para a retomada das competições. Juninho entra no segundo tempo e muda o jogo.
O placar é construído inteiro na etapa final. Moisés abre, João Ananias amplia e Juninho fecha a conta. O atacante participa diretamente de dois gols. No segundo, cobra escanteio na pequena área e encontra o zagueiro João Ananias, que se antecipa ao goleiro e marca de cabeça. No terceiro, parte para cima do marcador, sofre pênalti de Léo Souza e assume a responsabilidade na marca da cal.
Gabigol se prepara para bater, mas entrega a bola ao garoto. “Na batida, ele chutou no canto direito, deslocando o goleiro”, descreve o relato do clube. O gol carimba o 3 a 0 e transforma o amistoso em marco simbólico: é a primeira vez em que Juninho, já sem o “Jr.” no nome de exibição, aparece como protagonista do time principal em um estádio histórico.
Desde que sobe ao profissional, ele acumula 27 jogos e segue em busca do primeiro gol em partida oficial. O amistoso, ainda que não conte para estatísticas de campeonatos, serve como recado para Cuca e para a torcida de que o atacante pode entregar mais do que participação discreta em minutos finais.
Incidente com Neymar mantém clima tenso
A retomada da identidade própria acontece em um momento de pressão rarefeita. Dois meses antes do amistoso, Juninho vive o episódio mais exposto da carreira ao levar um tapa no rosto de Neymar durante atividade no clube. O gesto do astro causa revolta em torcedores nas redes sociais e empurra a diretoria para uma resposta institucional.
O Santos abre sindicância interna e promete apurar responsabilidades. Neymar pede desculpas em público, mas o caso não se encerra. A cúpula alvinegra mantém o processo administrativo aberto e informa que ainda vai ouvir formalmente os dois atletas para “apurar todos os detalhes do desentendimento”.
O inquérito interno corre em paralelo ao esforço do técnico Cuca para proteger o ambiente de trabalho e testar alternativas em campo. No amistoso do Pacaembu, o treinador mexe bastante na equipe, inclusive trocando todos os jogadores no intervalo. Juninho aproveita a chance entre os Meninos da Vila escalados na etapa final e se destaca.
Nos bastidores, dirigentes admitem que o episódio com Neymar acende alerta sobre a gestão de elenco e o impacto da fama de alguns nomes no dia a dia do CT. A forma como o clube conduz a sindicância deve influenciar a relação de confiança entre comissão técnica, jovens atletas e os principais ídolos do elenco.
Identidade própria e pressão fora de campo
O sobrenome famoso coloca o garoto sob holofotes desde a base. A prisão do pai, em março de 2024, radicaliza o contraste entre legado esportivo e condenação criminal. Ao voltar a ser Juninho, o atacante tenta, na prática, separar a própria trajetória do noticiário policial que envolve Robinho.
O movimento tem reflexo direto na comunicação do clube, que precisa atualizar materiais impressos, uniformes e referências digitais. A mídia esportiva também ajusta a forma de se referir ao jogador, que continua a ser apresentado como filho de Robinho, mas agora com ênfase maior na carreira que tenta construir no Santos.
Entre torcedores, a mudança tende a facilitar a identificação com o atleta sem o peso automático do sobrenome associado a um crime brutal. A imagem pública de Juninho deixa de ser extensão do pai e passa a ser construída a partir de atuações como a do amistoso diante do União São João.
Internamente, o caso reforça a preocupação de clubes com gestão de imagem em tempos de exposição permanente. A decisão de um garoto de 27 partidas na equipe principal não altera a rotina financeira do Peixe, mas sinaliza para outros jovens como vínculos familiares e comportamentos extracampo impactam a percepção do torcedor e de patrocinadores.
Próximos passos para Juninho e para o Santos
Com o gol e a boa atuação no Pacaembu, Juninho ganha pontos com Cuca na disputa por espaço no ataque. A promessa, porém, ainda carrega o desafio de transformar amistosos em protagonismo em jogos de competição. O primeiro gol oficial pelo profissional permanece como objetivo imediato.
A diretoria, por sua vez, caminha numa linha fina. Precisa ao mesmo tempo cuidar da transição de um Menino da Vila que busca identidade própria, lidar com a sombra da condenação de um ex-ídolo e conduzir com transparência a sindicância que envolve Neymar. Qualquer ruído pode comprometer a imagem do clube em uma temporada já pressionada por resultados e crises paralelas.
O desfecho da apuração interna deve dar o tom do ambiente no vestiário nos próximos meses. Para Juninho, cada minuto em campo vira oportunidade de deslocar o foco do sobrenome e das polêmicas para o desempenho com a bola nos pés. O caminho para se afirmar no Santos passa, cada vez mais, por aquilo que ele faz em campo, e não pelo que carrega na certidão de nascimento.