Bruno Guimarães perde um pênalti aos 13 minutos do primeiro tempo contra a Noruega, nesta fase de oitavas de final do Mundial de Seleções de 2026, e encerra um jejum de 40 anos da seleção brasileira sem falhas em penalidades durante o tempo normal.
O peso de um chute em 13 minutos
O lance nasce de uma arrancada de Matheus Cunha na área. O atacante sofre falta, a arbitragem hesita, o jogo para. O árbitro corre ao monitor, consulta o vídeo, confirma o pênalti. O relógio marca 13 minutos.
A câmera procura Vinícius Jr., um dos principais nomes do ataque brasileiro. A expectativa recai sobre o camisa 7. Em vez disso, Bruno Guimarães segura a bola, ajeita com cuidado e assume a responsabilidade. A escolha surpreende no estádio e diante da televisão.
O meio-campista corre, bate no canto esquerdo. O goleiro Nyland lê a jogada, salta no tempo certo e defende sem grande esforço. O rebote não favorece o ataque brasileiro. A jogada morre ali, com um silêncio pesado entre torcedores e jogadores.
“O pênalti perdido por Bruno Guimarães diante da Noruega, pelas oitavas de final, significa que a seleção brasileira voltou a errar uma penalidade em Copa do Mundo durante o tempo normal depois de 40 anos”, registra o UOL.
Fantasma de Zico volta a campo
A memória puxa 1986. Naquele Mundial, Zico perde um pênalti contra a França, nas quartas de final, em lance que muda o roteiro da seleção. O jogo termina 1 a 1 e o Brasil cai na disputa por pênaltis.
Durante quatro décadas, o Brasil convive com eliminações dolorosas em decisões por pênaltis, mas não volta a errar uma cobrança em tempo regulamentar no torneio. Depois de Zico, nomes como Raí, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Neymar convertem as oportunidades que têm.
Antes de 1986, o roteiro é mais acidentado. Em 1934, Waldemar de Brito para em Ricardo Zamora, goleiro da Espanha, em derrota por 3 a 1 que tira o Brasil ainda na estreia. Em 1938, Patesko chuta para fora contra a Suécia, na disputa do terceiro lugar, mas a seleção vence por 4 a 2 e fica com o bronze.
O chute de Bruno Guimarães entra nessa cronologia restrita. Em um elenco recheado de estrelas, o meio-campista, que constrói carreira sólida na Europa depois de passar por um único time brasileiro, o Athletico, carrega agora um capítulo incômodo dentro de uma história de evolução na seleção.
Por que não foi Vinícius Jr.?
A decisão sobre o cobrador gera debate imediato. “Quando Matheus Cunha sofreu o pênalti no começo do duelo contra a Noruega, a expectativa era que Vini Jr. fosse o responsável pela cobrança. No entanto, o volante Bruno Guimarães assumiu a responsabilidade e acabou perdendo a penalidade”, descreve o portal Terra.
O histórico de Vinícius Jr. ajuda a explicar a escolha. O atacante acumula seis erros em cobranças de pênalti na carreira. Na última temporada pelo Real Madrid, falha duas vezes em 19 tentativas. Pela seleção brasileira, também erra duas, uma contra a Venezuela nas Eliminatórias e outra em amistoso com o Chile em 2018/2019.
“Ele converteu 13 cobranças, o que dá um aproveitamento de 68,42%. Dois dos erros foi com a camisa da Seleção”, lembra o Terra, em referência ao desempenho do atacante.
O número é razoável, mas está longe da taxa ideal para um batedor oficial em jogos de mata-mata. A comissão técnica, comandada por Carlo Ancelotti, equilibra estatísticas, confiança e momento dos jogadores para definir a hierarquia nas cobranças. A explicação detalhada, porém, fica para a entrevista coletiva após a partida.
No grupo, a escolha de um meio-campista para a batida marca uma inversão simbólica, em um elenco em que o protagonismo ofensivo se concentra em nomes como Vinícius Jr. e outros atacantes de elite. Para Bruno, acostumado a organizar o jogo e a chegar de trás, o pênalti representa chance de afirmar liderança técnica e emocional. A bola, desta vez, cobra a ousadia.
Impacto em campo e nos bastidores
O erro não é apenas estatística. Em oitavas de final, um gol cedo costuma mudar a paisagem de um jogo. Um 1 a 0 aos 13 minutos força a Noruega a sair mais, abre espaço para contra-ataques, reduz o nervosismo brasileiro. A defesa de Nyland preserva o 0 a 0 e injeta confiança em uma seleção que chega ao Mundial como zebra.
O goleiro sai maior do lance. A Noruega ganha um impulso moral raro contra um gigante do torneio, combustível valioso em jogos de mata-mata. Cada defesa passa a ser comemorada como gol. Cada chegada ao ataque cresce em volume emocional.
No lado brasileiro, o efeito é o oposto. Bruno Guimarães carrega a frustração imediata. O meio-campista, referência técnica no clube inglês que defende e figura central no meio da seleção, sabe que a imagem da cobrança repetirá em todos os programas esportivos. Pesa na cabeça de quem ainda precisa jogar mais 70, 80 minutos sob pressão.
A comissão técnica precisa reagir rápido. Conversas no intervalo, proteção pública ao jogador, ajuste fino na estratégia para o caso de novos pênaltis surgirem no torneio. A sucessão de batedores entra na pauta. O episódio serve de teste para o ambiente, sempre sensível quando envolve estrelas, salários milionários e diferentes trajetórias em clubes de ponta da Europa.
Quem ganha, quem perde e o que vem a seguir
Do lado da seleção brasileira, o prejuízo é imediato na confiança do setor ofensivo. Qualquer nova penalidade ganha contornos dramáticos. O debate sobre o cobrador oficial tende a extrapolar o vestiário e alimentar críticas em redes sociais, programas de rádio e televisão.
Para Vinícius Jr., o episódio é ambíguo. O atacante escapa da falha, mas volta a ter seu aproveitamento de 68,42% em pênaltis revisitado. Os dois erros recentes no Real Madrid e as duas falhas pela seleção reaparecem como argumento para quem defende outro batedor. A relação com Ancelotti, técnico no clube espanhol e comandante no Mundial, entra no centro das interpretações.
Bruno Guimarães, que inicia a carreira no Athletico e constrói passagem destacada pelo futebol europeu antes de se firmar na seleção, vê o currículo ganhar um asterisco. Para um jogador em idade de auge, com vida estruturada fora de campo e projeção de longo prazo na equipe nacional, o lance pode virar ponto de virada. Ou de cicatriz.
A longo prazo, o pênalti desperdiçado tende a impactar a preparação para torneios futuros. O Brasil deve reforçar treinamento específico, simulação de pressão e definição clara de hierarquias em cobranças. A psicologia do elenco também entra em foco, em um futebol cada vez mais decidido em detalhes mentais.
Na Noruega, a defesa de Nyland entra na história do país no Mundial. O goleiro ganha capital simbólico e moral para o restante da campanha. Em um torneio decidido em margens mínimas, uma mão estendida aos 13 minutos pode mudar não só uma partida, mas toda uma trajetória.
Quando o apito final chega, o pênalti de Bruno Guimarães já não é só um lance isolado. Vira referência estatística, comparação com Zico, tema para comissões técnicas e torcedores. Se será lembrado como ponto de ruptura negativa ou como obstáculo superado, os próximos jogos dirão.