Fim da fumaça e do barulho: Fábrica de grande porte encerra produção na Zona Sul de SP após anos de queixas de moradores

Unidade industrial de lã de vidro cumpriu acordo judicial para paralisar as atividades; local que funcionava há décadas no bairro de Santo Amaro passará a ser apenas centro de distribuição
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A histórica queda de braço entre uma gigante da indústria de isolamentos térmicos e os moradores de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo, chegou ao fim. Na última sexta-feira, 4 de julho de 2026, a unidade fabril encerrou definitivamente a sua linha de produção de lã de vidro. A decisão histórica aconteceu após anos de protestos e denúncias da vizinhança sobre a intensa emissão de fumaça escura, fuligem, mau cheiro e poluição sonora durante a madrugada.

O encerramento cumpre rigorosamente um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado em dezembro do ano passado entre a multinacional, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) e a Cetesb. A comunidade local, que vinha sofrendo com os impactos na saúde respiratória e no sono, celebrou a paralisação das máquinas nas redes sociais como uma verdadeira conquista histórica para a qualidade de vida da região.

O que aconteceu?

A fábrica da Isover Saint-Gobain, tradicional multinacional do setor de materiais de construção, interrompeu de vez a produção de lã de vidro em sua planta localizada em Santo Amaro. A paralisação atende ao prazo de seis meses estabelecido pela Justiça paulista. O descumprimento dessa ordem acarretaria uma multa pesada de R$ 10 mil por dia para a companhia. Apesar do fim das atividades industriais e do desligamento dos fornos, o espaço físico não será totalmente abandonado e passará por transformações.

Como a história começou?

A disputa começou a ganhar força total no início de 2023, quando um grupo de moradores organizou abaixo-assinados e criou o movimento “Respira, Santo Amaro!”. Eles protocolaram denúncias formais nos órgãos ambientais, relatando que a fábrica operava ininterruptamente, inclusive durante a madrugada. A queixa principal era de que a chaminé lançava uma fuligem que cobria os quintais e carros, além de um forte odor químico que causava crises de asma e alergias nas crianças e idosos que vivem no entorno.

Quem são os envolvidos?
De um lado estão os cerca de 90 mil moradores do distrito de Santo Amaro e coletivos ambientalistas que lutavam pelo direito de respirar sem adoecer. Do outro lado, a multinacional francesa Saint-Gobain, que operava a estrutura industrial na região há mais de 70 anos. O Ministério Público de São Paulo e os técnicos de fiscalização da Cetesb atuaram como os mediadores e fiscalizadores que pressionaram pela assinatura do acordo de fechamento da linha de montagem.

O que diz o acordo e o que acontece agora?

Conforme as autoridades, o Termo de Ajuste de Conduta determina que a empresa não pode mais fabricar o insumo poluente no local, mas permite que a unidade funcione exclusivamente como um Centro de Distribuição (CD). Isso significa que os produtos virão de outras fábricas para serem estocados e despachados de lá, reduzindo drasticamente o impacto ambiental no bairro. A desmobilização completa do forno principal da fábrica está em andamento e deve ser concluída até o dia 31 de julho.

Qual o impacto para a população e os trabalhadores?

Para a população local, o impacto imediato é o alívio e a melhoria das condições ambientais. O grupo que liderou as cobranças comemorou na internet reforçando que a vitória representa “o direito pétreo de respirar sem adoecer”.

No entanto, o encerramento da produção também traz impactos sociais: mais de 100 trabalhadores da linha de produção foram afetados pela mudança. Procurada, a gerência da multinacional informou que conduziu todo o processo de desligamento de forma transparente, respeitando os direitos trabalhistas e buscando diminuir os impactos profissionais com planos de apoio e transição de carreira.

Entenda o Contexto

A lã de vidro é um material largamente utilizado na construção civil moderna, servindo como um excelente isolante térmico e acústico para tetos e paredes. Contudo, o processo de fabricação do produto envolve a fusão de matérias-primas a altíssimas temperaturas em fornos industriais, o que gera resíduos gasosos e ruídos intensos.

O caso de Santo Amaro acende um alerta importante sobre o planejamento urbano nas grandes metrópoles brasileiras. Fábricas antigas, que foram construídas décadas atrás em locais isolados, acabaram sendo totalmente engolidas pelo crescimento dos bairros residenciais. Com casas e prédios colados nos muros das indústrias, a convivência entre a produção pesada e a vida urbana tornou-se insustentável, forçando as grandes empresas a moverem suas operações para fora dos centros urbanos.

Carregar Comentários