PF mira Márcio Canella e ex-chefe da Civil em operação bilionária

A Polícia Federal realiza ação no Rio de Janeiro contra lavagem de dinheiro envolvendo figuras públicas.
Redação NC News
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A Polícia Federal cumpre nesta terça-feira (7) 19 mandados de busca e apreensão contra Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, e o delegado Marcus Amin, ex-chefe da Polícia Civil do Rio. A ação marca a sexta fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma organização criminosa suspeita de lavar dinheiro por meio de postos de combustíveis na Região Metropolitana.

Rede de postos e bilhões sob suspeita

A ofensiva atinge diretamente o tabuleiro político do estado em ano eleitoral. Canella, de 49 anos, é presidente do União Brasil no Rio e pré-candidato ao Senado, indicado pelo senador Flávio Bolsonaro, que também disputa a Presidência. A investigação mira contratos públicos, relações políticas e uma engrenagem financeira que, segundo a PF, movimenta mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Os mandados são cumpridos na capital e em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e Belford Roxo. A operação também inclui o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de empresas ligadas aos investigados, o que atinge diretamente o mercado regional de combustíveis e fornecedores associados.

Segundo a investigação, a organização usa uma rede de postos para escoar recursos de origem ilícita, combinando contratos públicos suspeitos, laranjas e intensa circulação de dinheiro em espécie. “A ação é a sexta fase da Operação Unha e Carne, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e tem o objetivo de desarticular suspeitas sobre uma organização criminosa que usaria postos de combustíveis para lavar dinheiro, com participação de agentes públicos”, afirma nota oficial.

Coaf acende alerta e leva PF a políticos

O caso ganha corpo a partir de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão federal que monitora transações atípicas. “A PF afirma que as suspeitas envolvem movimentação de mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, conforme relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras)”, diz o documento que embasa a nova fase.

Os investigadores apuram contratação direta ilegal, sem licitação, e lavagem de dinheiro em contratos públicos. O foco são negócios firmados por prefeituras e órgãos estaduais com empresas ligadas à rede de postos e a operadores financeiros do grupo sob suspeita. A expectativa é que a devassa em computadores e celulares revele a rota do dinheiro e o elo entre empresários e autoridades políticas.

A relatoria no Supremo concentra em Alexandre de Moraes decisões sobre quebras de sigilo, buscas e medidas cautelares econômicas. O fato de o caso tramitar na Corte indica a presença de investigados com prerrogativa de foro, como parlamentares ou autoridades estaduais, ainda que seus nomes não apareçam formalmente nesta fase.

Trajetória de Canella sob escrutínio

Canella constrói a própria imagem pública como inimigo de milicianos na Baixada Fluminense. Foi eleito vereador de Belford Roxo em 2012, chegou à Assembleia Legislativa em 2014 e ganhou projeção com vídeos nas redes em que denunciava grupos paramilitares, extorsão de comerciantes e cobranças ilegais via Pix a moradores de condomínios populares.

Em 2024, elege-se prefeito da cidade, um dos principais redutos eleitorais da região metropolitana. Renuncia no início de 2026 para disputar o Senado, movimento bancado por Flávio Bolsonaro, hoje pré-candidato ao Planalto. A ascensão rápida e o controle do diretório estadual do União Brasil fazem dele peça-chave nas negociações de palanques e alianças no Rio.

As escolhas do então prefeito, porém, já chamam atenção de investigadores. “Canella nomeou, em sua gestão, dois condenados por práticas de milícia como secretários municipais de Belford Roxo”, registra documento ligado ao caso. A relação entre discurso público contra grupos armados e a presença de condenados por milícia na cúpula municipal reforça a desconfiança de órgãos de controle sobre o círculo político do ex-prefeito.

Marcus Amin e o peso da Polícia Civil

O outro alvo de destaque, Marcus Amin, chega ao topo da Polícia Civil em outubro de 2023, na gestão do então governador Cláudio Castro. Assume o comando sob forte pressão de deputados estaduais, depois da saída do delegado José Renato Torres, que resistia a indicações da Assembleia para cargos estratégicos na corporação.

Amin permanece menos de um ano no posto. É exonerado em setembro de 2024 e substituído por Felipe Curi. “Amin ganhou logo em seguida um cargo de coordenador de segurança na Alerj, à época sob comando de Rodrigo Bacellar (PL), atualmente preso”, registra outro trecho de documentos relacionados ao caso.

As conexões de Amin com o meio político não se limitam à Alerj. “Amin também tinha relações políticas com Canella. O ex-prefeito condecorou, quando exercia mandato de deputado estadual, com a medalha Tiradentes, principal comenda da Alerj”, afirma relatório que descreve a proximidade entre o delegado e o hoje pré-candidato ao Senado.

Impacto político e econômico no Rio

A sexta fase da Unha e Carne atinge o União Brasil em seu principal estado eleitoral e pressiona a direção nacional a se posicionar sobre o futuro de Canella na disputa ao Senado. A ligação direta com Flávio Bolsonaro, responsável por sua indicação, também abre flanco para questionamentos à pré-campanha presidencial do senador, que tenta consolidar alianças no Rio.

As empresas alcançadas pela operação têm atividades suspensas por decisão judicial e veem bens e valores bloqueados. Na prática, postos de combustíveis e negócios satélites enfrentam paralisação repentina, com risco imediato para empregos locais e para a arrecadação de municípios dependentes da cadeia de serviços ligada ao setor.

No plano institucional, a ofensiva reforça o protagonismo da PF e do STF em investigações de corrupção e lavagem de dinheiro no estado, que há anos convive com sucessivas operações contra ex-governadores, parlamentares e chefes de polícia. O caso expõe mais uma vez a interseção entre poder público, crime organizado e economia formal, sobretudo em áreas historicamente dominadas por milícias.

Próximos passos e cenário eleitoral

Os desdobramentos imediatos devem incluir pedidos de afastamento político de Canella, tentativas de revogação de medidas judiciais e uma nova rodada de embates entre defesa e Ministério Público no Supremo. Advogados avaliam recorrer contra o sequestro de bens e a suspensão das atividades empresariais, enquanto a PF prepara novas quebras de sigilo e perícias em contratos.

Investigadores não descartam acordos de colaboração premiada, principalmente com operadores financeiros e gestores de empresas, para detalhar o fluxo do dinheiro e a participação de agentes públicos. A prisão de figuras como Rodrigo Bacellar, já em outro caso, mostra que a Operação Unha e Carne pode avançar sobre novas lideranças políticas à medida que surgirem provas.

Com as eleições de 2026 à frente, a continuidade da operação tende a pesar no voto em regiões afetadas pelos bloqueios econômicos e pelo desgaste de lideranças locais. A reação de União Brasil, de Flávio Bolsonaro e de Cláudio Castro à crise sinalizará o grau de isolamento ou de proteção política a Márcio Canella e Marcus Amin, enquanto o Supremo decide até onde irá a devassa sobre uma engrenagem que, segundo o Coaf, já movimentou mais de R$ 7,6 bilhões.

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