Terra atinge afélio de 2026 sem impacto no frio

Entenda como o afélio influencia a distância da Terra ao Sol sem alterar significativamente as temperaturas.
Redação NC News
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Às 2h06 desta segunda-feira (6), pelo horário de Brasília, a Terra atinge o afélio, ponto mais distante de sua órbita em relação ao Sol. O planeta está a 1,0166 unidade astronômica, pouco mais de 152 milhões de quilômetros da estrela.

Afélio não explica o frio no Brasil

O momento costuma alimentar boatos nas redes sociais. Mensagens voltam a circular atrelando o afélio a ondas de frio e aumento de doenças respiratórias, especialmente no inverno brasileiro. Astrônomos e divulgadores científicos reforçam que a associação não tem base na realidade.

Em checagem recente, a professora Márcia Akemi Yamasoe, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, volta ao ponto central: a maior distância não esfria o planeta. “A redução da temperatura do ar que observamos nos últimos dias não foi em nada afetada pela maior distância entre a Terra e o Sol, que acontece anualmente no começo de julho”, afirma.

Enquanto o Hemisfério Sul atravessa o inverno, o Norte vive o verão, embora ambos estejam hoje à mesma distância do Sol. “Se provocasse algum impacto, deveria afetar o planeta como um todo. No entanto, em julho, será inverno no hemisfério sul, mas lá no hemisfério norte será verão”, resume Yamasoe.

Uma órbita levemente oval

O afélio existe porque a trajetória da Terra não é um círculo perfeito. “Como a órbita da Terra ao redor do Sol não é circular, mas levemente elíptica (ou ovalada), ao longo de um ano, período em que a Terra dá uma volta completa ao redor do Sol, a distância entre eles varia, indo do afélio, condição de maior distância (aproximadamente 152,6 milhões de quilômetros do Sol), ao periélio, condição de menor distância (147,5 milhões de quilômetros do Sol)”, explica a pesquisadora.

Na prática, essa diferença representa uma variação de cerca de 3% na distância Terra–Sol. A média fica em torno de 150 milhões de quilômetros. A jornalista científica Flávia Correia, do site Olhar Digital, resume o quadro: “O momento exato em que a Terra alcançará o afélio será às 2h06 da manhã (pelo horário de Brasília), quando estiver a 1,0166 unidades astronômicas (UA) do Sol – uma distância equivalente a pouco mais de 152 milhões de km”.

Essa mudança de posição tem efeito direto sobre a energia recebida. No afélio, o planeta recebe cerca de 7% menos radiação solar do que no periélio, ponto mais próximo, que ocorrerá em 2 de janeiro de 2027, às 23h22. O número impressiona, mas continua pequeno diante do fator que realmente manda nas estações.

Inclinação do eixo dita as estações

O eixo de rotação da Terra é inclinado cerca de 23,5 graus em relação ao plano da órbita. É esse detalhe geométrico que decide quem enfrenta frio ou calor a cada época. A jornalista Sofia Missiato, do iG, traduz a ideia: “Embora muitas pessoas imaginem que o inverno ocorre porque a Terra está mais longe do Sol, a ciência mostra que isso não é verdade. As estações são determinadas principalmente pela inclinação do eixo terrestre, de aproximadamente 23,5 graus”.

Quando um hemisfério se inclina na direção do Sol, recebe mais luz concentrada e por mais horas ao dia. É o verão. No hemisfério oposto, os raios chegam mais inclinados e por menos tempo, o que reduz o aquecimento e produz o inverno. A mesma distância, portanto, gera climas opostos nos dois lados do planeta.

O afélio também altera discretamente a velocidade com que a Terra avança na órbita. Pela segunda lei de Kepler, planetas se movem mais devagar quando estão mais longe da estrela e aceleram quando se aproximam. A mudança alonga levemente algumas estações e encurta outras, mas é imperceptível na rotina diária.

Afélio vira alvo de desinformação

Boatos sobre o “fenômeno afélio” ganham força a cada onda de frio. Um texto que circula desde 2022 distorce números básicos, afirma que o planeta ficaria “66% mais longe” do Sol e atribui ao evento um suposto aumento de doenças respiratórias até agosto.

Os dados corretos mostram outra história. A distância varia entre 147,5 milhões de quilômetros no periélio e 152,6 milhões no afélio. A diferença é de cerca de cinco milhões de quilômetros, não de dezenas de milhões adicionais. E o intervalo temporal do fenômeno não coincide com todas as quedas de temperatura observadas, que seguem a meteorologia regional, não a posição exata na órbita.

Márcia Yamasoe ressalta que o afélio, por si só, não causa doenças. O frio favorece a circulação de vírus respiratórios, mas a origem está nas massas de ar, na umidade e em condições locais, não na distância ao Sol. “O frio, portanto, tem outra explicação”, insiste a professora.

Ciência ganha fôlego com a checagem

Para astrônomos, o afélio é um marcador discreto, porém importante, da dinâmica orbital. Ajuda a reforçar o entendimento de que o clima da Terra depende de vários fatores combinados, da inclinação do eixo à composição da atmosfera, e não de um único número isolado.

A recorrência dos boatos acaba abrindo espaço para a educação científica. Divulgadores, meteorologistas e professores usam o episódio para explicar a diferença entre afélio e periélio, corrigir equívocos e aproximar o público do método científico. Quando a informação correta circula, setores que exploram o medo e o sensacionalismo perdem terreno.

Estudos sobre a órbita da Terra também apontam para um cenário de longo prazo. Se a elipse se tornasse mais acentuada, as estações poderiam ficar extremas, sobretudo no Hemisfério Sul, com verões muito quentes e invernos muito frios, cenário hostil à vida humana. A posição atual, com excentricidade moderada, mantém um equilíbrio raro entre diversidade de climas e estabilidade global.

O afélio desta segunda-feira encerra mais um ciclo previsível na volta anual do planeta ao redor do Sol. O próximo marco, o periélio de 2 de janeiro de 2027, já está na agenda dos astrônomos. Até lá, o desafio diário continua o mesmo: usar eventos naturais como este para fortalecer a confiança na ciência e reduzir o espaço de fake news que distorcem fenômenos simples para espalhar medo.

 

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