O ex-prefeito de Campo Grande Alcides Bernal morre aos 60 anos na madrugada de 13 de julho de 2026, na Santa Casa da capital sul-mato-grossense, semanas depois de uma sequência de internações cardíacas. Ele está preso preventivamente desde 24 de março, acusado de homicídio qualificado, porte ilegal de arma e invasão de domicílio.
Internações sucessivas e negações da Justiça
Bernal cumpre prisão preventiva no Presídio Militar Estadual Fidelcino Rodrigues, no Complexo Penal do Jardim Noroeste, quando passa mal pela primeira vez e é levado à Santa Casa em 30 de junho de 2026. Exames apontam lesões graves no coração.
Segundo o advogado de defesa Ricardo Machado, o ex-prefeito é submetido a uma escalada de procedimentos. “Ele começou com cateterismo, mas depois foi submetido a uma angioplastia coronariana. E dessa angioplastia, ele foi submetido depois a outra angioplastia, quando foi colocado os stents nele”, afirma.
Após a intervenção, Bernal recebe alta hospitalar e volta ao presídio. A defesa insiste que ele é paciente cardíaco de alto risco e protocola pedidos de prisão domiciliar, reforçados por laudos médicos e por um ofício do próprio presídio, que admite não ter estrutura adequada para o quadro do detento.
Os pedidos são negados pelo Judiciário sul-mato-grossense e, em seguida, pelo Superior Tribunal de Justiça, que rejeita habeas corpus no fim de junho. A decisão mantém Bernal na unidade militar às vésperas do julgamento pelo Tribunal do Júri.
No fim de semana anterior à morte, o ex-prefeito volta a passar mal no presídio. A defesa relata que ele desmaia na cela. Transferido novamente para a Santa Casa, chega em estado grave, com pressão arterial muito baixa, e vai direto para a UTI. Horas depois, não resiste. A causa exata da morte não é divulgada até o momento.
Ricardo Machado diz que o desfecho era previsível para quem acompanhava os exames. “Houve uma alerta da defesa ao Poder Judiciário desde o início do processo de que ele possuía doença grave, foi alertado essa semana que ele não poderia retornar ao presídio, fizemos um pedido de domiciliar, fizemos um pedido adendo, de uma questão temporária de ele retornar para casa, isso não aconteceu. Ficou com certeza um sentimento de frustração”, afirma.
Acusação de homicídio e disputa por imóvel
A prisão preventiva de Bernal decorre da morte do servidor público estadual Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, em Campo Grande. O caso envolve a disputa por um imóvel no Jardim dos Estados, na Rua Antônio Maria Coelho, que já pertenceu ao ex-prefeito.
O bem é levado a leilão judicial e arrematado por Mazzini. Em março, o novo proprietário vai à residência com um chaveiro para tomar posse. As investigações apontam que Bernal aparece armado, discute e atira duas vezes contra o servidor, que morre no local. Em seguida, foge sem prestar socorro.
Horas depois, o ex-prefeito se apresenta à polícia e é encaminhado ao Presídio Militar de Campo Grande. O Ministério Público denuncia por homicídio qualificado, porte ilegal de arma e invasão de domicílio. A defesa sustenta legítima defesa, versão rejeitada pelo juiz na decisão de pronúncia. O magistrado determina que o caso vá a julgamento pelo Tribunal do Júri, marcado para ocorrer ainda em 2026.
Com a morte do réu antes da sessão, o processo penal perde o foco central: não haverá veredicto popular sobre a responsabilidade criminal de Bernal. A família de Mazzini e a sociedade campo-grandense ficam sem uma resposta definitiva sobre o episódio que o levou à prisão.
Trajetória política marcada por cassação e retorno
Nascido em Corumbá, Alcides Bernal constrói a carreira pública a partir do rádio e da advocacia. Chega à Câmara de Campo Grande em 2004, reeleito em 2008. Em 2010, conquista uma cadeira de deputado estadual.
Dois anos depois, vence a eleição municipal e se torna o 62º prefeito da capital sul-mato-grossense, impulsionado por um discurso de rompimento com práticas tradicionais da política local. Assume em 2013 e enfrenta resistência intensa na Câmara, que o acusa de irregularidades em contratos emergenciais.
Em março de 2014, 23 dos 29 vereadores votam pela cassação do mandato. O vice-prefeito Gilmar Olarte, então no PP, assume a prefeitura. Bernal sai do gabinete sob acusação política e administrativa, mas mantém discurso de perseguição e promete reverter a decisão na Justiça.
Em 2015, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul lhe dá vitória parcial. Por dois votos a um, desembargadores consideram ilegal o processo de cassação e determinam o retorno ao cargo, um ano e cinco meses depois da saída. Bernal volta à prefeitura em agosto e conclui o mandato em 2016, sem conseguir se reeleger naquele ano.
Entre aliados e adversários, consolida a imagem de político combativo, de temperamento duro e trajetória cercada de atritos. A prisão por homicídio e a morte em meio a um processo ainda em curso reforçam o caráter controverso de seu legado.
Sistema prisional e direitos de presos em xeque
A morte de um ex-prefeito em prisão preventiva, após alertas sucessivos sobre uma cardiopatia grave, tensiona a relação entre Justiça criminal e direitos humanos em Mato Grosso do Sul. O caso escancara o limite do sistema prisional para lidar com detentos que exigem cuidados complexos, como cateterismos e angioplastias coronarianas.
Os pedidos de prisão domiciliar negados, mesmo diante de laudos médicos e do reconhecimento formal da precariedade estrutural do presídio, alimentam questionamentos sobre o critério de risco à ordem pública e à instrução do processo. A decisão de manter Bernal encarcerado até o limite da capacidade física agora entra no centro do debate jurídico e político local.
Órgãos de direitos humanos e entidades ligadas à execução penal tendem a usar o caso como exemplo de descompasso entre decisões judiciais e a realidade sanitária das unidades prisionais. A pressão recai sobre o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, sobre o STJ e sobre a administração penitenciária do Estado.
Na esfera política, a morte encerra de forma abrupta a trajetória de uma das figuras mais conhecidas da capital. Também impõe ao grupo de Bernal e a ex-aliados como Gilmar Olarte a tarefa de se posicionar diante de um legado que mistura vitórias judiciais, cassação, retorno ao cargo e uma acusação de homicídio ainda sem julgamento.
Para parte da população, fica a sensação de que nem o sistema de Justiça nem o sistema de saúde prisional conseguem entregar o básico: julgamento em tempo razoável e garantia mínima de integridade física, mesmo a réus famosos. A discussão sobre impunidade ganha um contorno diferente, marcado não pela absolvição, mas pela morte antes da sentença.
Pressão por mudanças e lacunas sem resposta
O caso deve alimentar propostas de revisão dos critérios de custódia de presos com doenças graves no Mato Grosso do Sul, com possíveis mudanças em protocolos de atendimento, remoção e acompanhamento médico. A discussão alcança não apenas políticos, mas toda a população carcerária que depende do SUS e de parcerias pontuais entre presídios e hospitais públicos.
Sem o julgamento do Tribunal do Júri, o processo contra Bernal caminha para extinção da punibilidade, o que deixa lacunas tanto para a memória de Roberto Carlos Mazzini quanto para o esclarecimento público de todas as circunstâncias da morte do servidor. A cidade que acompanha o embate judicial entre um ex-prefeito e a família de um funcionário do Estado agora se volta a outra pergunta: quem responde quando o sistema falha com o réu antes mesmo da sentença?
Alcides Bernal estava em qual situação jurídica ao morrer?
Ele estava em prisão preventiva desde 24 de março de 2026, pronunciado para ser julgado pelo Tribunal do Júri, mas sem condenação definitiva.
O que acontece com o processo de homicídio após a morte dele?
Com a morte do réu, a tendência é o reconhecimento da extinção da punibilidade, o que encerra o processo penal sem julgamento pelo Júri.
Por que a defesa pedia prisão domiciliar para Bernal?
Os advogados alegavam que ele era cardíaco de alto risco, com lesões graves no coração, submetido a cateterismos e angioplastias, e que o presídio não tinha estrutura para acompanhá-lo.
Quem foi a vítima no caso que levou à prisão do ex-prefeito?
A vítima é o servidor público estadual Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, que havia arrematado em leilão o imóvel que pertenceu a Bernal.