Marcelo Hermes transforma a lateral esquerda do Criciúma em fonte de gols e confiança. No fim de semana, o camisa 22 marca dois gols na vitória sobre a Ponte Preta e ajuda a colocar o Tigre na liderança da Série B do Brasileiro.
O bom momento em campo anima o torcedor e reforça o sonho do acesso. Também acende um alerta na diretoria: o contrato do jogador termina no fim da temporada.
Fase artilheira em um time que se ajusta
Hermes vive talvez o ápice técnico desde que chega ao Heriberto Hülse. Contra a Ponte Preta, ele decide um jogo que vale a ponta da Série B e simboliza o crescimento de um Criciúma mais agressivo pelos lados.
O lateral não personaliza o protagonismo e puxa o discurso para o grupo. “Fico feliz de ter marcado dois gols. Não é só o Marcelo Hermes. Acho que a equipe vem crescendo na competição. Quando o conjunto está indo bem, o individual aparece automaticamente. É dessa forma que a gente trabalha. É um grupo muito forte e sabemos o que queremos na competição”, afirma.
Os dois gols não aparecem por acaso. São resultado de uma rotina de treinos e de cobranças do técnico Eduardo Baptista, que enxerga nos alas uma peça-chave da engrenagem ofensiva. Hermes conta que o treinador vinha insistindo para que ele chegasse mais à área.
“Fico feliz de ter feito dois gols bonitos. É fruto do meu trabalho e da confiança que o Eduardo vem passando para o grupo. Ele sempre falava que a hora certa ia chegar, que eu precisava continuar pisando dentro da área”, diz o lateral, ao lembrar de finalizações que pararam no goleiro, na trave ou passaram perto nas rodadas anteriores.
Como Eduardo Baptista redesenha o papel do lateral
A atuação diante da Ponte Preta traduz uma mudança mais ampla no modelo de jogo do Criciúma. A lateral já não é só corredor de apoio e marcação: vira quase posição de atacante surpresa.
Hermes explica de forma direta a ordem do técnico. “O professor usa muito os alas. Somos nós que damos amplitude ao jogo. Se o Lepo está cruzando, eu tenho que pisar dentro da área. Normalmente, quem chega como atacante é o ala do lado contrário”, diz.
O recado interno é claro: sem alas ativos, o plano de jogo desmorona. “Ele sempre fala que, se os alas não funcionarem, o nosso time não consegue jogar. Então procuro fazer o que ele pede: muito duelo e chegar sempre na área para fazer gols”, completa Hermes.
Na prática, o Criciúma abre o campo com os laterais, puxa a marcação para os lados e tenta infiltrar com cruzamentos e bolas rasteiras na segunda trave. O movimento de Hermes na área, antes visto como extra, agora é obrigação tática.
Liderança, sonho do acesso e pés no chão
A vitória sobre a Ponte Preta projeta o Criciúma ao topo da Série B e muda o ambiente no Sul de Santa Catarina.
Dentro do vestiário, o discurso ainda é de cautela. “Dá para sonhar, mas com humildade. Não é porque chegamos à primeira colocação que vamos diminuir o ritmo. Sabemos o quanto batalhamos para chegar aqui. É pensar jogo a jogo. Se continuarmos dessa forma, temos tudo para conquistar esse título e o tão sonhado acesso”, projeta Hermes.
A fala ecoa um ambiente descrito pelo lateral como semelhante ao do elenco que garante o retorno à elite no ano passado. “A maior semelhança é a união do grupo em torno de um objetivo só, que é o acesso. Também destaco a humildade do elenco, que está sabendo lidar com as adversidades. É dessa forma que temos tudo para chegar lá na frente e conquistar o acesso”, reforça.
No entorno do clube, a liderança aumenta a pressão sobre rivais diretos na briga pelas quatro vagas e valoriza jogadores que até pouco tempo circulam em um mercado restrito à Série B. O desempenho de atletas como Hermes tende a chamar atenção de clubes da Série A e até de fora do país.
Renovação vira tema sensível no Heriberto Hülse
Enquanto cresce em campo, Hermes se aproxima do fim de seu vínculo. O contrato se encerra ao fim de 2024 e coloca a diretoria do Criciúma diante de uma equação delicada: segurar um dos destaques da campanha sem comprometer o orçamento.
O lateral prefere afastar o tema. “Estou simplesmente focado no Criciúma. O objetivo é conquistar o acesso e um título nacional. O restante eu deixo com a diretoria e com o meu representante. Meu foco é o dia a dia e ajudar o Criciúma a alcançar esse acesso”, afirma.
O silêncio público da direção não reduz a importância da negociação. Manter o jogador em alta é estratégico para sustentar o padrão de atuação que leva o time à liderança e, ao mesmo tempo, preparar o elenco para um eventual retorno à Série A em 2025.
O departamento de futebol precisa equilibrar o impacto esportivo e financeiro. Se a renovação não acontece a tempo, o clube corre o risco de ver o lateral assinar um pré-contrato com outra equipe, sem compensação financeira, no momento em que sua valorização é maior.
O cenário se conecta a um mercado aquecido no futebol brasileiro, em que bons desempenhos na Série B ganham repercussão nacional e aumentam a disputa por atletas. Ao mesmo tempo, um acerto com Hermes pode servir como recado de ambição esportiva e planejamento, em meio à expectativa do torcedor que acompanha a campanha pela imprensa local, pelo 4oito esportes, Som Maior e portais como Engeplus e 4oito.
Entre o agora e o depois
Enquanto a prancheta de Eduardo Baptista explora ao máximo o potencial ofensivo do lateral, o Criciúma caminha em duas frentes. Dentro de campo, luta para transformar a liderança em acesso e, se possível, em título da Série B. Fora dele, trabalha para evitar que um dos símbolos da nova forma de jogar deixe o clube sem retorno.
Os próximos meses tendem a ser decisivos. O desempenho do time nos jogos decisivos, o comportamento do mercado e a capacidade da diretoria de antecipar movimentos vão definir se os dois gols de Hermes contra a Ponte Preta serão lembrados como o início de um ciclo mais longo no Heriberto Hülse ou como o auge de uma passagem curta, porém marcante.