Murilo Hidalgo, diretor da Paraná Pesquisas, afirma que o mercado de pesquisas eleitorais vive seu momento mais disputado e que a eleição presidencial tende a ser decidida em segundo turno bastante apertado. Em análise recente, ele comenta a proliferação de institutos, a proposta do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e o embate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Explosão de institutos e disputa por credibilidade
Hidalgo descreve um setor mais pulverizado, em que grandes casas já não dominam sozinhas a narrativa dos levantamentos eleitorais. Segundo ele, ao menos dez empresas atuam hoje com pesquisas nacionais e disputam espaço na mídia, nas campanhas e no debate público.
Para o diretor da Paraná Pesquisas, esse avanço muda o jogo. “Hoje nós temos um volume enorme de pesquisas, nós temos mais de 10 empresas de pesquisas divulgando pesquisas nacionais, o que para mim é uma vitória”, diz. A avaliação dele é que a concorrência força mais transparência, aperta o controle interno e reduz o peso de eventuais erros isolados.
A nova leva de institutos, muitos deles de fora dos grandes centros, tenta se firmar num ambiente em que a confiança se mede a cada eleição. A pergunta recorrente — se a Paraná Pesquisas é de direita ou esquerda, ou se o instituto é confiável — ganha paralelo em relação às novas empresas, que precisam provar método e independência sob escrutínio de campanhas e redes sociais.
Proposta do TSE expõe racha entre grandes e pequenos
Enquanto o mercado se amplia, a proposta de Kassio Nunes Marques no Tribunal Superior Eleitoral provoca tensão. O presidente do TSE se torna peça central de uma discussão que, segundo Hidalgo, divide o setor. Ele relata que institutos menores demonstram entusiasmo com a iniciativa, enquanto empresas tradicionais reagem com mais cautela.
“Eu acho que nesse momento os pequenos são os que estão mais contentes com o ministro Kassio”, afirma o diretor. Nos bastidores, institutos emergentes veem a nova regulação como chance de ganhar visibilidade e reduzir barreiras de entrada em um mercado historicamente controlado por poucos players nacionais.
A discussão gira em torno de regras de registro, contratação e divulgação de pesquisas eleitorais. Qualquer mudança vinda do TSE tende a afetar a rotina de campo, o custo das operações e a relação com partidos e campanhas. O setor acompanha cada movimento em Brasília, calculando quem ganha e quem perde com o redesenho das normas.
Autocontratação como vitrine para institutos do interior
Hidalgo defende a autocontratação — quando o próprio instituto financia levantamentos, sem cliente declarado — como instrumento decisivo para que empresas menores comprovem competência. Ele fala especialmente de institutos do interior do país, que recorrem a essa estratégia para aparecer no noticiário nacional e serem medidos pelo resultado das urnas.
Na visão dele, esse é o teste de fogo para novas casas. “Ou ele aposta que ele é competente e que ele vai ter condições de acertar e ser preciso, e ele investe nele e ele tem a condição de mostrar que ele é competente e honesto”, argumenta. O raciocínio é simples: quem acerta com frequência consolida reputação; quem erra seguidamente perde contratos e espaço.
A autocontratação também mexe com o equilíbrio financeiro do setor. Institutos pequenos arriscam recursos próprios para publicar pesquisas nacionais, apostando no retorno em visibilidade e, depois, em contratos com partidos, empresas e veículos de comunicação. O ambiente regulatório que o TSE desenha agora pode facilitar ou encarecer esse caminho.
Disputa Lula x Flávio Bolsonaro e cenário nacional apertado
As pesquisas divulgadas na semana em que Hidalgo fala mostram o presidente Lula numericamente à frente na corrida presidencial. Ele ressalta que, nos levantamentos mais recentes, o petista registra rejeição menor que a do senador Flávio Bolsonaro. A diferença, porém, não é suficiente para afastar o risco de uma disputa longa.
“Se a eleição fosse domingo, eu, Murilo, diria para vocês que teríamos um segundo turno e um segundo turno muito acirrado”, afirma. A avaliação dele se ancora em dados nacionais e em recortes regionais, como o Rio de Janeiro, onde Paraná Pesquisas identifica empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro tanto em primeiro quanto em segundo turno.
No maior colégio eleitoral do Sudeste depois de São Paulo, esse equilíbrio acende alerta nas duas campanhas. O desempenho no Rio costuma influenciar narrativas nacionais, alimenta comparação com pleitos anteriores e ajuda a orientar o foco em grupos específicos de eleitores, como independentes, evangélicos e jovens.
A combinação de rejeições elevadas e intenções de voto relativamente próximas de Lula e Flávio Bolsonaro desenha um país dividido, em que governistas e oposicionistas precisam disputar cada ponto percentual. As pesquisas, nesse ambiente, ganham peso de bússola, mas também se tornam alvo de desconfiança organizada e campanhas de desinformação.
Pressão por rigor técnico às vésperas das próximas eleições
O diagnóstico de Hidalgo aponta para uma temporada eleitoral em que volume e diversidade de pesquisas aumentam, mas a cobrança por qualidade sobe na mesma proporção. Com mais de dez empresas publicando dados nacionais e um tribunal eleitoral disposto a rever regras, o setor entra em fase de teste.
Até as próximas eleições presidenciais, institutos precisarão equilibrar transparência metodológica, agilidade na entrega e blindagem contra ataques políticos. Pequenos enxergam oportunidade de salto; grandes tentam preservar espaço e evitar mudanças que elevem custos ou ampliem riscos jurídicos.
O desfecho da proposta conduzida por Kassio Nunes Marques no TSE vai ajudar a definir o desenho final desse mercado. A cada rodada de entrevistas em campo, Lula e Flávio Bolsonaro ajustam estratégias, enquanto eleitores acompanham, com mais desconfiança e mais oferta de dados, a disputa num país em que estatísticas eleitorais passam a ser parte central da própria política.