A Polícia Civil de Minas Gerais concluiu o inquérito sobre o latrocínio que vitimou o advogado Cláudio Atala Inácio, de 75 anos, e a empresária Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76, encontrados mortos dentro do apartamento onde moravam, no bairro São Pedro, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. O relatório final detalha a cronologia do crime, reúne provas consideradas robustas pelos investigadores e aponta que a diarista Paola Stefany Neto Cirino, de 30 anos, planejou o roubo, dopou o casal e, em seguida, matou as vítimas com dezenas de golpes de faca.
Presa desde o dia 2 de julho, Paola foi indiciada por dois crimes de latrocínio (roubo seguido de morte). Além dela, quatro homens também foram indiciados por receptação qualificada, suspeitos de comprarem objetos roubados da residência do casal.
Filho encontrou os pais mortos no apartamento
As investigações tiveram início no dia 30 de junho, quando o filho das vítimas estranhou a ausência do pai no escritório de advocacia onde os dois trabalhavam juntos. Sem conseguir contato, foi até o apartamento da família e encontrou a mãe caída na sala e o pai morto em um dos quartos.
Desde os primeiros levantamentos, a ausência de sinais de arrombamento chamou a atenção dos investigadores. A conclusão foi de que o autor do crime entrou no imóvel com autorização das vítimas.
Polícia detalha como o crime aconteceu
O inquérito concluiu que a diarista aproveitou a oportunidade para colocar em prática o plano de roubo. Durante o preparo do almoço, ela teria triturado comprimidos de clonazepam e misturado o medicamento ao suco consumido pelo casal, reduzindo a capacidade de reação das vítimas.
Com os idosos sob efeito do sedativo, Paola começou a recolher dinheiro, joias, relógios, celulares e outros objetos de valor. Em seguida, iniciou os ataques. O advogado Cláudio Atala sofreu 43 perfurações distribuídas pelo rosto, tórax, abdômen e mãos. Segundo os peritos, as lesões nas mãos demonstram que ele ainda tentou se defender.
Já Maria Clotilde foi atingida por 15 golpes de faca. Antes disso, conforme o inquérito, a diarista ainda tentou asfixiá-la utilizando uma almofada embebida em thinner, solvente altamente tóxico que provocou queimaduras no rosto, no tórax e até na córnea da vítima.
Primeiro dia de trabalho terminou em tragédia
Segundo a Polícia Civil, Paola havia sido indicada para realizar uma faxina no apartamento e aquele seria seu primeiro dia de trabalho na residência.
As imagens do circuito interno mostram a diarista entrando no condomínio pela manhã carregando apenas uma bolsa. Cerca de oito horas depois, ela deixa o prédio usando roupas diferentes e levando bolsas e sacolas que não possuía ao chegar. Uma delas foi reconhecida pela família como pertencente à empresária Maria Clotilde.
Confissão reforçou provas já reunidas
Durante as investigações, Paola confessou o crime e participou voluntariamente da reprodução simulada realizada dentro do apartamento. Ela indicou aos policiais onde havia deixado o dinheiro, mostrou as facas utilizadas, o thinner e reconstituiu os cômodos por onde passou durante a ação.
Apesar disso, alegou não se lembrar do momento em que matou o casal. Em depoimento, afirmou ter sofrido um surto psicótico e disse ouvir vozes que pediam “dinheiro e sangue”.
A Polícia Civil ressaltou, entretanto, que a confissão apenas confirmou um conjunto de provas técnicas já produzido ao longo da investigação.
Conjunto de provas sustentou o indiciamento
Segundo a Polícia Civil, o indiciamento não se baseia exclusivamente na confissão. O relatório reúne imagens de câmeras de segurança, laudos periciais, exames toxicológicos, depoimentos de testemunhas, rastreamento dos objetos roubados, recuperação de bens e informações obtidas durante a reprodução simulada.
As imagens também registraram Paola descartando uma blusa em uma caçamba de entulho logo após deixar o condomínio. A peça foi localizada pelos investigadores e apresentava manchas compatíveis com sangue.
Os exames toxicológicos identificaram clonazepam no organismo das duas vítimas. Já uma das facas encontradas na cozinha apresentou resultado positivo para vestígios de sangue, mesmo após ter sido lavada.
Durante a prisão da suspeita, a Polícia Civil apreendeu R$ 18.810 em dinheiro. Segundo a própria investigada, o valor correspondia ao montante levado da casa das vítimas, já descontadas algumas despesas feitas durante a fuga. Além disso, joias, relógios, celulares, bolsas, perfumes, roupas e outros objetos furtados também foram recuperados ao longo das investigações.
Bens foram vendidos no Centro de Belo Horizonte
A investigação aponta que, poucas horas após o crime, Paola seguiu para a região central de Belo Horizonte, onde negociou relógios, joias e outros bens roubados do apartamento.
Ela também utilizou cartões bancários pertencentes ao casal para obter dinheiro em estabelecimentos comerciais, tentou vender objetos durante uma corrida por aplicativo e, posteriormente, comprou um novo celular e chips telefônicos registrados em nome de terceiros.
Depois disso, fugiu para Itabira, onde acabou localizada e presa pela Polícia Civil.
Quatro compradores também foram indiciados
Além da diarista, quatro homens responderão por receptação qualificada.
Segundo a Polícia Civil, parte deles procurou espontaneamente a delegacia, devolveu os objetos adquiridos e afirmou desconhecer que os bens tinham origem criminosa.
A responsabilidade de cada um será analisada durante o andamento da ação penal.
Defesa pede exame de insanidade mental
Nos interrogatórios, Paola afirmou que, há aproximadamente um ano e meio, ouvia vozes que a incentivavam a conseguir dinheiro, cometer crimes e tirar a própria vida. A defesa solicitou à Justiça a realização de exame de insanidade mental para avaliar a condição psicológica da investigada.
Mesmo assim, a Polícia Civil afirma que essa alegação não enfraquece o conjunto probatório reunido, destacando que a suspeita tomou diversas medidas para ocultar o crime, como lavar a faca utilizada, trocar de roupas, vender rapidamente os objetos roubados, contratar transporte, comprar novos chips telefônicos e até cogitar o uso de documento falso.
Polícia investiga outros possíveis crimes praticados pela diarista
A conclusão do inquérito do latrocínio abriu caminho para novas investigações. Segundo a Polícia Civil, outras vítimas procuraram o Departamento Estadual de Investigação de Crimes contra o Patrimônio (Depatri) após a repercussão do caso, relatando situações semelhantes envolvendo Paola.
Em um dos casos, uma nutricionista afirmou ter sido dopada durante uma faxina realizada poucos dias antes do assassinato do casal. Ela relatou prejuízo de cerca de R$ 30 mil entre joias, roupas e presentes, parte deles encontrada posteriormente na casa da investigada.
Outro casal informou que contratou a diarista por mais de um ano e passou a notar o desaparecimento frequente de objetos da residência. Já uma idosa também relatou furtos após a contratação da suspeita. Em outro episódio, um homem afirmou ter passado mal após receber Paola em casa e, posteriormente, descobriu compras indevidas feitas com seus cartões bancários. Durante o interrogatório, a diarista admitiu participação nesse caso, mas optou por permanecer em silêncio sobre os detalhes.
As investigações apuram se Paola utilizava sempre o mesmo método: dopar as vítimas com medicamentos sedativos para facilitar furtos dentro das residências.
Inquérito segue para o Ministério Público
Com a conclusão das investigações, o inquérito foi encaminhado ao Ministério Público de Minas Gerais, que analisará o caso e decidirá se apresenta denúncia à Justiça.
Enquanto isso, a Polícia Civil mantém abertas as apurações sobre outros possíveis crimes patrimoniais atribuídos à investigada. Caso novas provas sejam confirmadas, Paola poderá responder por outros processos criminais relacionados ao mesmo modus operandi.