Em entrevista ao vivo nesta segunda-feira, a diretoria do Sport expõe, em cadeia de rádio, um retrato raro das contas do clube e admite um débito com o ex-presidente Yuri Romão. O detalhamento da movimentação financeira entre março de 2023 e dezembro de 2025, que soma R$ 630 milhões, vem no momento em que o time chega a sete jogos seguidos sem vitória na Série B e cobra reforços imediatos.
Transparência sob pressão
No estúdio do programa Fórum Esportivo, da Rádio Jornal, o presidente Matheus Souto Maior e o vice-presidente jurídico Lucas Leite defendem a abertura dos números como resposta à desconfiança crescente da torcida. O clube vive queda de desempenho em campo, vê a receita ameaçada e precisa explicar o que entrou e o que saiu do caixa.
O dirigente coloca a cifra principal logo na mesa. “De março de 2023 a dezembro de 2025, passaram pelos cofres do Sport R$ 630 milhões. Existe um valor que consta nas contas referente a empréstimo do ex-presidente (Yuri Romão)”, afirma Souto Maior. Ao citar o débito, ele assume, na prática, que o clube está em dívida com o ex-mandatário e precisa administrar esse compromisso como qualquer outra obrigação financeira.
O números apresentados ampliam o debate sobre como o Sport equilibra débito e crédito na rotina de pagamentos. Para o torcedor que tenta entender o jargão contábil, a mensagem é direta: entrou muito dinheiro, mas também saíram valores relevantes, alguns deles para cobrir operações sensíveis, como empréstimos e repasses a empresas ligadas à antiga gestão.
R$ 5 milhões para empresa ligada ao ex-presidente
Entre as linhas mais delicadas do balanço está a transferência de R$ 5 milhões a uma empresa associada a Yuri Romão. A atual diretoria confirma o repasse, que aparece nas contas como saída de caixa, e coloca o assunto em revisão jurídica.
O vice-presidente Lucas Leite evita adjetivos, mas admite que o ponto gera questionamentos internos. A operação, classificada como compromisso contratual da era anterior, entra na lista de passivos que o clube precisa reavaliar. Se o débito for mantido como devido, continua pesando; se houver margem de contestação, pode se transformar em disputa judicial.
O debate expõe, para o público, uma noção básica da contabilidade do clube: todo valor repassado sem contrapartida esportiva clara vira fardo maior. A cada débito reconhecido, diminui o espaço para novos créditos que possam financiar contratações ou quitar outras contas. Na prática, o Sport se vê obrigado a separar, no fluxo de caixa, o que vai para dívidas antigas e o que sobra para planejamento esportivo.
Elenco curto, camisa 10 em falta e sete jogos sem vencer
Enquanto o departamento jurídico reabre contratos e o financeiro revisa débitos e créditos, quem sente o impacto imediato é o técnico Gilmar Dal Pozzo. No mesmo programa de rádio, ele volta a cobrar reforços e insiste na necessidade de um camisa 10, jogador criativo que organize o meio-campo.
O treinador fala sob o peso de um dado incômodo: o empate recente com o Operário-PR representa o sétimo jogo seguido sem vitória na Série B. O time acumula atuações irregulares, perde pontos em casa e escuta vaias. O clima no clube mistura conta bancária no limite com paciência da torcida em baixa.
Dal Pozzo admite que o mercado oferece opções, mas lembra que cada contratação passa hoje por um crivo financeiro rígido. O clube não quer assumir mais débito em conta, seja em forma de salários atrasados, premiações não pagas ou parcelamentos que estouram o orçamento. “Precisamos de reforço, mas precisamos também ter condição de honrar o que prometemos”, resume, em tom de cobrança indireta à diretoria.
Torcida cobra resposta rápida e gestão promete rigor
A decisão de detalhar a movimentação de R$ 630 milhões e revelar o débito com Yuri Romão tem efeito ambíguo. De um lado, reforça o discurso de transparência da gestão de Matheus Souto Maior, interessado em mostrar para onde vão as receitas de bilheteria, televisão, patrocínios e vendas de jogadores. De outro, escancara fragilidades herdadas e cria uma nova rodada de desconfiança sobre contratos do passado.
A reação imediata de parte da torcida, nas redes sociais e em comentários em programas esportivos, mistura alívio com indignação. Alívio por finalmente enxergar os números de forma mais clara. Indignação pelo volume de recursos que transitou pelo clube sem se converter em estabilidade financeira ou elenco mais competitivo.
Nos bastidores, conselheiros e grupos políticos já falam em ampliar o acompanhamento das contas, com exigência de relatórios mais frequentes e detalhados. A contabilidade, antes restrita a comissões internas, passa a ser tema de arquibancada. Termos como débito automático, fluxo de caixa e diferença entre débito e crédito entram na conversa do torcedor, que tenta entender por que o clube vive no limite mesmo após tantas receitas.
Equilíbrio frágil entre dívida e investimento
O grande desafio da gestão agora é transformar o discurso em prática. O Sport precisa honrar o débito com o ex-presidente e revisar o repasse de R$ 5 milhões à empresa ligada a ele, sem paralisar o futebol. Cada real separado para pagar o passado é um real a menos para investir no presente.
O plano desenhado pela diretoria passa por duas frentes: renegociação de dívidas e contratação pontual. A ideia é alongar prazos, reduzir juros e encaixar parcelas de forma que o débito não estoure o caixa mensal. Ao mesmo tempo, a busca por reforços tenta ser cirúrgica, focando posições consideradas vitais pela comissão técnica.
Se essa engenharia falhar, o risco é duplo. No curto prazo, a equipe pode seguir patinando na Série B, o que afeta bilheteria, premiações e patrocínios. No médio prazo, a piora esportiva reduz a capacidade de gerar novos créditos e amplia a sensação de clube em permanente estado de aperto.
Os próximos meses vão mostrar se a exposição inédita das contas será ponto de virada ou apenas mais um capítulo na sequência de planos de recuperação não concluídos. A transparência, por si só, não paga dívida nem contrata camisa 10. Abre, porém, espaço para que a torcida cobre de forma mais informada, o conselho fiscal atue com mais rigor e a diretoria seja mais precisa nas escolhas que fará a partir de agora.