A taxação de 50% que os EUA impuseram ontem às importações do Canadá reduz, de certo modo, a força retórica das variações políticas desenvolvidas em torno da elevação das taxas contra o Brasil.
Afinal, 50% não são apenas 25%, e o presidente dos Estados Unidos, até onde se sabe, não estaria com a verborragia direcionada à derrubada da monarquia constitucional e da democracia parlamentarista canadense.
O discurso da soberania
Obviamente, o presidente Lula – no seu modo campanha – irá explorar (como fez ontem na convenção do PDT) a invasão da soberania.
E não deixa de sê-lo, tamanha a unilateralidade, a emprestar-lhe razão na fundamentação argumentativa contrária às taxas e ao seu usufruto político.
Ocorre que, se para os brasileiros, a intervenção norte-americana no país é o principal de que a derrocada do multilateralismo fosse acessório, para a economia global não é bem assim.
Os efeitos do unilateralismo
Tanto a anarquia econômica global quanto a arbitrariedade dos mercados levam um ambiente maléfico às relações comerciais, com consequências diretas na ponta da relação: o consumidor final. Nações são compostas por pessoas que trabalham e necessitam alimentar-se.
Donald Trump é um bronco, representativo, em larga medida, de grande parcela dos norte-americanos comuns. Interessado, no privado, em locupletar-se do público. Sua eleição não foi produto do acaso. Foi guindado à liderança da nação mais rica do planeta por conservadores e presuntivos reis do mundo, incapazes, por exemplo, de adicionar à conta do multilateralismo o preço do café solúvel que compram do Brasil.
Tampouco consideram o que ocorreria se o Brasil aderisse ao unilateralismo trumpiano e deixasse de exportar (ou aumentasse as taxas de exportação) do produto para os EUA (US$ 2,5 bilhões por ano), o maior consumidor e importador mundial de café solúvel.
Os paradoxos do embate político
Lula não poderia deixar de tripudiar, como fez ontem, dizendo que, se Trump e Rubio quiserem, podem montar um comitê pró-Flávio no Brasil.
Legalmente, como é claro, seria, do ponto de vista jurídico e da moralidade, o mesmo que concordar com o green card concedido por Trump ao condenado Eduardo Bolsonaro.
Lula estaria legalizando a intervenção alienígena à qual se opunha.
Mas ninguém liga muito para esses paradoxos e contradições.