A morte de Caroline Pinto dos Santos, 32, depois de 25 dias internada com 65% do corpo queimado, provoca uma disputa jurídica e política desde 20 de julho, quando a Polícia Civil envia o inquérito ao Ministério Público do Rio. A mãe de santo responsável pelo terreiro e o namorado estão indiciados por homicídio culposo, mas a família da vítima pressiona para que o caso seja tratado como homicídio com dolo eventual.
Explosão filmada e correria até o hospital
O incêndio acontece em 13 de junho, durante um ritual em um terreiro de candomblé na zona oeste do Rio de Janeiro. Um vídeo gravado dentro do barracão registra o clarão da explosão e o início do fogo. O relógio marca por volta de 17h30 quando a imagem é interrompida pelo brilho intenso que toma o ambiente.
Instantes depois, outra gravação mostra o desespero do lado de fora. Uma mulher sai do espaço religioso, leva as mãos à cabeça e tenta entender o que acaba de ocorrer. Cerca de dois minutos mais tarde, Caroline aparece andando, já com queimaduras graves, sendo amparada até um carro que a leva ao Hospital Municipal Pedro II, em Santa Cruz.
Ela permanece internada por 25 dias na unidade pública, passa por procedimentos para tentar conter as lesões e combater infecções, mas morre em 9 de julho. Laudo do Instituto Médico-Legal confirma que as queimaduras provocadas no incêndio são a causa da morte.
Substância “altamente inflamável” e tentativa de apagar provas
A investigação da 33ª DP (Realengo), conduzida pelo delegado Alessandro Petralanda, conclui que o incêndio não é um acidente imprevisível. O relatório aponta que a mãe de santo, Thayane Alves de Maria, e o namorado, Gabriel da Mota Pimentel Dalia, manipulam, durante o ritual, uma substância descrita como “altamente inflamável” em um recipiente que já continha material combustível e uma fonte de ignição.
“Thayane e Gabriel utilizaram uma substância ‘altamente inflamável’ em um recipiente que já continha material combustível e uma fonte de ignição, o que provocou o incêndio dentro do barracão”, registra o delegado no documento encaminhado ao Ministério Público em 20 de julho.
O inquérito reúne depoimentos de frequentadores do terreiro, laudos periciais e o vídeo do clarão. Uma testemunha relata que, logo após o episódio, Thayane orienta filhos de santo a apagarem fotos, vídeos e mensagens relacionadas ao incêndio. Para a polícia, essa conduta configura tentativa de eliminar provas e interfere na reconstrução objetiva do que aconteceu dentro do espaço religioso.
Desde o dia do incêndio, Thayane e Gabriel deixam de ser vistos na região, segundo relatos anexados aos autos. A ausência física acentua a sensação de abandono entre participantes da casa e vizinhos, que acompanham o caso à distância, por notícias e comentários em redes sociais.
Indiciamento por homicídio culposo e reação da família
Mesmo com o contexto descrito, a conclusão da Polícia Civil é pelo indiciamento de Thayane e Gabriel por homicídio culposo, crime em que não há intenção de matar. Para o delegado, a conduta é marcada por imprudência e negligência, mas não por vontade direta ou assumida de provocar a morte de Caroline.
A decisão revolta a família da vítima. O advogado Henrique Fernandes, que representa os parentes de Caroline, anuncia que vai ao Ministério Público pedir a reclassificação da acusação para homicídio com dolo eventual, figura em que o autor não quer necessariamente o resultado, mas assume o risco de produzi-lo.
“Um dos pleitos é a mudança dessa capitulação esdrúxula, de homicídio culposo. A nossa capitulação é a mudança para o homicídio com dolo eventual, que quem produziu o resultado assume o risco. Existe a possibilidade de você, com cinco litros de etanol, gerar um evento danoso, como aconteceu”, afirma o advogado.
Segundo ele, não se trata de criminalizar rituais religiosos de matriz africana, mas de questionar a forma como são manipulados combustíveis dentro de um espaço fechado, cheio de gente, sem qualquer controle técnico ou equipamento de segurança. O uso reiterado de etanol e até gasolina em cerimônias anteriores, relatado por testemunhas, é apontado pela família como prova de que os responsáveis têm consciência do risco.
Segurança em rituais e medo de estigmatização
O caso mobiliza diferentes frentes. De um lado, frequentadores de terreiros temem que a morte de Caroline sirva de pretexto para ataques a religiões de matriz africana e para novas formas de perseguição. Do outro, defensores de direitos humanos e especialistas em segurança cobram protocolos mínimos para o uso de fogo e substâncias inflamáveis em qualquer ambiente religioso.
Organizações que acompanham casos de intolerância religiosa alertam para um duplo risco. A tragédia expõe falhas graves de segurança e responsabilidade, mas também pode alimentar narrativas que associam terreiros ao perigo ou à ilegalidade, num país em que esses espaços já sofrem com invasões, depredações e ameaças.
Autoridades de segurança pública acompanham o avanço do processo, que pode abrir um precedente para a forma como o sistema de Justiça enxerga acidentes fatais em rituais que envolvem fogo, álcool ou outros combustíveis. A depender da decisão do Ministério Público, líderes religiosos podem se ver diante de novas obrigações legais, sob pena de responder criminalmente por tragédias semelhantes.
O que está em jogo na análise do Ministério Público
O inquérito agora está nas mãos do Ministério Público do Rio, que decide se oferece denúncia, se arquiva o caso ou se devolve o procedimento à Polícia Civil para novas diligências. A principal pressão, neste momento, recai sobre a natureza da acusação.
Se o entendimento pela culpa sem intenção prevalecer, o caso segue o caminho do homicídio culposo, geralmente com penas menores e possibilidade maior de acordos e benefícios penais. Se o MP enxergar elementos de dolo eventual, a denúncia pode levar a uma resposta mais dura, com penas próximas às de homicídio intencional clássico.
A orientação para apagar registros do episódio também entra na conta. Ainda que não transforme, sozinha, o crime em doloso, o movimento pode pesar na avaliação sobre a postura dos indiciados após o incêndio e influenciar decisões futuras sobre a prisão ou a adoção de medidas cautelares.
Enquanto o MP analisa o caso, a família de Caroline espera que o processo ajude a estabelecer um marco de responsabilidade em ambientes religiosos, sem criminalizar práticas, mas impondo limites claros ao uso de substâncias perigosas. A resposta institucional ao incêndio no terreiro do Rio tende a ecoar além desse barracão específico, servindo de referência para discussões sobre fé, segurança e direito à vida.
O que aconteceu no terreiro onde houve o clarão e a mulher foi queimada?
Durante um ritual em um terreiro de candomblé no Rio, substâncias inflamáveis foram usadas em um recipiente com material combustível e fogo, causando uma explosão e queimaduras graves em Caroline Pinto dos Santos.