Luiz Carlos Barreto revela falhas em morte no terreiro e bebê vivo

Casos recentes envolvendo morte e erro humano trazem à tona discussões importantes no Brasil.
Redação NC News
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Um incêndio em um terreiro de candomblé no Rio de Janeiro, que matou Caroline Pinto dos Santos, de 32 anos, e o caso de um bebê declarado morto e achado vivo em São Paulo, colocam hoje sob escrutínio a forma como instituições religiosas e médicas lidam com o limite entre vida e morte. A polícia conclui o inquérito da tragédia no terreiro, enquanto o episódio do recém-nascido em Rio Claro ainda provoca perplexidade e pressão por respostas.

Fogo no terreiro, morte no hospital

O relógio marcava por volta das 17h30 de 13 de junho quando um clarão rompeu a rotina do terreiro de candomblé em Realengo, na Zona Oeste do Rio. Imagens feitas dentro do barracão registram a explosão e o desespero dos presentes. Dois minutos depois, Caroline aparece caminhando, com o corpo tomado por queimaduras, até um carro que a levaria ao Hospital Municipal Pedro II, em Santa Cruz.

Ela permanece internada por 25 dias. Morre em 9 de julho, com 65% do corpo queimado, segundo laudo do Instituto Médico-Legal, que aponta as lesões como causa direta da morte. No centro do inquérito da 33ª DP (Realengo) estão a mãe de santo e yalorixá do terreiro, Thayane Alves de Maria, e o namorado dela, Gabriel da Mota Pimentel Dalia.

De acordo com o delegado Alessandro Petralanda, o casal utilizou uma substância altamente inflamável, descrita por testemunhas como etanol, em um recipiente que já continha material combustível e uma fonte de ignição. O contato entre esses elementos provoca o incêndio no interior do barracão. O relatório enviado ao Ministério Público na segunda-feira, dia 20, sustenta que não houve intenção de matar, mas imprudência e negligência suficientes para o indiciamento por homicídio culposo.

Petralanda também registra que, após o acidente, Thayane teria orientado filhos de santo a apagarem fotos, vídeos e mensagens relacionados ao episódio. O gesto é interpretado na investigação como tentativa de eliminar provas. Thayane e Gabriel não são encontrados desde então.

Disputa jurídica em torno da intenção

A família de Caroline não se conforma com a capitulação criminal sugerida pela polícia. O advogado Henrique Fernandes leva ao Ministério Público um pedido para endurecer a acusação. Ele fala em dolo eventual, quando o autor não deseja diretamente o resultado, mas assume o risco de produzi-lo.

“Um dos pleitos é a mudança dessa capitulação esdrúxula, de homicídio culposo. A nossa capitulação é a mudança para o homicídio com dolo eventual, que quem produziu o resultado assume o risco. Existe a possibilidade de você, com cinco litros de etanol, gerar um evento danoso, como aconteceu”, afirma Fernandes.

O ponto de atrito jurídico está justamente na fronteira entre imprudência grave e aceitação do risco. Para a família, o uso reiterado de combustíveis como etanol e até gasolina em rituais, relatado por frequentadores, demonstra que o perigo era conhecido. A defesa de Thayane e Gabriel ainda não se manifesta publicamente.

O Ministério Público recebe o inquérito e passa a ter em mãos a decisão sobre o rumo penal do caso. Pode denunciar o casal por homicídio culposo, acatar o pedido de dolo eventual ou requisitar novas diligências. A escolha terá efeito direto na pena possível e na mensagem transmitida a líderes religiosos que recorrem a materiais inflamáveis em cerimônias.

Liberdade religiosa sob pressão da segurança

O incêndio em Realengo atinge um terreiro de candomblé, mas o debate extrapola os limites daquela comunidade. Práticas que envolvem fogo, velas, líquidos inflamáveis e espaços fechados são comuns em diversas religiões. O que entra em jogo, agora, é o equilíbrio entre liberdade religiosa e segurança mínima para fiéis e iniciados.

Líderes de religiões de matriz africana temem que a tragédia seja usada como pretexto para estigmatizar terreiros, já alvo histórico de intolerância e violência. Especialistas em direito religioso, por outro lado, lembram que templos também respondem a normas de proteção contra incêndio, assim como bares, casas de show e estádios.

Se o Ministério Público optar por uma denúncia mais dura, com dolo eventual, o caso pode virar referência para futuras ações penais envolvendo rituais considerados perigosos. Um eventual endurecimento na fiscalização de substâncias inflamáveis em contextos religiosos tende a gerar resistência, mas também a obrigar casas de culto a rever protocolos de segurança, instalação de saídas de emergência e treinamento básico de primeiros socorros.

Bebê em saco de óbito reacende medo do erro médico

Do fogo no Rio de Janeiro à UTI neonatal em Rio Claro, interior de São Paulo, a fronteira da morte volta a ser testada. Em 15 de junho, o bebê Noah Gabriel da Cruz Santos, de 1 mês, sofre uma parada cardiorrespiratória na Santa Casa da cidade. Após manobras de reanimação, a equipe médica atesta o óbito. O corpo é colocado em um saco de óbito, fechado com fitas, e entregue à funerária.

Cerca de duas horas depois, na área da funerária, a agente Regina Célia Paschoal percebe algo estranho. O pequeno volume no saco se mexe, em movimentos discretos, que primeiro ela tenta racionalizar como espasmos pós-morte. A dúvida dura pouco.

“Abri e o neném começou a se mexer mais ainda, fazia um barulho, que ele queria respirar”, relata Regina. Ela chama uma enfermeira; o bebê é levado de volta à Santa Casa e reavaliado. A equipe identifica sinais vitais e transfere Noah novamente para a UTI Neonatal. Dois dias depois, ele é removido para outro hospital.

A Santa Casa afirma que não houve falha e que “todos os protocolos técnicos e legais para a constatação do óbito foram rigorosamente cumpridos”. A família, religiosamente, fala em milagre. A mãe, Letícia Cristina da Cruz Santos, elogia o esforço da equipe durante a parada cardíaca.

“Eu vi, inclusive, a hora do acontecido, como a doutora ficou, o quanto ela lutou para tentar reanimar ele”, diz Letícia. Em vídeos divulgados nas redes sociais, ela conta viver um estado de êxtase e anestesia ao ver o filho, antes dado como morto, mexendo as pernas e abrindo os olhos na UTI.

Confiança no sistema de saúde em xeque

O episódio em Rio Claro atinge um ponto sensível da relação entre pacientes e hospitais: a confiança na palavra do médico diante da morte. Mesmo com a Santa Casa insistindo que seguiu o protocolo, o fato objetivo permanece perturbador. Um bebê declarado morto é encontrado vivo dentro de um saco de óbito duas horas depois.

Entidades médicas discutem reservadamente se o caso expõe brechas nos critérios de constatação do óbito, especialmente em recém-nascidos em estado crítico. Em tese, o protocolo exige avaliação de respiração, batimentos cardíacos, reflexos neurológicos e intervalo mínimo de observação em situações limítrofes. Na prática, a pressão por decisões rápidas em plantões lotados pode encurtar etapas.

A repercussão pública aumenta a chance de investigações internas e externas, com análise de prontuários, horários e conduta da equipe. Mesmo que nenhuma infração formal seja encontrada, o hospital já sente o abalo de reputação. Menos visível, mas igualmente forte, é o impacto sobre profissionais que lidam diariamente com a morte e agora se veem expostos ao escrutínio de câmeras e redes sociais.

O que esses casos expõem sobre erro humano

Os dois episódios, separados por 1.800 quilômetros e por contextos distintos, convergem em um ponto: a morte como terreno onde o erro humano cobra preço máximo. No terreiro, a escolha de usar cinco litros de etanol em um ritual resulta na morte de uma mulher. No hospital, a possibilidade de falha na constatação de óbito quase antecipa, de forma burocrática, a morte de um bebê que ainda respira.

O sistema jurídico agora decide que peso dará à responsabilidade de Thayane e Gabriel. O Ministério Público pode oferecer denúncia ainda nas próximas semanas, definindo se o caso será julgado como acidente fruto de negligência ou como consequência de um risco conscientemente assumido. Na esfera da saúde, a cobrança recai sobre gestores e conselhos profissionais, instados a rever, de forma transparente, como se atesta o fim da vida em UTIs e prontos-socorros.

O desfecho judicial do incêndio e a apuração técnica sobre o caso de Noah tendem a influenciar futuras normas de segurança em rituais religiosos e protocolos hospitalares. Em um país onde a morte ainda é cercada de tabu, as duas histórias expõem, de forma crua, a pergunta que instituições preferem evitar: quem responde quando a fronteira entre vida e morte é atravessada por descuido, pressa ou excesso de confiança?

Quais são os detalhes do vídeo que mostra o clarão em terreiro e a mulher queimada sendo levada ao hospital?

As imagens registram o clarão da explosão dentro do barracão em Realengo e, cerca de dois minutos depois, mostram Caroline saindo queimada e caminhando até um carro.

O que diz o inquérito enviado ao Ministério Público sobre o caso da mulher queimada?

O inquérito conclui que a mãe de santo e o namorado usaram substância altamente inflamável em recipiente com fonte de ignição, causando o incêndio, e os indiciou por homicídio culposo.


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