Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e hoje à frente da Gávea Investimentos, faz um alerta duro sobre a economia brasileira e, ao mesmo tempo, reforça sua influência no cenário internacional ao ser escolhido para comandar uma força-tarefa do banco central dos Estados Unidos.
Alerta de crise estrutural e risco de recessão
Em entrevista publicada nesta sexta-feira, Fraga descreve um quadro que considera “bastante grave” nas contas públicas e no mercado de crédito. Ele fala em crise estrutural e vê um “risco concreto” de o Brasil entrar em recessão em 2027.
O economista aponta como sinais dessa deterioração a inadimplência de mais de 80 milhões de brasileiros e as dificuldades crescentes de empresas para rolar dívidas. “Acho que podemos entrar em uma recessão. O mercado de crédito dá sinais preocupantes”, diz.
Segundo ele, a própria forma como o governo administra a dívida pública revela o aperto. “O próprio governo encurta o perfil de sua dívida, o que é um sinal claríssimo de que a situação está difícil”, afirma. Títulos mais curtos reduzem o custo imediato, mas aumentam o risco de rolagem, já que o Tesouro precisa ir ao mercado com mais frequência.
Fraga descreve a economia como um paciente com “febre alta”, sustentada pelos juros de longo prazo, que seguem elevados mesmo com oscilações da inflação. O resultado, diz, é um crescimento medíocre. Desde o Plano Real, calcula, o avanço per capita médio gira em torno de 1,3%, desempenho que ele classifica como “modesto, para não dizer medíocre”.
Gasto em alta, austeridade em xeque
O diagnóstico fiscal é o centro de sua preocupação. Fraga lembra que o gasto público saiu de um patamar equivalente a um quarto do Produto Interno Bruto para cerca de um terço ao longo das últimas décadas. Para ele, esse salto não veio acompanhado da mesma melhora na qualidade dos serviços e da gestão do Estado.
O economista critica a tese, comum no discurso oficial, de que o país já teria apertado demais o cinto. “Dizem que já temos austeridade fiscal demais, mas que austeridade é essa que fez a dívida pública crescer?”, questiona. Na visão dele, o novo arcabouço fiscal foi desrespeitado “logo de cara”, e as metas definidas pelo governo nasceram modestas e ainda assim não foram cumpridas.
Fraga aponta os chamados gastos tributários — isenções, subsídios e benefícios fiscais — como um dos flancos mais distorcidos do sistema. Ele estima que essas renúncias somem cerca de 9% do PIB e defende um corte mínimo de 3 pontos percentuais. “O Brasil precisa passar por uma boa peneirada, porque o quadro geral é desastroso”, afirma.
As distorções se espalham também pela forma como a carga de impostos recai sobre contribuintes de renda semelhante. “Hoje, alguém pode ser tributado em 8% e outra pessoa, com a mesma renda, em 27%”, exemplifica, citando regimes especiais e brechas legais que favorecem grupos específicos.
Lula, Bolsonaro e a disputa de 2026
O alerta econômico vem acompanhado de um recado político. Fraga considera o presidente Luiz Inácio Lula da Silva favorito para a próxima eleição, mas diz que o país precisa de um governo com perfil mais próximo ao do primeiro mandato petista, e não do atual, que ele compara tanto ao terceiro mandato quanto à gestão Dilma Rousseff.
“Há uma certa semelhança com o governo de Dilma Rousseff, quando foi feito um grande esforço para vencer a eleição, estourando as contas de uma maneira espetacular”, afirma. Ele vê no atual mandato uma combinação de expansão de gastos e resistência a cortes que, em sua leitura, aproxima o país de um novo desequilíbrio.
Sobre o provável adversário de Lula, o senador Flávio Bolsonaro, Fraga remete ao governo do pai, Jair Bolsonaro, que classifica como “imensamente problemático”. “Foi um governo que não apoiou a vacinação, facilitou a venda de armas e munições e não esteve à altura dos desafios sociais do país”, diz. Para ele, o legado desse período ainda pesa sobre a confiança institucional e dificulta a construção de consensos mínimos.
Fraga volta a defender a necessidade de romper a polarização e cita os governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema como exemplos de nomes que poderiam, em tese, liderar uma agenda econômica liberal com apoio de um Congresso majoritariamente de centro-direita. Mesmo assim, avisa que não pretende se engajar formalmente com nenhum candidato após ter apoiado, sem sucesso, a pré-candidatura de Eduardo Leite. “Eu me expus muito nos últimos anos e não me arrependo. Sou partidário de procurar o melhor voto possível para o Brasil”, afirma.
Famílias, empresas e o custo da dívida
O alerta de Fraga toca diretamente o bolso de famílias e empresas. A inadimplência em massa, lembra ele, é ao mesmo tempo sintoma e causa de um ciclo difícil. Mais gente atrasada reduz o apetite dos bancos para conceder crédito, encarece os juros e freia o consumo, combustível básico da economia.
Para empresas, em especial as que se financiaram via instrumentos sofisticados de mercado, o aperto aparece na dificuldade de rolar dívidas que vencem em sequência. Com juros altos e investidores mais avessos ao risco, muitas refinanciam obrigações em prazos menores e taxas maiores, o que aumenta a chance de calote e pode levar a cortes de investimentos e empregos.
Fraga recomenda cautela rigorosa. Ele diz que famílias e companhias deveriam preservar caixa e evitar novas dívidas neste momento, sob o risco de ver o custo financeiro virar um “problema fatal” adiante.
Liderança em força-tarefa do Federal Reserve
Enquanto dispara críticas ao cenário doméstico, Fraga amplia o raio de ação no debate global. O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, o escolhe para liderar uma das cinco forças-tarefa encarregadas de revisar a condução da política monetária americana.
Ele assume o grupo responsável por avaliar e sugerir melhorias na comunicação do Fed com os mercados e a sociedade. Ao seu lado estarão nomes de peso, como Peter R. Fisher e Mervyn King, num time independente que terá a missão de fazer recomendações ao Comitê Federal de Mercado Aberto, responsável pelas decisões de juros.
O presidente do Fed, Kevin Warsh, reforça em nota o objetivo de modernizar a instituição sem abandonar seu mandato central. “O compromisso do Federal Reserve com a estabilidade de preços e o máximo emprego permanece inabalável”, afirma. A avaliação da comunicação busca tornar mais previsível e transparente a estratégia do banco central, num ambiente de mudanças profundas na economia global.
A presença de Fraga nesse núcleo estratégico tende a ampliar sua influência sobre o debate monetário internacional. Decisões do Fed moldam fluxos de capitais, juros globais e taxas de câmbio, com impacto direto sobre países emergentes como o Brasil. Uma comunicação mais clara em Washington pode reduzir choques e volatilidade aqui, mas também tornar mais nítidos os limites para políticas domésticas que ignorem riscos fiscais.
O contraste entre o prestígio internacional de Fraga e o incômodo que suas críticas geram em Brasília resume o dilema brasileiro. De um lado, a necessidade de ajustar contas, cortar privilégios tributários e elevar a qualidade do gasto. De outro, o custo político de enfrentar esses temas em plena disputa eleitoral. A resposta do governo e dos candidatos às advertências do economista ajuda a definir se o país chega a 2027 como ele antevê — à beira de uma nova recessão — ou se consegue, enfim, reverter o quadro de febre crônica que trava o crescimento.
Quem é Armínio Fraga e qual seu papel na força-tarefa do Federal Reserve?
Armínio Fraga é ex-presidente do Banco Central do Brasil e sócio-fundador da Gávea Investimentos. Ele lidera a força-tarefa encarregada de revisar e aprimorar a comunicação da política monetária do Federal Reserve com mercados e sociedade, apresentando recomendações ao comitê que decide os juros nos EUA.
Por que Armínio Fraga afirmou que o quadro econômico do Brasil é desastroso?
Fraga fala em quadro desastroso por combinar dívida pública em alta, juros longos elevados, gasto do governo perto de um terço do PIB, 80 milhões de inadimplentes e empresas com dificuldade de rolar dívidas, tudo isso sem um plano crível de ajuste fiscal.
Qual a experiência de Armínio Fraga como ex-presidente do Banco Central do Brasil?
Fraga comandou o Banco Central em período crucial de estabilização econômica, com experiência direta em política monetária, gestão da inflação, câmbio e regulação financeira. Desde então, atua como gestor e conselheiro em temas macroeconômicos no Brasil e no exterior.
Como a nomeação de Armínio Fraga para o Fed pode impactar a política econômica dos EUA?
Fraga não decide juros americanos, mas influencia a forma como o Fed comunica suas decisões. Uma comunicação mais clara e previsível pode reduzir volatilidade em mercados globais, afetando taxas de juros, fluxos de capitais e câmbio, com reflexos sobre a economia dos EUA e de países emergentes.
Armínio Fraga já ocupou cargos em governos brasileiros? Se sim, em quais?
Sim. Ele foi presidente do Banco Central do Brasil, posto-chave na equipe econômica federal, e participou de momentos decisivos da política econômica, o que consolidou sua reputação como um dos formuladores mais influentes do país.
Quais são as principais contribuições de Armínio Fraga para a economia brasileira e internacional?
Entre as contribuições estão sua atuação na consolidação da estabilidade monetária no Brasil, a participação em debates e propostas de reformas fiscais e institucionais, e o papel em organismos e instituições financeiras globais. Agora, soma-se a liderança na força-tarefa do Fed sobre comunicação da política monetária, com potencial de influenciar práticas adotadas por bancos centrais ao redor do mundo.