Novas imagens do caça J-36, feitas sobre Chengdu e divulgadas nesta semana, sugerem que a China acelera o desenvolvimento de seu candidato a caça de sexta geração. Analistas veem no quinto exemplar conhecido do programa um possível primeiro avião de pré-série, etapa que antecede a produção em escala.
Suposto salto para a fase de pré-série
As imagens, registradas em 23 de julho, mostram uma aeronave com pintura em tom uniforme e detalhes externos mais refinados do que os protótipos anteriores. Observadores chineses de aviação militar identificam o aparelho como um novo J-36, desenvolvido pela Chengdu Aircraft Corporation, em parceria com a estatal Aviation Industry Corporation of China.
Nem o Ministério da Defesa da China, nem a fabricante, nem a Força Aérea do Exército de Libertação Popular confirmam qualquer mudança de fase no programa. Mesmo assim, a interpretação dominante entre analistas é de que o avião já pode representar uma unidade de produção inicial em baixa cadência, conhecida pela sigla inglesa LRIP. “A classificação da aeronave como exemplar de pré-série deve, portanto, ser tratada como provisória”, adverte o site especializado Poder Aéreo.
Se a leitura estiver correta, o programa J-36 entra em um patamar mais próximo do uso operacional, ainda que distante de dotar esquadrões. A LRIP serve para validar a linha industrial, ampliar ensaios, testar sistemas de missão e preparar manutenção, com liberdade para incorporar alterações relevantes ao longo do processo.
Aerodinâmica híbrida e foco em furtividade traseira
As fotos e vídeos sugerem que o novo J-36 combina soluções testadas em diferentes protótipos. O primeiro aparelho observado em voo, em dezembro de 2024, trazia três escapes profundamente recuados em canais integrados à parte superior da fuselagem traseira, desenho pensado para ocultar partes quentes dos motores e reduzir assinatura radar e infravermelha vistas de trás.
Um segundo protótipo, revelado no ano seguinte, introduziu entradas de ar laterais redesenhadas, do tipo Diverterless Supersonic Inlet (DSI) — tecnologia que dispensa superfícies móveis extras para separar o fluxo de ar — além de novos bocais angulares, associados por especialistas a vetoração de empuxo, e modificações no trem de pouso principal. Veículos como Janes destacaram na época que Chengdu conduzia uma espécie de laboratório em escala real, comparando soluções estruturais, aerodinâmicas e de propulsão.
O suposto exemplar de pré-série observado agora parece preservar as tomadas de ar aperfeiçoadas do segundo protótipo, recuperando ao mesmo tempo os escapes recuados da primeira aeronave. Analistas consideram plausível que a fabricante tenha congelado uma configuração híbrida, que tenta equilibrar alimentação de ar para os motores e prioridade máxima à furtividade traseira.
A qualidade e o ângulo das imagens ainda não permitem afirmar se os escapes são idênticos aos da primeira célula ou se representam uma terceira variação, refinada a partir das experiências anteriores. Em qualquer cenário, o J-36 mantém traços radicais: fuselagem grande, ausência de estabilizadores verticais e três motores, combinação associada a alta autonomia, amplo volume interno e foco em missões de longo alcance.
Cronograma supera o do J-20
A hipótese de que o novo avião já pertença à fase de pré-série ganha força quando se compara o ritmo do J-36 com o do J-20, primeiro caça furtivo chinês em operação. O J-20 realiza seu voo inaugural em janeiro de 2011. A célula de desenvolvimento de engenharia e fabricação numerada 2011 decola em 1º de março de 2014, marcando o início de uma segunda fase de aperfeiçoamentos.
O primeiro exemplar amplamente identificado como de produção inicial do J-20, numerado 2101, voa em meados de janeiro de 2016. Entre o primeiro voo da célula 2011 e esse aparelho LRIP transcorrem aproximadamente 22 meses e meio, segundo cronologias de fontes abertas reunidas por publicações especializadas.
No caso do J-36, o marco equivalente é muito mais recente. O primeiro exemplar conhecido, numerado 36011, é observado em voo sobre Chengdu em 26 de dezembro de 2024, acompanhado de um J-20S biposto. O suposto avião de pré-série aparece nas imagens de 23 de julho de 2026. O intervalo entre os dois marcos é de pouco menos de 19 meses.
“Caso a nova aeronave seja realmente de pré-série, o J-36 terá avançado da primeira célula EMD publicamente observada à LRIP cerca de três meses e meio mais rapidamente do que o J-20 percorreu etapa comparável”, resume o Poder Aéreo. A diferença não prova, por si só, maior maturidade tecnológica, mas indica que o ritmo atribuído ao novo programa é compatível, e até mais agressivo, do que o da geração anterior.
Indústria mais madura, ambição maior
O contexto industrial também mudou. Desde o desenvolvimento inicial do J-20, a infraestrutura da Chengdu se expande de forma consistente. Análises de imagens de satélite apontam crescimento da capacidade de fabricação, com estimativas atuais de produção anual do J-20 bem superiores às de sua fase inicial.
Engenheiros chineses acumulam experiência na produção seriada do J-20, na versão biposta J-20S, na integração de motores fabricados no país e na construção de estruturas furtivas complexas. Sistemas digitais avançados de projeto e ensaio estão disseminados. Isso reduz a necessidade de recriar do zero toda a cadeia de materiais, software, testes, fornecedores e mão de obra a cada novo projeto.
O J-36 parece herdar essa base, embora adote uma configuração sem cauda que impõe desafios próprios de controle de voo e integração de sensores. Ele também surge em paralelo a outro programa de caça furtivo sem empenagens verticais, conduzido pela Shenyang e conhecido informalmente como J-XD ou J-50. A China toca simultaneamente dois projetos dessa categoria, enquanto mantém a produção dos caças furtivos J-20 e J-35.
Impacto estratégico e corrida pelo caça de sexta geração
A eventual entrada do J-36 em produção inicial coloca a China em posição adiantada na disputa pelo primeiro caça rotulado como de sexta geração a chegar ao serviço operacional. Essa nova categoria costuma incluir capacidade furtiva aprimorada em todo o espectro, vetoração avançada de empuxo, sensores distribuídos, fusão massiva de dados e integração estreita com aeronaves não tripuladas.
O avanço pressiona diretamente programas equivalentes de outras potências militares, que já correm para definir seus próprios caças de próxima geração. Países com projetos concorrentes podem ser levados a acelerar cronogramas, reforçar orçamentos ou rever doutrinas de emprego de poder aéreo, especialmente no Indo-Pacífico.
Setores ligados à indústria aeroespacial global e ao comércio internacional de armamentos acompanham de perto o movimento. Uma China capaz de desenvolver, industrializar e, no futuro, exportar aeronaves com esse nível de sofisticação tende a redesenhar fluxos de investimento, transferência de tecnologia e formação de alianças.
Mesmo que a classificação LRIP do novo J-36 se confirme, o caça não entra de imediato em esquadrões de combate. O próprio J-20 leva um período relevante entre seus primeiros aparelhos de produção inicial e a incorporação oficial pela Força Aérea chinesa. A fase de pré-série costuma servir para depurar sistemas, consolidar táticas e ajustar a doutrina.
Se, ao contrário, o avião agora visto ainda for apenas o quinto protótipo de desenvolvimento, o recado continua forte: em cerca de 19 meses, a Chengdu produz cinco células de um caça de grandes dimensões, em um ritmo elevado para qualquer padrão internacional. Em ambos os cenários, a mensagem é de aceleração tecnológica. Próximos passos incluem novos testes de voo, integração de radar, sensores e software de missão, e, em algum momento, um anúncio oficial que pode reposicionar a balança do poder aéreo na Ásia e além.