O PL oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República em convenção realizada no Mercado Pago Hall, na Arena Pacaembu, em São Paulo. O evento reuniu lideranças da direita, teve o governador paulista Tarcísio de Freitas como anfitrião e recebeu o presidente argentino Javier Milei, homenageado por Tarcísio com a Ordem do Ipiranga.
A cerimônia tentou projetar unidade em torno do nome escolhido por Jair Bolsonaro para suceder o pai na disputa nacional, mas os bastidores contam uma história mais acidentada do que o palco.
Michelle Bolsonaro reaparece, mas mantém projeto próprio
A ausência física de Michelle Bolsonaro foi o detalhe mais comentado por quem acompanhou de perto a articulação do partido. A ex-primeira-dama permaneceu em Brasília ao lado do marido e enviou apenas uma mensagem em vídeo declarando apoio ao enteado.
O gesto veio depois de semanas de desgaste público entre os dois, motivado por divergências sobre a movimentação do PL no Ceará. A reaproximação só foi costurada nos últimos dias, com mediação de aliadas próximas a Michelle, como Celina Leão e Damares Alves, e após um pedido público de desculpas de Flávio.
Michelle deve voltar à linha de frente da campanha, concentrando sua atuação no eleitorado feminino e evangélico, sem abrir mão do projeto de disputar uma vaga no Senado pelo Distrito Federal.
Eduardo Bolsonaro segue como fator de instabilidade
Eduardo Bolsonaro continua sendo o nome mais desconfortável dentro dessa engrenagem. A permanência dele no exterior, o discurso recorrente de perseguição política e o histórico de atritos diplomáticos são vistos por parte da própria base como um passivo maior do que um ativo para o desempenho eleitoral do irmão.
É um ruído que o PL sabe que não controla e que tende a reaparecer sempre que a candidatura de Flávio precisar de estabilidade.
Vice indefinido expõe negociações em andamento
A convenção também deixou claro que a chapa está longe de estar fechada. Não há vice definido, e o prazo para as legendas confirmarem suas candidaturas termina em 5 de agosto.
Nos bastidores circulam os nomes da deputada catarinense Júlia Zanatta e da economista Daniella Marques, mas nenhuma indicação foi formalizada. O cenário revela que o entorno de Flávio ainda negocia apoios que, nesta altura da corrida, já deveriam estar consolidados.
Republicanos evita compromisso
O Republicanos é o retrato mais evidente dessa indefinição. O partido marcou presença no Pacaembu por meio de parlamentares e governadores aliados, mas evitou qualquer aceno de apoio nacional à candidatura.
A legenda mantém discurso de neutralidade na disputa presidencial, preservando a musculatura política de Tarcísio de Freitas e adiando um racha que pode se tornar inevitável à medida que a campanha avançar.
PSD lança chapa própria
Enquanto o PL tentava demonstrar força em São Paulo, o PSD selava sua própria chapa presidencial. Ronaldo Caiado, que deixou o União Brasil para viabilizar a candidatura, foi confirmado com Gilberto Kassab como vice, formando o que a legenda chama de chapa “puro-sangue”.
No discurso de lançamento, Kassab fez questão de declarar apoio a Tarcísio de Freitas na disputa pelo governo paulista, um gesto que resume a lógica fragmentada da política nacional neste ciclo: disputa intensa pelo Planalto, mas acomodação pragmática nos estados que decidem a eleição.
Entre o discurso e os bastidores
O saldo da convenção do PL é ambíguo. Do ponto de vista da imagem, o partido conseguiu evitar o pior cenário, que seria a ausência total de Michelle Bolsonaro do processo.
Politicamente, porém, a candidatura de Flávio segue dependendo de peças que ainda não se encaixaram: um vice indefinido, Eduardo Bolsonaro como fator permanente de instabilidade e um Republicanos que prefere observar de fora antes de escolher um lado.
Como costuma acontecer nas convenções brasileiras, o palco projetou unidade. Os corredores, mais uma vez, contaram outra história.