Gestores da Faria Lima passam a tratar como cenário-base um 4º mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e deslocam o debate para o perfil fiscal de um eventual novo governo. Flávio Bolsonaro, principal adversário do presidente, segue competitivo nas pesquisas, mas, na leitura predominante do mercado, não consegue romper a vantagem construída pelo petista.
Mercado já olha além de 2026
Nesta semana, em meio à reta decisiva da campanha presidencial, o humor de fundos de investimento, bancos e corretoras muda de tom. Em vez de discutir quem vence a eleição, boa parte dos executivos passa a projetar como Lula governaria de 2027 em diante e que espaço a política econômica terá para conter a deterioração fiscal.
Para a Faria Lima, Flávio Bolsonaro dificilmente conseguirá reverter o cenário atual, ainda que a diferença entre os dois seja considerada pequena nas pesquisas. A percepção reduz a incerteza eleitoral imediata, mas acende outro tipo de alerta: o risco de um governo encurralado entre o desejo do mercado por disciplina fiscal e a pressão política por mais gastos.

Flávio isolado e sob boatos
Nos gabinetes envidraçados da Faria Lima, a crítica recorrente à campanha de Flávio Bolsonaro é a falta de sustentação política fora de seu campo mais fiel. Nenhum presidente de outro partido aparece ao lado do senador em eventos centrais da candidatura, o que reforça a imagem de isolamento.
Além disso, o presidenciável convive com rumores constantes sobre seu passado político. É dito que Flávio convive com os boatos diários de que haverá novos, e cada vez pires, revelações negativas sobre suas atuações no passado. O ambiente de suspeita alimenta receios de que novos episódios possam surgir no meio da campanha ou no início de um eventual governo, fragilizando sua capacidade de articulação com o Congresso.
Ainda assim, investidores deixam claro que simpatizam mais com o programa econômico associado a Flávio. A agenda liberal, com ênfase em privatizações e corte de gastos, dialoga com as teses que dominam o mercado há anos. O problema, neste momento, é menos de afinidade e mais de viabilidade eleitoral.

Lula favorito, mas sob desconfiança fiscal
Entre os gestores ouvidos, a leitura é quase unânime de que Lula consolidou uma vantagem estratégica. Para a Faria Lima, o mercado conclui que o presidente Lula construiu uma vantagem consistente e que Flávio não conseguiu quebrar essa barreira, mesmo com as pesquisas acirradas.
O principal foco das discussões, hoje, está em qual será o perfil de um eventual novo governo Lula, não se irá ou não ganhar. A pergunta central é se o petista repetirá a expansão de gastos do atual mandato ou se buscará um retorno ao padrão de resultados fiscais positivos, associado ao seu segundo governo.
Os números das contas públicas ajudam a explicar a preocupação. A dívida bruta cresce em proporção do PIB durante a gestão atual, num contexto de expansão de despesas e conflitos recorrentes com o Banco Central em torno da política fiscal. Esse quadro alimenta a aposta de parte do mercado de que não há mais espaço para empurrar a conta adiante sem consequências sobre juros, câmbio e crescimento.
Desejo de “Lula 2” e medo de “Dilma 2”
Empresas e fundos passam a trabalhar, em cenários internos, com a hipótese de um Lula mais contido em um 4º mandato. Boa parte da gestão espera que um eventual 4º mandato se aproxime mais do que foi o Lula 2, marcado por superavits fiscais, do que do modelo adotado na atual gestão.

O desejo é explícito, mas não amparado, até agora, por sinais concretos vindos do Planalto. Essa leitura reflete mais um “wishful thinking” do mercado do que sinais concretos emitidos pelo governo. A equipe econômica não anuncia mudança de rota nem plano detalhado para reverter a tendência de alta da dívida.
No outro extremo, gestores mais céticos evocam um fantasma recente. Os pessimistas acreditam na possibilidade da repetição de Dilma 2, que terminou com o impeachment da ex-presidente e marcado por uma recessão econômica. O paralelo expõe o temor de uma combinação de gasto elevado, baixa credibilidade fiscal e crise política, capaz de paralisar investimentos e travar a atividade.

Setores em alerta e FGTS no radar
A perspectiva de um ajuste mais duro em um eventual novo governo tem impactos diferentes na economia real. Áreas dependentes de obras públicas e programas sociais robustos, como construção pesada e empresas voltadas a infraestrutura, veem com cautela a possibilidade de um freio mais forte nos desembolsos federais.
Já investidores focados em renda fixa e ações de bancos tendem a enxergar oportunidade em um ambiente de maior disciplina fiscal, com potencial de reduzir prêmios de risco e, no limite, abrir espaço para queda sustentável de juros. A recente decisão do Conselho do FGTS de aprovar a distribuição de R$ 13,04 bilhões em lucros a trabalhadores ilustra como o governo também tenta ativar canais de renda direta ao consumidor sem depender apenas de novos programas.
Essa dinâmica, porém, depende de credibilidade. Se o mercado perceber que promessas de contenção de gastos não se materializam, a reação pode vir na forma de dólar mais alto, bolsa pressionada e encarecimento da rolagem da dívida. É esse balanço delicado que hoje domina reuniões de comitês de investimento e relatórios enviados a grandes clientes.
Polarização consolidada e mira em 2030
O movimento de antecipar a discussão sobre o formato de um 4º mandato de Lula também revela descrença na emergência de uma alternativa competitiva. Para a Faria Lima, a chamada “terceira via” é também utópica e improvável. A polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro aparece, assim, como dado de realidade, não como contingência momentânea.
Entre mesas de operação e conselhos de administração, cresce a ideia de que mudanças estruturais na condução da economia só terão chance a partir da eleição seguinte. De todo modo, independente do que for, a Faria Lima adota um pensamento de aguardar os resultados para 2030.
Até lá, o mercado tenta calibrar expectativas. Acompanhará de perto o desenho da equipe econômica em caso de vitória de Lula, a interlocução com o Congresso e eventuais compromissos formais de resultado fiscal. Também observará de que forma Flávio Bolsonaro reage ao cerco político e aos boatos sobre seu passado, fatores que podem influenciar sua força como líder da oposição.
As decisões dos próximos meses — da definição do arcabouço fiscal à resposta a choques externos — dirão se o país caminhará para um arranjo mais previsível ou se repetirá ciclos de tensão entre governo e investidores. O que a Faria Lima já coloca no preço é que, com ou sem ajuste, o próximo capítulo da economia brasileira deve ser escrito, mais uma vez, sob a assinatura de Lula.