O transporte público de Belo Horizonte e da Região Metropolitana voltou ao centro do debate, mas, desta vez, a discussão não foi apenas sobre a rotina de quem enfrenta ônibus cheios, atrasos e viagens longas. Em uma audiência pública realizada nesta terça-feira (28), vereadores, representantes do Metrô BH e integrantes dos governos municipal e estadual discutiram um dos principais desafios da mobilidade: a integração entre os diferentes sistemas de transporte.
A discussão acontece em um momento considerado estratégico. De um lado, a construção da Linha 2 do metrô promete ampliar a rede sobre trilhos. Do outro, o contrato de concessão dos ônibus municipais chega ao fim em 2028, abrindo espaço para mudanças no modelo atual.
Mas, apesar do discurso de que a integração pode melhorar a vida dos passageiros, os participantes apontaram obstáculos que ainda impedem a implantação de um sistema mais conectado. Entre eles estão a falta de recursos financeiros, dificuldades para alterar contratos e a necessidade de uma articulação política entre os diferentes órgãos responsáveis pelo transporte.
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Quem paga a conta? O principal desafio da integração
Um dos principais pontos levantados durante a audiência foi justamente a divisão dos custos. Atualmente, os sistemas de transporte de Belo Horizonte e da Região Metropolitana funcionam de maneira pouco integrada, com modelos de operação e financiamento diferentes.
O superintendente de Mobilidade do município, Frederico Augusto da Silva, afirmou que a integração é necessária, mas destacou que o principal problema é definir quem vai assumir os custos dessa mudança.
Segundo ele, o transporte metropolitano e o municipal ainda funcionam mais como sistemas concorrentes do que complementares. Além disso, o representante destacou que o sistema de ônibus possui uma capilaridade maior que o metrô e que qualquer mudança precisa considerar a realidade financeira dos diferentes modais.
A discussão sobre custos também envolve o atual modelo de remuneração do transporte coletivo de Belo Horizonte e os subsídios pagos ao sistema. Durante a audiência, representantes questionaram se um acordo metropolitano poderia ser uma alternativa mais eficiente do que manter investimentos separados em diferentes estruturas.
Metrô pode transportar até 300 mil passageiros por dia com expansão
Representantes do Metrô BH defenderam que a integração entre ônibus e transporte sobre trilhos pode ser uma das principais soluções para melhorar a mobilidade na capital.
Atualmente, o metrô transporta cerca de 90 mil passageiros por dia. Com a implantação da Linha 2 e a revitalização da frota, a expectativa é que a capacidade aumente para até 300 mil usuários diariamente. A proposta é que metrô, ônibus municipais e linhas metropolitanas funcionem de forma complementar, permitindo que o passageiro utilize diferentes modais com mais facilidade.
Um dos exemplos citados foi Salvador, na Bahia, onde existe integração tarifária e possibilidade de utilização de diferentes meios de transporte com o mesmo sistema de bilhetagem.
Mais transporte coletivo e menos aposta em grandes obras viárias
Outro ponto discutido foi a necessidade de mudar a lógica de planejamento da mobilidade urbana.
O secretário-adjunto da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra), Pedro Calixto Alves de Lima, afirmou que ampliar vias e construir novas estruturas para carros não resolve o problema de congestionamento a longo prazo.
Segundo ele, o caminho passa pelo fortalecimento do transporte coletivo e pela criação de alternativas para que o passageiro consiga chegar ao metrô e aos terminais com mais facilidade.
Uma das propostas apresentadas é a criação de linhas circulares que façam a ligação entre bairros e estações, facilitando o acesso ao sistema sobre trilhos.
Contrato dos ônibus é apontado como uma barreira para mudanças
Durante o debate, outro obstáculo citado foi o atual contrato de concessão do transporte coletivo de Belo Horizonte.
Representantes afirmaram que o modelo atual dificulta mudanças mais profundas e que a chegada de uma nova licitação, prevista para 2028, pode abrir espaço para um sistema mais integrado.
A vereadora Fernanda Altoé destacou que o momento é importante justamente pela proximidade do fim do contrato e pela expansão prevista do metrô.
Para representantes do governo estadual, a criação de um Marco Legal do Transporte pode ajudar a definir responsabilidades entre município e estado, incluindo a divisão dos custos de uma futura integração.
Usuário ainda espera mudança na prática
Apesar das discussões e dos planos apresentados, passageiros que dependem do transporte público continuam esperando mudanças concretas. Na reportagem especial do NC News, usuários relataram problemas que fazem parte da rotina: tarifas elevadas, ônibus lotados, atrasos e um metrô considerado limitado diante do tamanho da Região Metropolitana.
Para especialistas, a integração pode ser uma das principais ferramentas para reduzir o tempo de viagem e melhorar a experiência do passageiro, mas depende de planejamento, investimento e uma definição clara sobre responsabilidades.
Enquanto o debate avança nos gabinetes, quem utiliza o transporte público diariamente ainda espera que a promessa de um sistema mais eficiente deixe de ser apenas um projeto e chegue, de fato, às ruas de Belo Horizonte.