Diários de Fauci expõem crise no Senado e silêncio que surpreende

Revelações dos diários de Fauci mostram conflitos internos e silêncio inesperado durante depoimento no Senado.
Redação NC News
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Anthony Fauci, 85, ex-czar de doenças infecciosas dos Estados Unidos, enfrenta hoje a mais dura contestação à sua trajetória pública. Após a divulgação de mais de 1.100 páginas de seus diários pessoais, o imunologista se recusa a responder perguntas em uma audiência no Senado e invoca, mais de 100 vezes, a Quinta Emenda da Constituição americana para não se autoincriminar.

Os registros, publicados pelo senador republicano Rand Paul, expõem bastidores da pandemia de Covid-19, tensões com Donald Trump e discussões internas sobre a origem do vírus em Wuhan, na China. A combinação de vazamento dos diários, silêncio sob juramento e um indulto presidencial preventivo concedido por Joe Biden transforma um debate científico em batalha política aberta em Washington.

Diários revelam bastidores da pandemia e críticas a Trump

Os diários de Fauci cobrem o período de 2019 a 2022 e foram mantidos em servidores eletrônicos do governo. Rand Paul obteve o material e decidiu torná-lo público às vésperas da audiência, em ofensiva direta contra o cientista que se tornou o rosto da resposta americana à Covid-19, responsável por mais de um milhão de mortes no país.

Os textos mostram um Fauci que se vê no centro de um furacão político e midiático. Em um dos trechos, ele registra o espanto com a súbita celebridade: descreve-se como talvez “a pessoa mais famosa e da qual mais se fala no país” e fala de uma “fama nacional e internacional explosiva e inimaginável”.

As anotações também detalham a deterioração da relação com Donald Trump. O ex-presidente, que no início o corteja para integrar a força-tarefa da Casa Branca, passa a enxergar em Fauci um obstáculo às mensagens otimistas sobre a pandemia. Em contrapartida, o médico anota episódios em que considera o comportamento de Trump “penosamente errático” nas coletivas. O conflito se torna pessoal. Em público, Trump reage chamando as ideias do cientista de “LOUCAS!”.

Os diários revelam ainda o desconforto de Fauci com a reação republicana à eleição presidencial de 2020. Ele critica senadores do próprio partido de Trump por apoiar alegações de fraude e registra o temor de uma crise constitucional, num momento em que os Estados Unidos ainda enfrentavam índices elevados de contágio e mortes pela Covid-19.

Origem da Covid-19: dúvidas em privado, ceticismo em público

O ponto mais explosivo para os adversários de Fauci está nas reflexões sobre a origem do novo coronavírus. Enquanto, em público, ele trata a hipótese de vazamento de laboratório como teoria conspiratória, seus diários mostram um quadro mais nuançado.

Os registros apontam que Fauci recebe telefonemas de cientistas preocupados com a possibilidade de manipulação ou liberação acidental de um vírus em laboratório em Wuhan. Ele organiza reuniões reservadas com especialistas para discutir o tema. Em uma de suas anotações, afirma: “Sabemos que o mercado [de animais de Wuhan] não foi a fonte, mas o amplificador. Em algum lugar, o vírus saltou dos animais para os humanos”.

O trecho é usado por Rand Paul para sustentar a acusação de que houve um esforço deliberado para restringir o debate público à hipótese de origem natural, por transmissão de animais para humanos, hoje vista pela Organização Mundial da Saúde como a mais bem fundamentada. Para o senador, a postura de Fauci e de outros funcionários teria “enganado o Congresso e o público” ao minimizar a possibilidade de vazamento laboratorial.

O choque entre bastidores e discurso público alimenta a narrativa republicana de acobertamento. Democratas e parte da comunidade científica respondem que a ciência trabalha com hipóteses concorrentes e que, até hoje, nenhuma investigação produziu evidência conclusiva de que o vírus saiu de um laboratório.

Silêncio amparado na Quinta Emenda e escudo do indulto

O confronto atinge novo patamar na audiência no Senado, dedicada justamente às revelações dos diários e à conduta de Fauci durante a pandemia. Diante de um plenário polarizado, o ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas decide não responder às perguntas.

Amparado por advogados, ele invoca a Quinta Emenda — que garante o direito de não produzir provas contra si mesmo — mais de 100 vezes. A escolha choca parte da opinião pública, acostumada à imagem de um técnico disposto a explicar decisões complexas em detalhes.

Na declaração inicial, Fauci parte para o contra-ataque. Diz que a audiência não busca esclarecimentos, mas munição política: “A única razão pela qual estão me chamando perante este comitê é conseguir que eu diga algo, o que for, que possa respaldar suas promessas públicas reiteradas de que eu termine, em suas palavras, entre aspas, ‘atrás das grades’”.

O senador Rand Paul, que preside a sessão, retruca que a questão agora está nas mãos da Justiça. “É assunto dos tribunais decidir se Fauci poderá ser processado judicialmente”, afirma. Ao fim da audiência, republicanos ameaçam abrir nova frente de investigações por desacato e obstrução, apesar do escudo jurídico que Fauci carrega desde a transição presidencial.

Antes de deixar a Casa Branca, Joe Biden concede ao ex-conselheiro de saúde um indulto preventivo por atos ligados à gestão da pandemia em nível federal. O gesto protege Fauci de processos criminais federais relacionados a esse período, mas não o blinda de pressões políticas, convocações ao Congresso ou eventuais disputas em outras instâncias.

Confiança na ciência em xeque e repercussão global

A ofensiva contra Fauci se torna um termômetro da confiança nas instituições científicas e de saúde pública nos Estados Unidos. Para republicanos, o caso exemplifica a captura da ciência por interesses políticos. Para democratas, a cruzada de Rand Paul transforma um debate complexo em tribunal ideológico, com efeitos duradouros sobre a disposição de especialistas em servir ao governo em momentos de crise.

No curto prazo, a tensão aprofunda a polarização em torno da pandemia, mesmo com o vírus hoje sob controle maior do que no auge da emergência sanitária. A exposição de bastidores mostra um governo dividido, atrasos na coordenação de medidas como uso de máscaras e distanciamento social e um cenário em que comunicação confusa custou vidas.

A controvérsia também repercute fora dos Estados Unidos. A insistência em um possível vazamento de laboratório pressiona a China e alimenta pedidos de novas investigações internacionais sobre biossegurança. A cooperação científica entre países, crucial para prevenir futuras pandemias, entra em terreno mais delicado, com desconfiança de ambos os lados.

Para Fauci, o saldo imediato é ambíguo. Do ponto de vista legal federal, o indulto de Biden lhe garante relativa tranquilidade. Politicamente, o ex-conselheiro sai da audiência mais vulnerável, com a imagem de ícone da ciência ameaçada por suspeitas de omissão e pelo silêncio calculado diante dos senadores.

O Senado tende a ampliar as apurações, com novas convocações e análise minuciosa dos diários e de documentos oficiais. A origem da Covid-19, ainda sem resposta definitiva, continua a servir de munição em campanhas eleitorais e debates sobre segurança nacional. A forma como Washington administra essa disputa ajudará a definir o grau de preparação, e de confiança pública, para a próxima grande ameaça sanitária.

Por que Fauci pôde ficar em silêncio no Senado?

Fauci invocou a Quinta Emenda da Constituição dos EUA, que garante a qualquer cidadão o direito de não responder a perguntas que possam levá-lo à autoincriminação.

O indulto de Biden impede qualquer investigação sobre Fauci?

Não. O perdão presidencial protege contra processos criminais federais ligados à pandemia, mas não barra investigações políticas no Congresso nem outras formas de escrutínio.

O que os diários de Fauci dizem sobre a origem da Covid-19?

Os registros mostram que ele considerou, em privado, tanto a hipótese de origem natural quanto a possibilidade de vazamento de laboratório, embora em público tenha tratado esta última como conspiratória.


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