Anvisa amplia cerco contra remédios contaminados, falsificados e com falhas

Agência determina recolhimentos e suspensões após identificar desde paracetamol com suspeita de bolor até unidades falsas de Mounjaro e erros em medicamentos cardíacos.
Redação NC News
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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) intensifica, nos últimos meses, um cerco contra remédios contaminados, falsificados e manipulados de forma irregular no país. As ações mais recentes atingem desde um paracetamol com suspeita de bolor até unidades falsificadas de Mounjaro (tirzepatida), passando por uma farmácia de manipulação interditada e medicamentos cardíacos com desvio de qualidade.

Paramol com bolor e risco imediato ao consumidor

O alvo mais sensível é o lote 114053 do Paramol 750 mg, analgésico e antitérmico à base de paracetamol. Após análises, a Anvisa encontra comprimidos com sujeira e aparência compatível com contaminação por bolor, um tipo de fungo, e decide suspender distribuição, venda e uso dessa remessa em todo o país.

A orientação é direta e sem margem para dúvida. “Clientes que possuem embalagem do lote afetado em casa devem interromper o uso e procurar orientação médica ou farmacêutica para substituir a medicação”, afirma a agência. Quem comprou o produto da farmacêutica Belfar pode buscar ressarcimento junto ao Serviço de Atendimento ao Consumidor da empresa.

A medida atinge farmácias, distribuidoras e hospitais que mantêm estoques do lote específico. Fabricantes arcariam com o custo do recolhimento e da substituição do medicamento, enquanto pacientes com dor ou febre precisam migrar para opções seguras, sob orientação profissional.

Mounjaro falsificado pressiona mercado ilegal

No mesmo movimento, a Anvisa determina a apreensão de unidades falsificadas de Mounjaro, medicamento à base de tirzepatida usado para diabetes e perda de peso. O alerta nasce dentro da própria Eli Lilly, fabricante do produto, que identifica no mercado frascos que se apresentam como originais, mas trazem numeração incompatível com seus registros internos.

O foco recai sobre produtos rotulados com o lote D881474 e o número de série 302199651396. O lote existe na base da empresa, mas o número de série não fecha com o padrão de rastreio. A combinação indica falsificação e leva a agência a mandar recolher as unidades irregulares, em complemento a uma apreensão anterior, em 10 de julho, também ligada ao remédio.

O recado ao consumidor é explícito. “Para evitar problemas, a agência orienta que o Mounjaro seja adquirido apenas em farmácias regularizadas, na embalagem original e com nota fiscal”, diz a Anvisa. A recomendação protege pacientes de substâncias desconhecidas e fortalece empresas que atuam dentro das regras, como a própria Eli Lilly.

Farmácia de manipulação na mira por produção em escala

As ações recentes não atingem só a indústria. A Anvisa manda suspender todas as preparações da farmácia de manipulação Dermo Ervas, após constatar que a empresa divulga e vende, pelo site, fórmulas prontas produzidas em escala, prática vetada para o setor.

Regulamentação de farmácias de manipulação exige prescrição individual, com fórmula adaptada à necessidade de cada paciente. Quando um estabelecimento passa a vender “linhas” de produtos manipulados como se fossem cosméticos ou suplementos de prateleira, rompe essa lógica e escapa do mesmo crivo aplicado a indústrias farmacêuticas.

Nesse vácuo regulatório, a Dermo Ervas oferta, nas redes sociais, diversos itens à base de peptídeos. Entre eles aparece o GHK-Cu, comercializado de forma injetável com promessas de melhora da pele, embora essa substância não tenha aprovação para uso em humanos. O caso acende um alerta sobre o avanço de terapias de moda vendidas sem comprovação e supervisão adequada.

Remédios cardíacos recolhidos por falhas de qualidade

Enquanto casos de contaminação e falsificação ganham mais atenção, parte das ações recentes mira desvios de qualidade menos visíveis, mas potencialmente perigosos. A Anvisa determina, por exemplo, o recolhimento de lotes de cloridrato de dobutamina 12,5 mg/ml, usado em emergências de insuficiência cardíaca aguda, fabricados pela Hypofarma.

As ampolas apresentam resíduos, partículas flutuantes, formação de cristais e alteração de cor, que varia de turva a avermelhada ou amarronzada. Esses sinais indicam instabilidade do produto e risco de reação adversa em pacientes cardiopatas, muitas vezes internados em estado crítico.

Também entram na lista nove lotes de maleato de enalapril 20 mg, remédio comum no controle da hipertensão. Produzidos pela Hipolabor, eles chegam ao mercado com erro na embalagem: a caixa descreve 10 mg, enquanto o comprimido dentro é de 20 mg. Na prática, o paciente pode tomar o dobro da dose imaginada, com impacto direto sobre pressão arterial e efeitos colaterais.

Casos assim expõem uma zona cinzenta da segurança sanitária. Não se trata de produto falsificado, mas de falhas em rotulagem e fabricação capazes de comprometer a confiança na cadeia farmacêutica, do laboratório ao balcão da farmácia.

Pressão regulatória e corrida por mais controle

Do ponto de vista econômico, cada suspensão ou recolhimento tem peso relevante. Empresas assumem o custo logístico para retirar remédios de circulação, revisam processos internos e enfrentam o desgaste de terem o nome ligado a riscos de saúde. Fabricantes como Belfar, Hypofarma e Hipolabor tendem a reforçar controle de qualidade, auditorias e comunicação com médicos e pacientes para conter danos de imagem.

No varejo, farmácias encaram eventual desabastecimento pontual de produtos populares, como analgésicos e antihipertensivos, e precisam orientar quem chega ao balcão com uma caixa de lote interditado. Consumidores, por sua vez, são empurrados a adotar uma postura mais ativa: checar número de lote, examinar aspecto do medicamento, desconfiar de preços muito abaixo da média e exigir nota fiscal.

A Anvisa responde com uma combinação de monitoramento laboratorial, inspeções em campo e rastreamento de queixas. O caso do Mounjaro falsificado, que surge a partir de alerta da Eli Lilly e já soma ao menos duas ondas de apreensão, ilustra um modelo em que indústria e regulador compartilham dados para tentar fechar brechas do mercado ilegal.

O avanço sobre farmácias de manipulação, como no episódio da Dermo Ervas, sinaliza um endurecimento sobre negócios que exploram zonas pouco vigiadas do mercado de estética e emagrecimento. Estabelecimentos que trabalham à margem da regra tendem a enfrentar sanções mais rápidas, da suspensão de produtos à interdição de atividades.

Nos próximos meses, a tendência é de vigilância ainda mais intensa. Casos recentes devem acelerar discussões sobre rastreabilidade de medicamentos, transparência em recall e campanhas educativas para o público, reforçando canais oficiais como Anvisa Consulta Produtos, Anvisa Solicita e o atendimento via Anvisa telefone e chat. O cenário aponta para um equilíbrio delicado: mais segurança para quem depende de remédios, às custas de custos extras e adaptações profundas em toda a cadeia farmacêutica.

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