Paulinho da Força, deputado federal pelo Solidariedade-SP, confronta publicamente o presidente Lula e nega ter apoiado a reforma trabalhista do governo Michel Temer. Em nota oficial divulgada neste fim de semana, o parlamentar chama a acusação de “grave mentira” e cobra um pedido de desculpas do petista.
Disputa de versões sobre a reforma trabalhista
A reação de Paulinho ocorre após discurso de Lula na Convenção Nacional do PT, em que o presidente voltou a criticar a reforma que alterou a legislação trabalhista e responsabilizou o deputado por apoiar o enfraquecimento dos sindicatos. No evento, Lula afirmou que “o Temer teve a coragem de enfraquecer ainda mais, com o apoio do Paulinho da Força Sindical, que vai pedir votos para vocês agora, então vocês tomem cuidado”.
O ataque atinge um ponto sensível da trajetória de Paulinho, historicamente identificado com o movimento sindical e com a Força Sindical. A reforma trabalhista é vista por grande parte das centrais como responsável por reduzir a arrecadação das entidades e limitar a capacidade de negociação coletiva, o que torna qualquer associação de lideranças sindicais a esse processo politicamente tóxica.
No texto divulgado ontem, datado de 2 de agosto de 2026, Paulinho afirma que a fala do presidente contraria a própria defesa que Lula faz do combate à desinformação. “Ao discursar hoje, na Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, o presidente Lula criticou as mentiras que invadem a internet, mas, ao mesmo tempo, propagou ele mesmo uma grave mentira a meu respeito”, escreveu o deputado.
Discursos de 2017 voltam ao centro do debate
Para rebater o Planalto, Paulinho resgata sua atuação na tramitação da reforma trabalhista no Congresso. Ele cita discursos de maio de 2017, tanto na Câmara dos Deputados quanto em sessão no Senado, como prova de que trabalhou contra o texto enviado pelo governo Temer. Em um desses pronunciamentos, em 1º de maio daquele ano, o deputado chamou a proposta de “loucura”. Em outro, em 10 de maio, apelou para que o Senado corrigisse os “equívocos impressionantes” do então projeto de lei que alterava a Consolidação das Leis do Trabalho.
O deputado lembra que, naquele período, já criticava a estratégia do governo Temer de prometer correções posteriores por meio de medida provisória. Na tribuna, alertava para o risco de se aprovar um texto duro com a promessa de ajustes futuros que poderiam nunca ocorrer. “O modelo é interessante, livre negociação, mas não pode amarrar os sindicatos, não pode quebrar a estrutura sindical”, disse em um dos discursos, ao defender que não era possível “esperar ou acreditar” em uma revisão posterior do projeto.
Na nota atual, Paulinho sustenta que sua atuação foi mais firme contra a reforma do que a de parlamentares petistas. “Trabalhei contra a reforma, como sindicalista e deputado, mais até que os deputados e senadores do PT e considero absolutamente desleal que o presidente da República se refira a mim desta forma – com mentiras”, afirma.
Nota cobra pedido de desculpas e expõe tensão com o PT
A resposta do deputado eleva a temperatura entre o Solidariedade e o PT num momento em que partidos discutem alianças e apoios para o próximo ciclo eleitoral. Em tom direto, Paulinho devolve a recomendação de Lula para que os brasileiros pesquisem informações na internet. “Lula pediu aos brasileiros que pesquisem na internet o que é falso ou verdadeiro. Sugiro que ele dê o exemplo”, escreve.
No encerramento do texto, o parlamentar exige que o presidente corrija publicamente a fala feita na convenção petista. “Espero sinceramente que, informado sobre a verdade, o presidente Lula faça um pedido de desculpas que, com a generosidade que ele não teve, aceitarei”, afirma. Até agora, nem o Planalto nem a direção do PT respondem oficialmente à nota.
O embate se dá enquanto o Solidariedade avalia seu lugar no xadrez eleitoral, com discussões internas sobre apoios a figuras como Flávio Bolsonaro e à reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. A fala de Lula tenta colar em Paulinho a imagem de aliado de Temer, algo que pode ser explorado por adversários em negociações futuras, sobretudo entre bases sindicais que veem a reforma como um retrocesso.
Temer, anistia e alianças em disputa
Paulinho também aborda a aproximação com Michel Temer, apresentada nos últimos anos por rivais como prova de alinhamento ao ex-presidente. O deputado admite que a associação é recente e vincula o movimento à sua atuação como relator do projeto de anistia em 2025, quando buscou o apoio de Temer para costurar um acordo com o Supremo Tribunal Federal.
Naquele episódio, o objetivo era construir um texto que estabelecesse critérios de dosimetria para punir envolvidos em atos políticos e evitar que o STF derrubasse integralmente o projeto. As articulações envolveram também o deputado Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais, o que reforçou a imagem de Paulinho como ponte entre diferentes campos políticos em temas delicados.
O parlamentar, porém, tenta separar a aproximação tática nesse episódio de qualquer endosso à agenda econômica do governo Temer, especialmente à reforma trabalhista. Na nota, insiste que sua trajetória, tanto na Força Sindical quanto na Câmara, é marcada pela defesa da estrutura sindical e dos direitos trabalhistas, e não pelo desmonte dessas bases.
No campo sindical, a manifestação de Paulinho é recebida como um esforço para preservar credibilidade com categorias que se sentiram diretamente atingidas pela reforma, que reduziu fontes de financiamento e alterou a dinâmica das negociações coletivas. Entre aliados, a avaliação é que deixar sem resposta a acusação de Lula abriria espaço para que a narrativa petista se cristalizasse junto ao eleitorado de esquerda e de centro-esquerda.
Impacto eleitoral e próximo capítulo da crise
A disputa pela memória da reforma trabalhista ganha peso num cenário em que a avaliação do tema influencia alianças e votos. O governo Lula tenta reafirmar o compromisso com a reversão de medidas vistas como prejudiciais aos trabalhadores e, ao fazer isso, busca isolar figuras associadas ao período Temer, mesmo as que reivindicam trajetória sindical.
Para o Solidariedade, o episódio serve como teste de autonomia em relação ao Planalto. A legenda procura se afirmar como representante de setores sindicais e, ao mesmo tempo, mantém canais abertos com diferentes grupos políticos. Uma reconciliação imediata entre Paulinho e Lula parece improvável, a menos que o presidente recue publicamente da acusação, o que teria custo interno no PT.
Nas próximas semanas, a tendência é que a troca de acusações se reflita em plenário e em entrevistas, com pressão sobre outros parlamentares ligados a sindicatos para que explicitem como votaram e atuaram na época da reforma trabalhista. O episódio deve alimentar o debate sobre uma eventual revisão mais ampla das mudanças aprovadas no governo Temer e servirá como termômetro das alianças possíveis na corrida eleitoral que se aproxima.