Em ligação com Putin, Lula tenta ampliar comércio com mediação na guerra

Presidente brasileiro busca fortalecer laços comerciais e atuar como mediador no conflito entre Rússia e Ucrânia.
Redação NC News
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Luiz Inácio Lula da Silva liga hoje para Vladimir Putin e tenta combinar negócios e diplomacia: amplia o diálogo sobre comércio com a Rússia e oferece ponte na guerra da Ucrânia.

Ligação parte de pedido de Zelensky e mira protagonismo brasileiro

A conversa entre os dois presidentes ocorre por telefone, em chamada oficial, depois de um movimento articulado por Lula desde a cúpula do G7. Naquele encontro, Volodymyr Zelensky pediu pessoalmente que o brasileiro intercedesse junto ao líder russo.

O Planalto vê nessa aproximação uma chance de projetar o Brasil como interlocutor relevante num conflito em que europeus mantêm canais quase fechados com Moscou e os Estados Unidos concentram energia militar e política na guerra no Irã. O gesto de hoje busca ocupar esse vácuo diplomático.

Lula decide ligar a Putin após uma manhã de reuniões no Palácio da Alvorada com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A chancelaria participa da preparação da conversa, que combina temas econômicos e a busca de uma saída negociada para o conflito ucraniano.

Comércio bilateral entra no centro da conversa

Do lado russo, a nota oficial destaca a “expansão e diversificação do comércio bilateral” como ponto central do telefonema. Os dois governos retomam resultados da Comissão Rússia-Brasil de Alto Nível, realizada em Brasília no início do ano, e discutem novas frentes de cooperação.

A intenção declarada é fortalecer relações em áreas variadas, com atenção especial a exportações brasileiras e a setores considerados estratégicos. O movimento interessa a empresas nacionais que buscam reduzir dependência de mercados tradicionais e abrir espaço em um parceiro disposto a contornar o isolamento imposto por sanções ocidentais.

Ao mesmo tempo, a aposta em laços econômicos mais densos com Moscou pode aumentar a pressão sobre o governo brasileiro vinda de capitais europeias e de Washington, que defendem o endurecimento diplomático contra a Rússia por causa da guerra na Ucrânia.

Guerra sem “novidade” e aposta em solução política

Lula tem repetido que o conflito se arrasta sem avanços concretos e deveria ter acabado há muito tempo. “Há 1 ano eu já achava que essa guerra estava na hora de acabar. Essa guerra não tem nenhuma novidade. Todo mundo quer que pare”, afirma o presidente ao comentar a situação ucraniana.

Na ligação de hoje, Putin reage com deferência pública ao esforço brasileiro. Segundo a nota russa, “Vladimir Putin expressou gratidão ao seu homólogo brasileiro pela vontade em auxiliar na busca de uma solução política e diplomática para o conflito ucraniano”. A mensagem funciona como um endosso ao protagonismo que Lula tenta construir.

A interlocução com Zelensky, reforçada numa reunião bilateral em 17 de junho, alimenta a percepção de que o Brasil pode conversar com os dois lados sem ser visto como alinhado automática e exclusivamente a qualquer bloco. É essa equidistância relativa que o Itamaraty tenta capitalizar.

Riscos calculados e impacto interno

A escolha de entrar no centro de uma guerra que reorganiza o tabuleiro geopolítico traz custos e oportunidades. O governo sabe que a aproximação com Putin pode alimentar críticas da oposição e de setores alinhados a países europeus e aos Estados Unidos, que preferem isolar Moscou.

Ao mesmo tempo, o gesto reforça a imagem de Lula como defensor de soluções pacíficas e de um mundo multipolar, discurso que o presidente repete desde a campanha. No cenário doméstico, esse perfil agrada parte expressiva de sua base, mas também reabre o debate sobre o real peso brasileiro nas grandes crises internacionais.

No Itamaraty, a análise é que a visibilidade do Brasil aumenta, assim como o poder de barganha em fóruns multilaterais. A nota russa ressalta que Brasil e Rússia têm “abordagens semelhantes ou similares em muitas questões fundamentais da agenda global” e promete coordenação na ONU e em outros espaços de negociação.

Próximos passos na mediação e no eixo econômico

Os próximos movimentos ainda dependem da resposta concreta de Kiev e Moscou a uma eventual proposta de mediação brasileira. No curto prazo, a expectativa é intensificar contatos multilaterais e testar, em conversas reservadas, a disposição real das partes para um cessar-fogo ou negociações diretas.

Na frente econômica, diplomatas trabalham com a perspectiva de novos acordos setoriais e de maior participação de empresas brasileiras em projetos russos, em meio às restrições impostas por sanções de países ocidentais. Esse espaço é visto em Brasília como oportunidade única para exportadores e para setores de tecnologia e energia.

O sucesso ou o fracasso da iniciativa tende a pesar na forma como o Brasil será ouvido em futuras crises. Se conseguir aproximar posições ou ao menos abrir um canal de diálogo efetivo, Lula consolida a narrativa de que o país volta a ter voz ativa nas grandes decisões globais. Se a costura naufragar, o Planalto enfrentará o desafio de explicar por que uma aposta tão arriscada não produziu resultados palpáveis.

 

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