A Marcopolo encerra o quarto trimestre com lucro maior e receita em queda, em um balanço que expõe o peso dos juros altos no Brasil e a aposta em 2026. O resultado mistura cautela e confiança, com provisões extraordinárias no exterior e uma operação doméstica pressionada pelo crédito caro.
Juros altos travam vendas e derrubam receita
A fabricante de carrocerias de ônibus registra receita líquida de R$ 2,57 bilhões no quarto trimestre, recuo de 3,6% sobre igual período do ano anterior. O mercado interno sofre mais: queda de 5%, contra retração de 2% no mercado externo.
Analistas do Nord Investimentos atribuem o desempenho fraco diretamente ao custo do dinheiro no país. “A redução de -3,6% na receita líquida consolidada decorreu principalmente dos menores volumes faturados ao mercado interno nos segmentos de rodoviários, micros e Volares, especialmente impactados pelos altos custos de financiamento no Brasil”, escrevem.
O efeito aparece com força no segmento de ônibus rodoviários e urbanos, justamente onde a frota está mais envelhecida. Empresas e prefeituras postergam a renovação por falta de crédito em condições viáveis, o que limita o crescimento da produção mesmo em um cenário de demanda reprimida.
Ebitda pressionado por provisão da NFI, mas lucro reage
O Ebitda da Marcopolo atinge R$ 426 milhões no trimestre, queda de 7,7%. A margem recua para 16,6%, ante 17,3% um ano antes. O principal peso vem de um evento classificado como não recorrente: a provisão de garantia de R$ 62 milhões relacionada à coligada canadense NFI.
“A pressão relacionada ao Ebitda, que caiu -7,7%, pode ser explicada pelo evento não recorrente de R$ 62 milhões, em razão da provisão de garantia realizada pela coligada canadense NFI”, aponta o Nord. Sem esse efeito, o Ebitda ajustado teria crescido 1%, o que indica resiliência da operação principal.
O impacto da NFI também aparece na equivalência patrimonial, que vira de um pequeno lucro para um prejuízo de R$ 47 milhões. A leitura no mercado é que se trata de um ponto fora da curva, mais ligado à exposição internacional do que ao núcleo do negócio no Brasil.
Lucro sobe, caixa cresce e alavancagem industrial segue baixa
Mesmo com a pressão operacional, o lucro líquido da Marcopolo avança 7,2% e chega a R$ 341,7 milhões, com margem de 13,3%. O desempenho reflete uma virada importante na linha financeira. “O lucro líquido subiu +7,2%, beneficiado pelo resultado financeiro positivo de R$ 32,8 milhões, ante um resultado negativo de R$ 28,3 milhões no 4T24”, diz o Nord.
A melhora vem de uma combinação de gestão de dívida, remuneração do caixa e câmbio. A companhia chega ao fim do trimestre com posição de caixa de R$ 2,2 bilhões, alta de 11,4%, o que dá fôlego para atravessar o ambiente de juros ainda elevados.
A dívida líquida consolidada sobe 28%, de R$ 1,16 bilhão para R$ 1,48 bilhão. A maior parte, R$ 1,2 bilhão, está concentrada no braço financeiro Banco Moneo, que financia clientes e rede. No segmento industrial, a dívida líquida é de R$ 281,9 milhões, com alavancagem equivalente a 0,2 vez o Ebitda dos últimos 12 meses. “A alavancagem do segmento industrial permaneceu controlada, com dívida líquida equivalente a apenas 0,2x Ebitda dos últimos 12 meses”, reforça o Nord.
Mesmo em um cenário adverso, a empresa mantém indicadores de retorno considerados robustos: retorno sobre o capital investido (ROIC) de 24% e retorno sobre o patrimônio (ROE) acima de 30%. Esses números sustentam o apelo de Marcopolo na Bolsa, inclusive para quem acompanha POMO3 e POMO4 em plataformas como Fundamentus e Status Invest.
Frota envelhecida cria gatilho para 2026
O que anima o mercado é menos o trimestre em si e mais o cenário que se desenha à frente. Analistas falam em demanda represada no transporte coletivo brasileiro e em um possível ponto de inflexão a partir de uma queda mais consistente da Selic.
“Para 2026, podemos esperar possíveis oportunidades relativas à redução das taxas de juros no país, avanço nas vendas de veículos alternativos ao diesel, além da potencial surpresa positiva em volumes no mercado brasileiro”, projeta o Nord. O destaque fica para o segmento urbano, que pode ser impulsionado pela linha de crédito Refrota, voltada à renovação de veículos para transporte público.
Dados da Sindipeças mostram a dimensão do atraso. “Em 2024, quase 60% da frota possuía mais de 11 anos, ante 37% em 2015”, afirma a entidade. O salto indica um processo de envelhecimento acelerado, com impacto direto em conforto, segurança e emissões. Se houver destravamento do crédito, a necessidade de substituição pode se transformar em volumes adicionais relevantes para montadoras de ônibus, com Marcopolo à frente.
O ambiente externo continua desafiador, com o recuo de 2% na receita internacional. Ainda assim, a diversificação de mercados segue como proteção parcial contra ciclos domésticos. A questão é se o Brasil, historicamente principal motor de volumes, volta a puxar o crescimento já neste próximo ano.
Mercado mantém otimismo cauteloso com ações POMO3 e POMO4
A leitura de analistas de mercado é de “otimismo cauteloso”. Os números do quarto trimestre não empolgam em crescimento, mas confirmam uma companhia lucrativa, com caixa robusto e alavancagem controlada no core industrial. Isso ajuda a sustentar o interesse pelos papéis POMO3 e POMO4.
“No momento, temos recomendação de compra para POMO3 no Nord Dividendos”, crava o Nord, citando a combinação de retorno alto sobre capital, perspectiva de destravamento da demanda e possibilidade de distribuição de proventos mais à frente. A ausência de novos dividendos agora e de guidance formal para 2026 é vista como sinal de prudência em meio à incerteza macroeconômica.
Os investidores que acompanham POMO4 para dividendos em 2026 monitoram três variáveis: o ritmo de queda da Selic, a escala da renovação de frota apoiada por linhas como a Refrota e a evolução da situação da NFI. Um cenário de juros menores e volumes domésticos maiores tende a fortalecer o resultado operacional e abrir espaço para um payout mais generoso.
A Marcopolo entra em 2026 numa posição de espera ativa. O balanço mostra que a companhia atravessa o ciclo de juros altos sem feridas graves, mas também sem o crescimento que poderia ter em um ambiente de crédito mais barato. O próximo capítulo depende menos da fábrica em Caxias e mais do que será decidido em Brasília e no Banco Central.