PF rastreia R$ 308 milhões de MT e chega a fundo ligado a filhos de ex-governador

Investigação aponta que parte do valor pago pelo governo à Oi circulou por fundos até chegar a uma operação envolvendo uma usina em Mato Grosso
Redação NC News
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A Polícia Federal investiga o caminho de R$ 308,1 milhões pagos pelo governo de Mato Grosso em um acordo tributário com a Oi. Segundo informações que constam na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), parte dos recursos chegou a um fundo de investimento que tem três filhos do ex-governador Mauro Mendes como cotistas.

O caso é investigado na Operação Heritage, deflagrada nesta quinta-feira (6), com medidas autorizadas pelo STF. A apuração busca esclarecer se recursos públicos foram desviados e posteriormente movimentados por meio de uma estrutura de fundos de investimento e empresas.

De onde vieram os R$ 308 milhões?

O dinheiro está relacionado a um acordo assinado em abril de 2024 pela Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso.

Na ocasião, o governo reconheceu que havia cobrado da Oi um tributo considerado inconstitucional e concordou em devolver R$ 308,1 milhões à empresa.

A Oi, porém, não recebeu diretamente o valor.

Meses antes, durante seu processo de recuperação judicial, a empresa havia vendido a um escritório de advocacia de Cuiabá o direito de receber aquele crédito.

O escritório Ricardo Almeida Advogados Associados pagou R$ 80 milhões por um crédito que a PF calcula em R$ 389,9 milhões.

O dinheiro passou por fundos de investimento

Quando o governo começou a realizar os pagamentos, os recursos foram direcionados para dois fundos criados em fevereiro de 2024, apenas 48 dias antes da assinatura do acordo.

Cada um recebeu aproximadamente R$ 154 milhões.

Um deles, o Royal Capital, tinha como único cotista o advogado Ricardo Gomes de Almeida, proprietário do escritório que havia adquirido o crédito.

O outro, chamado Lotte Word, era ligado à família do deputado federal Fábio Garcia, que ocupava o cargo de secretário-chefe da Casa Civil de Mato Grosso no início dos fatos investigados.

Qual foi o caminho até a família de Mauro Mendes?

É justamente nessa etapa que a investigação ganha um novo capítulo.

Segundo a decisão judicial, parte dos recursos passou por diferentes fundos.

Do Royal Capital, o dinheiro foi para o Zurich e depois para o London. Esse último fundo recebeu R$ 27 milhões, usados na compra de participações na Parecis Bioenergia, uma usina de álcool localizada em Diamantino, em Mato Grosso.

As participações foram vendidas pelo fundo 5M Capital, controlado pelo GS Heritage.

É no GS Heritage que aparecem como cotistas três filhos de Mauro Mendes:

  • Luis Antonio Taveira Mendes;
  • Maria Luiza Taveira Mendes;
  • Ana Carolina Mendes Facures.

O nome desse fundo deu origem à Operação Heritage.

O que Flávio Dino apontou na decisão?

Na decisão que autorizou as medidas, Flávio Dino afirmou que a compra da usina poderia ter viabilizado a transferência de dinheiro público para o patrimônio privado da família do ex-governador, sob a aparência de uma transação societária regular.

A afirmação integra a fundamentação judicial da investigação e não representa uma condenação.

A PF ainda precisa esclarecer a participação e eventual responsabilidade de cada pessoa ou empresa envolvida.

Por que o acordo chamou atenção?

Outro ponto considerado relevante pelos investigadores é o deságio na compra do crédito.

O escritório de Ricardo Almeida pagou R$ 80 milhões por um crédito que a PF calcula em R$ 389,9 milhões — um desconto próximo de 80%. Para Flávio Dino, o valor seria de difícil compreensão econômica.

Além disso, o pagamento feito pelo governo não passou pelo regime de precatórios e não havia previsão no orçamento estadual para a despesa.

Dois pagamentos foram classificados como execução extraorçamentária, ou seja, fora da programação orçamentária do estado.

Banco Master aparece no caminho dos recursos

A investigação também encontrou uma ligação com instituições do grupo Banco Master.

Segundo a reportagem, cinco dos 15 fundos mencionados na decisão eram administrados, na época, pela Master S.A. CCTVM.

Entre eles estavam fundos que receberam os recursos do governo e outros envolvidos na movimentação dos valores que chegaram à compra da usina.

O que a Operação Heritage investiga?

A PF deflagrou a operação nesta quinta-feira com 25 mandados de busca e apreensão.

Também foram autorizados pelo STF:

  • bloqueio de bens de até R$ 308,1 milhões, corrigidos;
  • quebra de sigilos bancário e fiscal;
  • recolhimento de passaportes.

A investigação busca reconstruir o caminho dos recursos e identificar se houve desvio de dinheiro público, ocultação de patrimônio ou outras irregularidades.

E Mauro Mendes?

O ex-governador é citado no contexto da investigação porque três de seus filhos aparecem como cotistas do GS Heritage.

Mauro Mendes foi procurado por meio de sua assessoria e defesa, mas, até a atualização da reportagem consultada, não havia apresentado resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.

É importante destacar que ser alvo de investigação, aparecer em documentos ou ter familiares relacionados a um fundo não significa condenação ou comprovação de crime.

As responsabilidades ainda precisam ser apuradas pela Justiça.

ENTENDA O CONTEXTO

A investigação começou a partir de um acordo tributário entre o governo de Mato Grosso e a Oi.

O estado concordou em devolver R$ 308,1 milhões, mas a Oi havia transferido anteriormente o direito de receber o crédito para um escritório de advocacia.

Quando o pagamento começou, o dinheiro foi dividido entre fundos de investimento.

A partir daí, parte dos recursos passou por outros fundos até chegar a uma operação envolvendo R$ 27 milhões e a compra de participações na Parecis Bioenergia.

Essas participações foram vendidas por um fundo controlado pelo GS Heritage, que tem três filhos de Mauro Mendes como cotistas.

É esse caminho que está no centro da Operação Heritage.

A PF tenta descobrir se toda a movimentação teve finalidade legítima ou se foi utilizada para ocultar a origem e o destino de recursos públicos.

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