O ex-marido de Maria da Penha, Marco Antônio Heredia Viveros, é preso em Natal após descumprir medida protetiva que o proíbe de falar publicamente sobre a tentativa de feminicídio contra a ativista e duas das três filhas do casal. A prisão preventiva, decretada pela Justiça do Ceará, ocorre depois de ele conceder entrevista à TV Record sobre o crime.
Entrevista em TV desencadeia reação imediata da Justiça
A decisão de prender Marco Antônio é tomada pelo juiz Cesar Morel Alcantara durante o plantão judicial, após pedido do Ministério Público do Ceará. O MP aponta que a entrevista e seus materiais promocionais circulam em plataformas digitais e redes sociais, em afronta direta às cautelares impostas em 2024.
Essas medidas proíbem expressamente a divulgação de informações sobre o processo e o uso do nome e da imagem de Maria da Penha e das filhas. Ao falar à TV Record sobre a tentativa de feminicídio, ele viola a determinação, que tinha sido expedida pelo 1º Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Fortaleza.

Na decisão, o juiz registra que “a Justiça entendeu haver indícios suficientes da prática do crime de descumprimento de medidas protetivas de urgência, previsto no artigo 24-A da Lei Maria da Penha”. O texto lembra ainda que o investigado foi formalmente notificado das restrições e das consequências jurídicas caso as desrespeitasse.
Multa de R$ 100 mil por dia e ordem para tirar conteúdo do ar
Além da prisão preventiva, a Justiça determina a retirada imediata do ar de todos os conteúdos ligados à entrevista, em qualquer plataforma. A decisão prevê multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento e exige a preservação integral do material bruto, arquivos de edição, contratos, comunicações internas e documentos correlatos.
O despacho judicial afirma que “a medida visa garantir a ordem pública, assegurar a efetividade das medidas protetivas de urgência e impedir a continuidade da prática delitiva”. O Ministério Público do Ceará sustenta que a entrevista transforma em produto midiático um caso ainda coberto por sigilo e centrado na proteção de vítimas de violência doméstica.

A prisão é executada em Natal pela Polícia Militar do Rio Grande do Norte, em ação articulada com o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público potiguar. Marco Antônio é detido e fica à disposição da Justiça cearense, que deve definir agora as condições de manutenção da prisão e eventual transferência.
Um caso emblemático sob a lente da Lei Maria da Penha
A nova prisão de Marco Antônio ocorre dois dias depois de a Lei Maria da Penha completar 20 anos. A legislação nasce justamente a partir da história de violência sofrida pela farmacêutica cearense, que sobrevive a duas tentativas de feminicídio em 1983, em Fortaleza, e fica paraplégica após levar um tiro nas costas enquanto dormia.
Marco Antônio é condenado por tentar matar a então esposa em dois julgamentos, em 1991 e 1996, mas só cumpre pena em regime fechado entre 2000 e 2002, após uma longa sequência de recursos e questionamentos processuais. O caso ganha dimensão internacional e leva à responsabilização do Brasil pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o que pressiona o Estado a criar uma lei específica para enfrentar a violência doméstica.

Hoje, a prisão por descumprimento de medida protetiva ocorre à luz dessa mesma lei, que tipifica o crime de desrespeito às ordens judiciais de urgência e prevê a prisão em situações de risco às vítimas. Para promotores e juízes que atuam na área, o episódio é simbólico: o agressor que deu origem à legislação volta a ser contido por ela, agora por tentar reabrir publicamente a narrativa do crime.
Impacto sobre vítimas, Justiça e mídia
No plano prático, a decisão reforça o poder das varas de violência doméstica de impor limites rigorosos a agressores mesmo muitos anos após o crime, quando ainda existem medidas protetivas em vigor. O recado é direto: medidas judiciais não são recomendações, mas ordens com força para levar à prisão quem as afronta.
Para Maria da Penha e as filhas, a medida representa uma tentativa de frear a revitimização, conceito usado para definir o sofrimento renovado causado quando vítimas têm sua história exposta sem controle. A Justiça deixa claro que não aceitará que o agressor se beneficie da visibilidade do caso para recontar o episódio segundo a própria versão.
O impacto chega também à mídia. A Record é obrigada a tirar do ar a entrevista e todo o material de divulgação, inclusive teasers e chamadas em redes sociais. A decisão não discute a liberdade de imprensa em abstrato, mas delimita que, em processos de violência doméstica com medidas protetivas ativas, o interesse jornalístico não pode se sobrepor à proteção das vítimas.
Especialistas em direito penal e em gênero avaliam que, diante da centralidade simbólica do caso de Maria da Penha, a resposta dura da Justiça tende a orientar outros processos. Varas especializadas podem se sentir mais respaldadas para impor multas altas, restringir aparições públicas de agressores e acionar forças de segurança de forma coordenada.
Próximos passos e novo capítulo na luta contra a violência doméstica
A defesa de Marco Antônio deve recorrer da prisão preventiva, alegando direito de manifestação e questionando o alcance das restrições impostas em 2024. Caberá aos tribunais superiores avaliar se houve abuso ou se a medida é proporcional diante do histórico do caso e da ordem judicial descumprida.
O Ministério Público do Ceará já indica que continuará monitorando o ambiente digital para verificar se a entrevista ou trechos dela seguem disponíveis em páginas oficiais ou reuploads. Em caso de descumprimento da ordem de retirada, a multa de R$ 100 mil por dia poderá recair sobre a emissora ou sobre responsáveis pela manutenção do conteúdo.
Para o movimento de mulheres, a cena de um agressor histórico sendo preso novamente por violar medidas ligadas à Lei Maria da Penha alimenta a mobilização por mais rigor na fiscalização de decisões judiciais. Entidades defendem que o episódio seja usado como exemplo em campanhas de conscientização: ordens de proteção existem para ser cumpridas e descumpri-las é crime autônomo.
Nos próximos meses, o caso tende a reacender debates sobre a regulação da exposição midiática de crimes de violência doméstica, especialmente quando há vítimas vivas e ainda em situação de vulnerabilidade. A forma como a Justiça conduzirá o processo contra Marco Antônio pode se tornar referência sobre até onde agressores e veículos de comunicação podem ir ao revisitar histórias que a lei tenta proteger do espetáculo.