A inflação perdeu força em julho. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do Brasil, subiu 0,07% no mês, segundo dados divulgados nesta terça-feira (11) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado representa uma desaceleração em relação a junho, quando o índice havia registrado alta de 0,16%.
No acumulado de 2026, o IPCA está em 3,44%. Já nos 12 meses encerrados em julho, a inflação acumulada é de 4,44%, abaixo dos 4,64% registrados até junho. Mas, afinal, o que esse número significa na prática?
Afinal, a inflação subiu ou não?
Sim, a inflação subiu em julho, mas subiu menos do que em junho. É aí que entra a palavra “desaceleração”. O IPCA mede a variação dos preços. Em julho, os preços, na média, aumentaram 0,07%. Portanto, houve inflação. O que caiu foi o ritmo desse aumento: em junho, os preços haviam subido 0,16%.
Um jeito simples de explicar:
- Junho: preços ↑ 0,16%
- Julho: preços ↑ 0,07%
O professor de economia, Pedro Hudson Cordeiro, da faculdade Ibmec de Belo Horizonte, explica que esse movimento é chamado de desinflação.
“A redução da inflação, ou desinflação, é quando você tem uma redução no ritmo da inflação. Então os preços continuam subindo, mas numa intensidade menor.”, conta
É como um carro que continua andando, mas diminui a velocidade. Na inflação, isso significa que os preços continuam aumentando, mas em um ritmo menor. Isso é diferente de deflação, que acontece quando há uma redução generalizada dos preços.
“Por outro lado, a deflação é quando a gente tem uma redução generalizada nos preços.”, explica o professor
O que é o IPCA?
O IPCA é um indicador que acompanha a variação dos preços de uma cesta de produtos e serviços consumidos pelas famílias brasileiras.
Entram nessa conta itens como alimentos, aluguel, energia elétrica, combustíveis, transporte, saúde, educação, roupas e despesas pessoais. Isso significa que o IPCA não mede quanto cada pessoa gastou naquele mês. Ele calcula uma média da variação dos preços de uma cesta de consumo.
Por isso, é possível que a inflação oficial seja de 0,07%, mas uma família sinta um aumento maior ou menor no orçamento, dependendo dos produtos que costuma comprar.
Mas o índice não é calculado simplesmente fazendo uma média de todos os preços. O IBGE considera quase 400 itens, divididos em nove grupos, como alimentação, habitação, transporte, saúde e educação.
A pesquisa considera famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos, em dez regiões metropolitanas do país.
Segundo o professor, cada produto tem um peso diferente no cálculo, de acordo com a importância que ele tem no orçamento das famílias.
“Ele é calculado pelo IBGE em 10 regiões metropolitanas, considerando pessoas que ganham entre 1 e 40 salários mínimos, uma faixa muito ampla de renda em 10 principais regiões metropolitanas do país, levando em conta quase 400 itens divididos em 9 setores diferentes.”, relata
Na prática, isso significa que uma variação no preço da energia elétrica, por exemplo, não tem necessariamente o mesmo peso que uma mudança no preço de um alimento. O impacto depende de quanto as famílias costumam gastar com cada item.
O professor explica que esses pesos são definidos a partir da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), também realizada pelo IBGE.
“Você leva em conta o peso que cada um desses bens tem no orçamento das famílias e, a partir daí, você chega nesse índice que é uma síntese desses gastos das famílias com esses bens nesses respectivos setores.”, conta
Para definir esses pesos, o IBGE usa justamente as informações sobre os hábitos de consumo das famílias.
“Isso é feito com base em outra pesquisa do IBGE, que é a POF, Pesquisa de Orçamento Familiar. (…) Você estima quanto que as famílias gastam com cada um dos bens e aí você pega o preço nessas regiões metropolitanas para essas famílias com determinada faixa de renda e, a partir disso, você calcula esse indicador síntese que é o IPCA.”, explica
É por isso que o IPCA representa uma média da variação dos preços e não necessariamente a inflação sentida individualmente por cada pessoa.
Uma família que gasta muito com alimentação, por exemplo, pode sentir mais uma alta ou queda dos alimentos. Já outra, que compromete uma parcela maior da renda com aluguel ou energia elétrica, pode perceber um impacto diferente.
Entenda o IPCA com uma conta simples
Imagine uma família que gasta R$ 1.000 por mês com um conjunto de produtos e serviços. Se todos esses preços variassem exatamente de acordo com o IPCA de julho, de 0,07%, a conta passaria para:
R$ 1.000 × 1,0007 = R$ 1.000,70. Ou seja: um aumento de apenas 70 centavos.
Mas essa é uma simplificação. Na vida real, alguns produtos ficaram mais caros, enquanto outros ficaram mais baratos. É justamente essa combinação, considerando os pesos de cada item no orçamento das famílias, que resulta no IPCA.
Segundo Pedro Hudson Cordeiro, o IPCA é importante justamente porque está diretamente relacionado ao poder de compra das famílias.
“É muito importante a gente estar atento ao valor do IPCA, porque ele reflete diretamente no poder de compra das famílias, na decisão das famílias de como elas vão alocar seus gastos. Porque, no final das contas, a gente está falando do poder de compra.”, ressalta
Para o consumidor, a principal mensagem é simples: os preços não ficaram mais baratos de forma geral. Eles continuaram subindo, mas em julho subiram em um ritmo menor. E essa diferença é importante porque, quando a inflação acelera, o poder de compra das famílias tende a ser pressionado.
“Se o IPCA está acelerando muito rápido, então a gente está falando de uma redução também considerável no poder de compra das famílias.”, explica Pedro Hudson
Alimentos ajudaram a segurar a inflação
Em julho, o grupo Alimentação e bebidas teve queda de 0,67%. Entre os alimentos consumidos em casa, a redução foi ainda maior: 1,14%. Alguns produtos tiveram quedas expressivas:
- Tomate: -29,09%
- Batata-inglesa: -19,59%
- Cenoura: -14,41%
- Café moído: -2,45%
Na prática, imagine uma compra em que o consumidor gastava R$ 10 com tomate. Com uma queda de 29,09%, o mesmo produto passaria a custar aproximadamente:
R$ 10 – R$ 2,91 = R$ 7,09. Ou seja, uma economia de cerca de R$ 2,91 nesse produto.
Já uma compra de R$ 20 em batatas, com queda de 19,59%, cairia para aproximadamente R$ 16,08. Mas nem todos os alimentos ficaram mais baratos. O leite longa vida subiu 2,47%, enquanto as frutas ficaram 1,20% mais caras.

O professor ressalta, porém, que nem toda a alimentação ficou mais barata.
“Por outro lado, alguns setores apresentaram queda, como o setor de alimentação, embora valha ressaltar que, dentro da alimentação, o custo da alimentação fora dos domicílios, em bares e restaurantes, teve uma alta considerável.”, detalha
A alimentação fora de casa subiu 0,55%. Os lanches ficaram 0,76% mais caros e as refeições tiveram alta de 0,42%.
Conta de luz foi na direção contrária
Se os alimentos ajudaram a segurar a inflação, a energia elétrica fez o movimento contrário. O grupo Habitação teve alta de 0,99% em julho. A energia elétrica residencial subiu 3,09% e, sozinha, respondeu por 0,13 ponto percentual do IPCA. Imagine uma conta de luz de R$ 150. Uma alta de 3,09% representaria:
R$ 150 × 3,09% = R$ 4,64
A conta passaria, nesse exemplo, para aproximadamente R$ 154,64. Além dos reajustes aplicados por algumas concessionárias, a conta continuou influenciada pela bandeira tarifária amarela, que acrescenta R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos.
Na avaliação do professor, habitação, saúde e transportes estiveram entre os principais responsáveis pelas pressões de alta.
“Fator fundamental, na parte de habitação, o preço da energia elétrica, que subiu em várias regiões e também o preço da conta de água e esgoto. Saúde também foi um setor que puxou bastante, em especial pelos reajustes nos planos de saúde, que sempre ocorrem nesse primeiro semestre do ano. E, por fim, o setor de transportes, puxado primordialmente pelo aumento considerável no preço das passagens aéreas.”, afirma
E os combustíveis?
No grupo Transportes, a alta foi de apenas 0,05%. As passagens aéreas subiram 11,67%, mas o resultado foi compensado, em parte, pela queda dos combustíveis. Em julho:
- Etanol: -2,26%
- Gasolina: -1,37%
- Diesel: -1,22%
- Gás veicular: -0,08%
Aqui também dá para entender o efeito no bolso. Se um motorista gastava R$ 200 para abastecer o carro, uma queda de 2,26% no preço do etanol significaria, numa simulação simples, uma economia de aproximadamente:
R$ 200 × 2,26% = R$ 4,52. O abastecimento equivalente cairia para cerca de R$ 195,48.

O que isso significa para os próximos meses?
O resultado de julho veio próximo das expectativas do mercado e, segundo especialistas, não deve alterar de forma significativa a trajetória dos juros neste momento.
A inflação é um dos principais indicadores observados pelo Banco Central para definir a política monetária.
Quando os preços sobem de forma persistente, o Banco Central pode manter juros elevados ou aumentá-los para tentar controlar a demanda e reduzir as pressões inflacionárias.
Por outro lado, uma inflação mais comportada pode abrir espaço, dependendo do cenário econômico, para cortes na taxa básica de juros. Atualmente, a Selic está em 14% ao ano.
Na prática: inflação de 4,44% em 12 meses
Outro número importante é o acumulado em 12 meses: 4,44%. Para entender o efeito disso, imagine um produto que custava R$ 100 há um ano e tivesse subido exatamente de acordo com essa inflação acumulada. A conta seria:
R$ 100 × 1,0444 = R$ 104,44. Ou seja, o produto teria ficado R$ 4,44 mais caro.
Mas, novamente, isso é uma simulação. Produtos diferentes têm aumentos diferentes. É por isso que uma pessoa pode chegar ao supermercado e perceber que seus gastos aumentaram muito mais, ou muito menos, do que os 4,44% registrados pelo IPCA em 12 meses.