PF cumpre mandados contra Nelson Wilians por fraude de R$4,3 bi

Operação da PF mira advogado Nelson Wilians em esquema bilionário de fraudes envolvendo INSS e ICMS.
Redação NC News
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A Polícia Federal cumpre nesta quinta-feira (13) nova rodada de buscas contra o advogado Nelson Wilians e o escritório Nelson Wilians Advogados Associados, suspeitos de envolvimento em esquema bilionário ligado a fraudes em aposentadorias e pensões do INSS e a créditos tributários irregulares.

A ofensiva ocorre em São Paulo, atinge a mansão do advogado e endereços ligados ao escritório e aprofunda uma investigação que já soma R$ 4,3 bilhões em movimentações financeiras sob escrutínio de autoridades federais e estaduais.

Operação em São Paulo e origem da investigação

Os mandados desta quinta-feira são desdobramento de apurações que ganham corpo desde março, quando o relatório final da CPMI do INSS recomendou o indiciamento de Nelson Wilians e de sua esposa, Anne Wilians, por organização criminosa e lavagem de dinheiro. O documento apontou movimentações atípicas envolvendo o escritório e a relação próxima com o empresário Maurício Camisotti.

Camisotti é apontado como um dos principais operadores de um esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões. Segundo relatórios de inteligência financeira citados no relatório parlamentar, operações que somam R$ 4,3 bilhões passam pelo Nelson Wilians Advogados Associados, com R$ 28 milhões em transações diretas com empresas e pessoas ligadas ao empresário.

As suspeitas vão além da área previdenciária. Em paralelo, o Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (CIRA-SP) mira o escritório em uma frente tributária, a Operação Distrato, voltada a escritórios de advocacia e consultorias que teriam oferecido créditos irregulares de ICMS a empresas, sob o rótulo de planejamento tributário.

Créditos de ICMS, honorários e possível fraude

Na investigação paulista, a Secretaria da Fazenda, o Ministério Público e a Procuradoria-Geral do Estado apontam um modelo de negócio em que escritórios como o de Wilians apresentariam às empresas créditos de ICMS sem aval do Fisco. Esses créditos seriam vinculados a empresas inaptas, massas falidas ou operações sem lastro econômico, o que, na prática, configura fraude fiscal.

Nesse arranjo, os intermediários ficariam com honorários que poderiam chegar a 70% do valor negociado, deixando ao contribuinte uma economia tributária aparente e ao Estado um rombo bilionário. Levantamento da Fazenda paulista já identificou ao menos 752 empresas que teriam utilizado créditos irregulares, em prejuízo estimado em mais de R$ 3,8 bilhões aos cofres públicos.

No caso específico do escritório de Nelson Wilians, os investigadores ligam a oferta desses créditos à estrutura que também aparece conectada ao esquema de descontos indevidos em benefícios previdenciários. A suspeita é que o mesmo ambiente societário e financeiro tenha servido para movimentar e lavar recursos oriundos de diferentes frentes ilícitas.

Perfil do advogado e reação à ofensiva policial

Nelson Wilians constrói, nas últimas décadas, a imagem de advogado de negócios de alcance nacional, com atuação em grandes causas empresariais e presença em disputas de alta visibilidade, como brigas sucessórias. Nas redes sociais, alimenta um perfil de ostentação, com registros em mansões, jatos e viagens internacionais, o que amplia a curiosidade em torno de sua fortuna.

O escritório, nascido de uma pequena banca no interior de São Paulo, se expande para outras capitais e, mais tarde, para o exterior, com representação em países como Portugal, Índia e China. Essa capilaridade vira agora um dos pontos de interesse das autoridades responsáveis por rastrear o caminho do dinheiro apontado como suspeito.

Wilians nega qualquer irregularidade. “Minha atuação sempre ocorreu dentro dos limites da advocacia”, afirma o advogado, por meio de nota. Ele sustenta que os serviços prestados pelo escritório seguem a legislação e que a banca oferece consultoria tributária e previdenciária legítima. Até o momento, nem ele nem o escritório acumulam condenações criminais nas investigações em curso.

Impacto sobre aposentados, mercado jurídico e combate à fraude

A suspeita de participação de um grande escritório de advocacia em esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS acende um alerta para aposentados e pensionistas. Se confirmadas, as fraudes significam que milhares de beneficiários podem ter sofrido cortes ilegais em seus pagamentos mensais, com prejuízo direto à renda de famílias de baixa renda.

No campo jurídico, o caso atinge em cheio a área de planejamento tributário, um nicho em que a fronteira entre operações agressivas e fraudes formais já provoca debates acalorados. A exposição do Nelson Wilians Advogados Associados em investigações que envolvem R$ 4,3 bilhões reforça a pressão por mais transparência, compliance rígido e responsabilização objetiva de sócios que assinam estratégias tributárias de alto risco.

Para o poder público, a movimentação desta quinta-feira representa avanço em uma agenda de recuperação de ativos e enfrentamento a esquemas complexos, que combinam benefícios previdenciários, créditos tributários e estruturas societárias sofisticadas. A atuação conjunta de Polícia Federal, CIRA-SP, Ministério Público e Fazenda dá lastro político e institucional para novas ações.

Próximos passos e incertezas no horizonte

As buscas de hoje devem alimentar os inquéritos com novos documentos, registros contábeis e dados eletrônicos de comunicação. O material será cruzado com os relatórios de inteligência financeira já disponíveis e com informações coletadas na primeira leva de mandados, em 15 de julho, quando endereços ligados ao escritório foram vasculhados.

A partir desse conjunto de provas, investigadores decidem se pedem o indiciamento formal de Wilians, de sua esposa e de outros personagens citados nas apurações, como Maurício Camisotti. Também avaliam pedidos de bloqueio adicional de bens, ações civis de ressarcimento ao erário e eventuais denúncias criminais por organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema previdenciário e tributário.

No meio jurídico, a grande incógnita é o tamanho do abalo à credibilidade de Nelson Wilians e de sua banca, um dos maiores escritórios do país. O desfecho das investigações definirá se o episódio ficará marcado como ponto de inflexão no combate a esquemas de fraude sofisticados envolvendo a advocacia ou como mais um caso em que suspeitas bilionárias não se traduzem em responsabilização efetiva.

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