A decisão do Metrô de São Paulo de tirar três estações da futura Linha 20-Rosa da Avenida Brigadeiro Faria Lima e deslocar o traçado para o miolo dos Jardins e de Pinheiros abre um novo front na disputa por mobilidade na capital. De um lado, a estatal alega economia de R$ 1,2 bilhão e dois anos a menos de obra. De outro, moradores organizados na AME Jardins denunciam que o eixo com uma das maiores concentrações de empregos da cidade ficará sem atendimento direto.
A polêmica, que chega ao Ministério Público de São Paulo e mobiliza associações de bairro, expõe a dificuldade de conciliar custo, demanda, impacto urbano e operação de uma rede que já funciona no limite em vários trechos.
Economia, risco geológico e rede no limite
A Linha 20-Rosa está planejada para ligar Santo André e São Bernardo do Campo, no ABC, à região de Santa Marina, na zona noroeste da capital. No desenho oficial, são 24 estações, ao custo estimado de R$ 24,9 bilhões. O traçado preliminar, que previa 25 paradas e cinco estações nas imediações da Faria Lima, foi orçado em R$ 26,1 bilhões.
Na prática, a escolha significa uma economia de 3% no investimento total, ou R$ 1,2 bilhão, e uma pequena redução na demanda diária estimada: de 1,291 milhão de passageiros por dia útil para 1,266 milhão. O gasto médio por usuário projetado cai de R$ 20.220 para R$ 19.660, segundo cálculos da companhia.
Em nota, o Metrô afirma que “a definição do traçado decorreu de estudos técnicos multidisciplinares. Foram considerados aspectos como demanda de passageiros, integração com a rede, viabilidade construtiva, riscos geológicos e de engenharia, impactos urbanos e ambientais, operação do sistema, desapropriações e custos de implantação e operação”. A empresa também sustenta que “estudos técnicos utilizados na tomada de decisão foram disponibilizados em diversos meios, inclusive mediante consulta presencial e posterior fornecimento de cópias para garantir transparência em todas as etapas do processo”.
O gerente de Planejamento do Metrô, Luiz Antônio Cortez Ferreira, reforça que a linha não pode ser analisada isoladamente. “Não podemos esquecer que uma linha está sempre inserida numa rede. Ela não é isolada no mundo”, diz. O ponto sensível é a Linha 4-Amarela, que opera pressionada em horários de pico, sobretudo entre Butantã e Pinheiros.
O plano inicial era concentrar baldeações na Faria Lima, onde já existe uma estação da Linha 4 e para onde convergem outros projetos, como a futura Linha 22-Marrom. A análise de demanda, porém, levou a estatal a priorizar a integração da 22 com a 4 na Estação Faria Lima e deslocar a conexão da 20 para a Estação Fradique Coutinho, também na Linha 4.
AME Jardins reage e aciona Ministério Público
A mudança acende o alerta na região dos Jardins e em parte de Pinheiros. A AME Jardins, que reúne moradores de alto padrão na área, contratou o ex-presidente do Metrô Sergio Avelleda para elaborar um estudo em defesa do traçado pela Faria Lima. O levantamento argumenta que cinco estações ao longo da avenida garantiriam maior demanda, melhor aproveitamento da infraestrutura já existente e retorno financeiro mais elevado.
O presidente da entidade, Frederico Marques Affonso Ferreira, resume o incômodo com uma analogia. “Alterar esse traçado é como fazer um metrô para atender à Avenida Paulista, mas instalar as estações na Alameda Franca”, afirma. A associação sustenta que o eixo Faria Lima concentra um dos maiores polos de emprego da cidade e que o novo percurso afasta o metrô de quem mais precisa dele no dia a dia.
Inconformada, a AME levou o caso ao Ministério Público, que pediu esclarecimentos ao Metrô. A companhia respondeu enviando os estudos de demanda, engenharia e operação e destacando que não há inquérito aberto. A estatal insiste que o projeto cumpre toda a legislação e que já obteve licenças ambientais e autorizações dos órgãos de patrimônio em nível municipal, estadual e federal.
Os moradores também apontam impactos no perímetro tombado dos Jardins, área com forte restrição à verticalização. A preocupação é que o traçado atual provoque desapropriações e pressione o tecido urbano, sem trazer o benefício de estações na Faria Lima. O Metrô reage dizendo que tem aval de conselhos de patrimônio e que, em uma metrópole densa, não existe expansão de rede sem obras sob bairros residenciais consolidados.
Fradique sobrecarregada ou Faria Lima estrangulada?
Outro ponto de atrito é a escolha da Estação Fradique Coutinho como ponto de baldeação entre a Linha 4-Amarela e a futura Linha 20-Rosa. No estudo encomendado pela AME, a estação é classificada como incapaz de receber o volume extra de passageiros. O documento aponta ausência de mezanino e áreas de distribuição adequadas e prevê “grandes obras de adaptação”, com custos elevados e transtornos prolongados para os usuários atuais.
O Metrô prevê justamente essas intervenções e já inclui no orçamento obras para ampliar acessos e construir novas estruturas de apoio na Fradique Coutinho. A alegação técnica da empresa é que concentrar três linhas na Estação Faria Lima estrangularia o sistema. A unidade, projetada para um cenário menos ambicioso, já precisará de ajustes para receber a Linha 22-Marrom, e não teria capacidade para absorver também a Linha 20.
Luiz Antônio Cortez diz que a escolha da 22 como parceira da 4 na Faria Lima leva em conta a realidade do transporte por ônibus vindo da Raposo Tavares. Segundo ele, metade dos passageiros desembarca hoje no Largo da Batata, o que tornaria natural concentrar ali a futura integração. A Linha 20, que cruza ABC, Jardins, Pinheiros e zona noroeste, teria perfil mais distribuído e dependeria menos dessa baldeação.
O gerente também lembra que o contexto imobiliário na Faria Lima mudou. “Se hoje fôssemos voltar para a Faria Lima, os terrenos de 4 anos atrás nem existem mais: a frente de quadra do Largo da Batata virou um empreendimento de altíssimo padrão, que inviabilizaria a obra”, afirma. Leis de uso do solo que permitem prédios altos apenas na fachada da avenida, mantendo o miolo estritamente residencial, teriam reduzido a atratividade de parte do eixo para uma linha de alta capacidade.
Impacto para usuários e próximos passos do projeto
Na prática, o novo traçado promete metrô mais perto de quem mora nos Jardins e em áreas residenciais de Pinheiros, mas deixa de atender diretamente edifícios corporativos e centros comerciais na Faria Lima entre a Rebouças e a Rua Tucumã, região de shoppings e clubes tradicionais. Empresas instaladas nesse trecho continuarão dependentes de ônibus, carro e caminhadas longas até estações mais distantes.
Moradores dos Jardins, por sua vez, se dividem. Parte teme desapropriações e obras profundas em áreas tombadas. Outra parcela enxerga a chegada do metrô como forma de reduzir carros nas ruas estreitas do bairro e oferecer alternativa de transporte mais estável que táxi, aplicativo e carro próprio. “Queremos o metrô na área porque é uma alternativa mais sustentável, contribui para retirar carros das vias e atende quem precisa do transporte público”, diz o presidente da AME, ao defender novo debate sobre o trajeto.
O projeto básico da Linha 20-Rosa segue em elaboração, com previsão de conclusão até o primeiro trimestre do próximo ano. A companhia trabalha com licitação e contratação das obras em 2027, início da construção em 2028 e entrega do ramal em 2033. O cronograma, porém, depende de financiamento, acordos com o setor privado e da manutenção do traçado atual.
Uma eventual vitória da tese da AME Jardins mudaria o jogo. O Metrô alerta que qualquer retorno ao percurso preliminar exigiria repetir estudos ambientais, audiências públicas e pedidos de licença a todos os órgãos de patrimônio, o que atrasaria em anos a chegada do trem ao ABC, aos Jardins, a Pinheiros e à zona noroeste.
Enquanto o Ministério Público avalia as explicações e a sociedade civil pressiona por mais diálogo, a disputa em torno da Linha 20-Rosa antecipa conflitos que devem se multiplicar na expansão do sistema sobre os bairros mais valorizados da cidade. A discussão sobre onde abrir estações e quem ganha ou perde com cada decisão tende a acompanhar todo o ciclo de projetos de mobilidade de alta capacidade em São Paulo.
Por que o Metrô descartou estações na Faria Lima na Linha 20-Rosa?
O Metrô de São Paulo descartou três estações da Linha 20-Rosa na Faria Lima para reduzir o custo em R$ 1,2 bilhão, encurtar o prazo de construção em dois anos, diminuir riscos geológicos e operacionais e evitar sobrecarga na Linha 4-Amarela, concentrando a integração da futura Linha 22-Marrom na Estação Faria Lima e deslocando a baldeação da 20 para Fradique Coutinho.
Quais são as estações previstas na Linha 20-Rosa nos Jardins?
A Linha 20-Rosa prevê estações em pontos centrais dos Jardins, em vez de concentrar paradas na Avenida Faria Lima, mas a lista detalhada de nomes e localizações das paradas ainda integra o projeto básico em elaboração e não é divulgada oficialmente, podendo sofrer ajustes até sua conclusão no primeiro trimestre do próximo ano.
Como está a situação atual do Metrô de São Paulo?
O Metrô de São Paulo opera hoje com a rede em funcionamento regular, mas com linhas como a 4-Amarela e trechos das linhas 1-Azul e 3-Vermelha próximas do limite de capacidade nos horários de pico, o que leva a estudos de reconfiguração de novos ramais, como a Linha 20-Rosa, para distribuir melhor a demanda e evitar colapsos operacionais.
Haverá greve do Metrô ou CPTM nos próximos dias?
Não há convocação confirmada de greve de Metrô ou CPTM para os próximos dias em São Paulo, e a operação segue programação normal, mas categorias do transporte costumam discutir acordos salariais e condições de trabalho ao longo do ano, o que pode resultar em assembleias e eventuais paralisações, exigindo atenção a comunicados oficiais de sindicatos e empresas.