Braskem recorre à recuperação extrajudicial para reestruturar dívida de US$ 10,9 bilhões

Petroquímica busca reorganizar os pagamentos com credores e ganha uma nova janela de proteção para concluir as negociações; medida ocorre após meses de pressão sobre o caixa e o endividamento da companhia
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A Braskem entrou nesta segunda-feira (24) em uma nova etapa para tentar resolver sua crise financeira. O conselho de administração aprovou o ajuizamento do pedido de recuperação extrajudicial, mecanismo que permitirá à petroquímica negociar a reestruturação de aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras, valor que passa de R$ 56 bilhões na conversão considerada nas informações divulgadas nesta segunda.

A decisão acontece justamente no dia em que terminava uma proteção judicial de 60 dias obtida anteriormente pela companhia. Com o novo procedimento, a Braskem busca criar um ambiente jurídico mais estável para negociar com os credores e definir as condições para o pagamento da dívida.

Por que a Braskem chegou a esse ponto?

A companhia vem enfrentando uma combinação de problemas que pressionou sua estrutura financeira nos últimos anos.

Um dos principais fatores é o cenário desfavorável do setor petroquímico, marcado por margens apertadas e queda nos preços de produtos. Ao mesmo tempo, a empresa carrega passivos relacionados ao desastre provocado pelo afundamento do solo em Maceió, associado à exploração de sal-gema.

A situação também se agravou com os problemas financeiros da operação mexicana Braskem Idesa, que entrou com pedido de proteção pelo Chapter 11 nos Estados Unidos para reorganizar suas próprias dívidas.

Em paralelo, a Braskem enfrentou forte pressão de credores depois de atrasar pagamentos de juros. A agência Fitch chegou a classificar a companhia em inadimplência restrita (RD), sinalizando o aumento do risco financeiro.

Unidade industrial da Braskem em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.

 

O que é recuperação extrajudicial?

Diferentemente da recuperação judicial tradicional, a recuperação extrajudicial permite que a empresa negocie diretamente com determinados grupos de credores para reorganizar suas obrigações, levando posteriormente o acordo à Justiça para homologação.

No caso da Braskem, o objetivo é alterar condições de pagamento da dívida, incluindo prazos e outras condições financeiras, sem interromper normalmente as operações da companhia.

A medida não significa que a empresa esteja encerrando suas atividades. O foco do processo é a reestruturação financeira.

 

Agora começa uma negociação ainda mais importante

A Braskem terá uma nova janela de aproximadamente 90 dias de proteção para avançar na negociação e buscar a aprovação do plano de reestruturação.

A aprovação definitiva dependerá do apoio necessário entre os grupos de credores envolvidos. O formato de divisão dessas classes será importante porque os credores não possuem o mesmo peso financeiro.

Uma parcela expressiva da dívida está concentrada nas mãos de investidores internacionais que compraram títulos da companhia. Cerca de US$ 7 bilhões estão com esses bondholders, grupo que já demonstrou resistência a uma proposta inicial da empresa.

É justamente aí que está um dos principais desafios da Braskem: não basta apresentar um plano; a companhia precisa convencer quem tem bilhões de dólares a receber de que a proposta é melhor do que as alternativas disponíveis.

 

A empresa ainda tem dinheiro em caixa?

A situação financeira é delicada, mas a Braskem não deixou de operar.

No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou lucro líquido de R$ 3,33 bilhões, revertendo um resultado negativo anterior. O número, porém, não elimina o problema estrutural provocado pelo alto endividamento.

A dívida líquida ajustada chegou a aproximadamente US$ 9,43 bilhões, enquanto a alavancagem financeira permanece elevada.

Isso significa que a discussão atual não é apenas sobre o resultado de um trimestre, mas sobre como reorganizar uma estrutura de dívida que se tornou pesada demais para a geração de caixa da companhia.

 

O que acontece agora?

Com o pedido de recuperação extrajudicial, a Braskem entra em uma fase decisiva de negociação.

Os credores afetados serão comunicados e terão prazo para apresentar eventuais contestações. Depois disso, a proposta precisará avançar para obter as aprovações necessárias e ser submetida à homologação judicial.

O objetivo da empresa é chegar a um acordo que permita alongar pagamentos, reorganizar compromissos financeiros e preservar a operação da petroquímica.

A grande questão agora é saber se a Braskem conseguirá construir esse consenso sem precisar recorrer a uma recuperação judicial mais ampla.

ENTENDA O CONTEXTO

A crise atual é resultado de uma combinação de fatores: endividamento elevado, dificuldades no mercado petroquímico, problemas financeiros da operação mexicana e os enormes passivos relacionados ao caso de Maceió.

A empresa tenta agora ganhar tempo e reorganizar suas obrigações antes que a pressão financeira comprometa ainda mais sua capacidade de operação.

O próximo capítulo será definido nas negociações com os credores — especialmente aqueles que concentram os maiores volumes da dívida.

Carregar Comentários