Duas crianças mortas após picadas de escorpião em cidades vizinhas do interior paulista colocam médicos no banco dos réus e escancaram falhas em atendimentos de emergência. Ao mesmo tempo, Goiás registra mais de 5 mil acidentes com o animal peçonhento neste ano, sem óbitos confirmados, e vira contraponto de como a resposta rápida pode salvar vidas.
Denúncia em Piracicaba e prontuário sob suspeita
Em Piracicaba, o Ministério Público de São Paulo leva à Justiça a médica que atendeu Jamily Vitória Duarte, de 5 anos, na UPA Vila Cristina. A Promotoria acusa a profissional de homicídio culposo, por negligência e imperícia, e de falsidade ideológica, por registrar no prontuário que teria prescrito o soro antiescorpiônico.
Jamily morre após ser picada por escorpião e levada à unidade. A família afirma que a menina espera tempo excessivo até receber o antídoto, considerado fundamental nas primeiras horas. As investigações criminais são concluídas com base em laudo do Instituto Médico Legal e depoimentos colhidos pela Polícia Civil.
A Promotoria recusa proposta de acordo de não persecução penal, mecanismo que poderia evitar o processo criminal. A Procuradoria-Geral de Justiça mantém a posição. O caso segue agora na 3ª Vara Criminal de Piracicaba, onde a médica responde pelos dois crimes.
Os parlamentares municipais já haviam colocado o episódio sob holofotes ao abrir uma CPI. A comissão recomenda perícia grafotécnica para investigar possível falsificação de assinatura no livro de retirada de medicamentos e checar se o soro estava disponível durante o atendimento da criança.
Enquanto a disputa judicial avança, a unidade de pronto atendimento muda de mãos. A prefeitura retoma a gestão direta da UPA Vila Cristina, antes administrada por uma organização social de saúde. Na esfera cível, a família de Jamily move ação para responsabilização e indenização, apoiada na tese de erro médico.
O Ministério Público deixa claro que sua atuação se limita à esfera penal. “A responsabilidade civil foge da alçada da Promotoria de Justiça Criminal e poderá eventualmente ser buscada por familiares da vítima”, registra o órgão ao encaminhar a denúncia.
Conchal: indiciamento, vaga zero ignorada e pedido de afastamento
Em Conchal, a morte de Bernardo de Lima Mendes, de 3 anos, segue roteiro semelhante de omissões e atrasos, mas com outra assinatura no rodapé. O delegado Luís Henrique Lima Pereira indiciou o médico Augusto Fortunato de Godoi por homicídio culposo, ao apontar negligência no atendimento do menino.
Bernardo é picado por escorpião e só recebe o soro antiescorpiônico mais de 4 horas depois, já em um hospital de referência. Para o delegado, o tempo de espera é incompatível com os protocolos de urgência para crianças pequenas, consideradas de alto risco nesses casos.
No inquérito, Pereira conclui que se tratava de “vaga zero”, expressão usada quando a gravidade do quadro exige transferência imediata, sem barreiras burocráticas. “Era um caso de vaga zero, de acionar o Samu e encaminhar essa criança para lá. O médico adotou protocolos que acabou por burocratizar a transferência da criança e o quadro se tornou irreversível”, afirma.
O relatório descreve que o médico não fala diretamente com o hospital de referência nem com o Samu, limitando-se a acionar a regulação. “O médico só ligou na regulação, não ligou no hospital e também não ligou diretamente para o Samu para que providenciasse esse encaminhamento imediato da criança”, critica o delegado.
A Polícia Civil reúne protocolos da Vigilância Epidemiológica e do Centro de Informação e Assistência Toxicológica para demonstrar que pacientes com menos de 10 anos picados por escorpião devem ser encaminhados, sem demora, a um serviço com soro disponível. Em Conchal, a referência é a Santa Casa de Araras, para onde Bernardo chega tarde demais.
O delegado pede à Justiça uma medida cautelar para afastar Augusto Godoi de plantões e serviços de urgência e emergência até decisão final. A solicitação depende ainda de manifestação do Ministério Público e análise de um juiz. A defesa reage com segurança. “Nesses momento, declinamos a tranquilidade por parte do meu cliente, uma vez que possui plena certeza de sua inocência”, afirma o advogado Diego Emanuel da Costa.
O pai de Bernardo acompanha a investigação de perto e resume o sentimento após o indiciamento. “Sentimento de alívio”, diz Paulo Henrique Mendes Dias, ao ver o erro médico reconhecido pela polícia e transformado em peça de acusação. Ele espera agora por responsabilização exemplar.
Goiás vira laboratório de alerta e prevenção
Enquanto São Paulo tenta entender por que crianças morrem em filas e corredores, Goiás contabiliza números altos, mas com desfecho diferente. A Secretaria de Estado da Saúde registra 5.094 acidentes com escorpiões entre janeiro e julho deste ano, quase metade dos 10.258 casos anotados no mesmo período do ano passado, o que representa queda de cerca de 50%.
Goiânia lidera o ranking, com 426 ocorrências, seguida por Formosa, com 267, e Itumbiara, com 227. Mesmo assim, o governo estadual não confirma nenhuma morte por picada de escorpião nesses sete meses, dado que reforça a importância de estratégias integradas de prevenção e atendimento rápido.
Escorpiões-amarelos e marrons são os mais comuns no estado. Eles se multiplicam em terrenos com entulho, frestas em muros e pisos, e em ambientes ricos em baratas, principal fonte de alimento. As equipes orientam a população a manter quintais limpos, vedar ralos, usar luvas ao mexer em lixo ou materiais de construção e evitar o acúmulo de objetos encostados em paredes.
Em Goiânia, o poder público testa soluções digitais. Moradores podem enviar fotos e localização de escorpiões por WhatsApp para identificação e possível vistoria no imóvel. O serviço busca agir antes da picada, mapeando focos e orientando a retirada segura dos animais.
A recomendação em caso de acidente é direta: lavar o local com água e sabão, não fazer torniquete, não usar remédios caseiros, gelo excessivo ou cortes na pele, e procurar imediatamente um serviço de saúde. A avaliação médica define a necessidade de soro e observação, inclusive quando a dor parece suportável.
Responsabilidade médica e confiança em xeque
Os dois processos criminais em cidades paulistas sinalizam uma mudança de temperatura no debate sobre erro médico em emergências. Profissionais de saúde passam a enfrentar maior escrutínio penal quando falham em seguir protocolos já consolidados para animais peçonhentos, sobretudo em pacientes frágeis, como crianças pequenas.
As famílias ganham um canal claro para cobrar justiça, mas também convivem com a lentidão dos ritos judiciais. Em Piracicaba, a discussão se desloca para a validade de registros de prontuário e a linha tênue entre falha humana, sobrecarga do sistema e falsificação documental. Em Conchal, o foco está na demora da transferência e na recusa em acionar a vaga zero.
Na outra ponta, gestores públicos são pressionados a revisar fluxos de atendimento, garantir estoque de soro antiescorpiônico, capacitar equipes e desburocratizar o acionamento de hospitais de referência. Pequenos municípios, que dependem de unidades maiores para casos graves, entram no mapa das prioridades.
Os próximos meses tendem a combinar disputas técnicas em tribunais com medidas administrativas em UPAs e prontos-socorros pelo país. A forma como Justiça, Ministério Público e conselhos profissionais tratam os casos de Jamily e Bernardo deve influenciar a conduta de médicos em plantões, a formulação de protocolos estaduais e a confiança da população em apertar a campainha da urgência sem medo de chegar tarde demais.
O que aconteceu com a criança picada por escorpião em SP?
Jamily Vitória Duarte, de 5 anos, morreu após ser picada por um escorpião em Piracicaba e levada à UPA Vila Cristina, onde a família relata demora para receber o soro antiescorpiônico; a médica responsável pelo atendimento hoje responde na Justiça por homicídio culposo e falsidade ideológica pelo registro feito no prontuário.
Quais foram os erros médicos apontados na morte do menino picado por escorpião?
Bernardo de Lima Mendes, de 3 anos, é atendido em Conchal após picada de escorpião, mas só recebe soro antiescorpiônico mais de 4 horas depois; o delegado conclui que o médico não seguiu protocolos de vaga zero, não aciona diretamente Samu nem hospital de referência e burocratiza a transferência, o que embasa o indiciamento por homicídio culposo.
Qual o protocolo correto para atendimento após picada de escorpião?
Picadas de escorpião exigem atendimento médico imediato, sobretudo em crianças menores de 10 anos, que devem ser encaminhadas rapidamente a hospital de referência com soro antiescorpiônico; o protocolo inclui avaliação clínica, controle da dor, observação e, nos casos graves, administração de soro, sem torniquetes, cortes ou remédios caseiros antes da chegada ao serviço.
Por que Goiânia lidera casos de picadas de escorpião em Goiás?
Goiânia soma 426 acidentes com escorpiões entre janeiro e julho deste ano, liderando o estado porque concentra grande população urbana, muitos terrenos com entulhos, frestas em construções e abundância de baratas, condições ideais para escorpiões-amarelos e marrons, embora não haja mortes confirmadas no período graças ao atendimento mais estruturado.
Quais são os sintomas que indicam gravidade após picada de escorpião?
Picadas de escorpião tornam-se graves quando, além da dor local intensa, surgem sintomas como vômitos repetidos, suor frio, agitação ou sonolência extrema, batimentos cardíacos acelerados, dificuldade para respirar e queda de pressão; sinais assim, principalmente em crianças pequenas, exigem socorro imediato em hospital com soro antiescorpiônico disponível.