A região do Himalaia enfrenta um novo risco de desastre apenas um dia depois da enchente devastadora que deixou centenas de mortos e desaparecidos na fronteira entre Nepal e Tibete. Autoridades chinesas emitiram nesta quinta-feira (27) um alerta de alto risco de rompimento de uma barragem natural formada por terra, pedras e outros detritos acumulados após deslizamentos.
A preocupação está concentrada em um lago que se formou perto do encontro do rio Chhochen Khola, no Nepal, com o Purepu Tsangpo, que segue em direção à China. O reservatório já acumulava cerca de 2 milhões de metros cúbicos de água na manhã desta quinta e pode receber outros 3 milhões de metros cúbicos nos próximos três dias, devido às chuvas previstas para a região.
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Caso a barreira natural não suporte a pressão e se rompa, uma grande quantidade de água pode descer rapidamente pelos rios, provocando novas inundações em áreas que ainda tentam se recuperar da tragédia de quarta-feira (26).
Como surgiu a barragem que preocupa as autoridades?
Não se trata de uma barragem construída pelo homem.
O que se formou na região é chamado de lago de barreira. O fenômeno acontece quando pedras, terra, lama e outros materiais bloqueiam o curso normal de um rio, funcionando como uma espécie de represa natural.
A água continua chegando, mas encontra dificuldade para seguir seu caminho. Com isso, começa a se acumular atrás da barreira.
O problema é que esse tipo de bloqueio pode ser instável.
Se o volume de água aumentar demais ou novos deslizamentos atingirem o local, a barreira pode ceder. Nesse cenário, a água acumulada seria liberada rapidamente e poderia avançar com grande força pelas áreas localizadas rio abaixo.
Imagens feitas por drones mostram o lago crescendo na área afetada pelos deslizamentos. Segundo informações divulgadas pelas autoridades chinesas, a água já começou a transbordar em alguns pontos.
Chuvas podem adicionar 3 milhões de metros cúbicos de água
A previsão do tempo é um dos principais motivos para o alerta.
Além dos aproximadamente 2 milhões de metros cúbicos já acumulados, outros 3 milhões de metros cúbicos de água podem chegar ao lago nos próximos três dias.
Para se ter uma dimensão, esses 3 milhões de metros cúbicos correspondem a aproximadamente 1.200 piscinas olímpicas.
Quanto maior o volume represado, maior pode ser a pressão exercida sobre a barreira formada pelos detritos.
As autoridades também acompanham a possibilidade de novos deslizamentos e fluxos de lama, já que o terreno permanece instável.

Porto na fronteira pode ser novamente atingido
Entre as áreas ameaçadas está o Porto de Gyirong, importante passagem entre China e Nepal.
O local já foi severamente atingido pela tragédia anterior.
Um eventual rompimento da barreira poderia provocar novas inundações e ampliar os danos na região, além de ameaçar as equipes de emergência que trabalham nas operações de busca e resgate.
A China enviou especialistas para o condado de Gyirong com a missão de acompanhar o lago e ajudar na resposta à emergência.
Equipes de resgate também estão ameaçadas
O novo alerta complica ainda mais uma operação que já enfrenta enormes dificuldades.
Centenas de pessoas morreram e muitas outras continuam desaparecidas depois da enchente de quarta-feira. Equipes trabalham em áreas cobertas por lama, pedras e destroços na tentativa de localizar sobreviventes.
Agora, parte desses socorristas também precisa se proteger.
No Nepal, equipes começaram a se deslocar para terrenos mais elevados depois do alerta sobre a possibilidade de novas inundações.
Moradores das áreas mais baixas, passageiros e trabalhadores envolvidos nas buscas também foram orientados a permanecer longe das margens dos rios e de outros pontos considerados perigosos.
Encostas também podem voltar a desabar
O possível rompimento da barreira não é a única preocupação.
O condado de Gyirong continua enfrentando risco de deslizamentos de terra, fluxos de lama e enchentes repentinas.
As chuvas previstas podem deixar o solo ainda mais instável.
Integrantes das forças chinesas que participam da operação chegaram a alertar que encostas próximas às estradas podem desabar, principalmente em trechos cercados por penhascos.
Esse cenário dificulta o acesso das equipes às áreas atingidas e aumenta o risco para quem participa dos trabalhos de resgate.
Tragédia começou com colapso de geleira
A emergência atual é consequência da tragédia que atingiu o Himalaia na quarta-feira (26).
Autoridades do Nepal e da China atribuíram a inundação ao colapso de uma geleira, que lançou uma enorme quantidade de gelo, pedras, lama e detritos nos sistemas fluviais da região.
A força do material provocou uma enchente repentina que avançou pelos vales e atingiu comunidades na região da fronteira.
O desastre deixou centenas de mortos e um grande número de desaparecidos. As buscas continuam nesta quinta-feira.
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Terremoto aumenta tensão, mas ocorreu longe da tragédia
Em meio à emergência, um terremoto de magnitude 5 também atingiu o Tibete nesta quinta-feira.
O tremor ocorreu a aproximadamente 10 quilômetros de profundidade, mas seu epicentro ficou a centenas de quilômetros das áreas atingidas pela enchente.
Até o momento, não há indicação de que o terremoto tenha provocado o desastre anterior ou esteja relacionado à formação do lago que agora preocupa as autoridades.
A sequência de acontecimentos, porém, aumenta a tensão em uma região que já enfrenta condições extremamente difíceis.
O que acontece agora?
A prioridade é acompanhar continuamente o nível da água e identificar qualquer sinal de instabilidade na barreira natural.
A China ativou medidas de resposta a enchentes no Tibete e enviou especialistas para Gyirong.
Do lado nepalês, autoridades também acompanham outro lago formado pelo bloqueio de um rio e alertaram moradores e equipes de emergência para que permaneçam longe das áreas de risco.
A previsão de novas chuvas mantém o cenário especialmente preocupante.
Caso o nível da água continue aumentando, as autoridades poderão ampliar as medidas preventivas para tentar reduzir o número de pessoas expostas a uma eventual nova inundação.
ENTENDA O CONTEXTO
A região da fronteira entre Nepal e Tibete foi devastada na quarta-feira (26) por uma enchente repentina associada ao colapso de uma geleira.
A enorme quantidade de gelo, pedras, lama e outros materiais desceu pelas montanhas, atingiu rios e avançou por comunidades, deixando centenas de mortos e desaparecidos.
Os detritos também bloquearam cursos d’água e criaram novos lagos.
Um deles agora preocupa especialmente as autoridades chinesas. O reservatório já acumulava cerca de 2 milhões de metros cúbicos de água nesta quinta-feira e pode receber mais 3 milhões nos próximos três dias.
Se a barreira natural formada por pedras, terra e lama ceder, a água pode ser liberada rapidamente e provocar uma nova inundação.
Enquanto as buscas pelas vítimas continuam, moradores e equipes de resgate são orientados a evitar áreas próximas aos rios, e especialistas acompanham o crescimento dos lagos e as chuvas previstas para os próximos dias.
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