Relatório sigiloso da Polícia Federal descreve mensagens em que o empresário Daniel Vorcaro pede convites para a filha do ministro Alexandre de Moraes e aciona aliados para interceder sobre reportagens em um veículo financeiro.
O documento integra o procedimento especial nº 2026.0098110–CGRC/DICOR/PF, produzido a partir da análise de um iPhone 17 Pro apreendido com Vorcaro na Operação Compliance Zero. A PF mapeia uma rede de influência que tenta, em tese, favorecer o ministro e seus familiares em eventos e na imprensa.
Mensagens ligam pedidos a filha de ministro e a imprensa
Em uma troca de mensagens destacada como Figura 206, na página 197 do relatório, a PF registra que “Daniel Vorcaro pede a Ana Matos que convites para filha de Alexandre de Moraes”. A interlocutora é identificada no documento como “Ana Matos Mkt”, usuária do terminal 5511943290909, descrita como responsável por comunicação e eventos para o empresário.
Outra conversa, reproduzida na Figura 207, página 198, mostra que “Daniel Vorcaro pede a Fabio Faria que verifica com ‘alexandre’ a respeito de notícia no Brazil Journal”. O relatório associa o número 556199910111 ao ex-ministro Fabio Faria e aponta que ele aparece como principal intermediador entre Vorcaro e “Alexandre” em diferentes passagens, nas páginas 17 a 23 e 171 a 176.
Os analistas da PF relacionam esses diálogos às seções que tratam de um evento em Londres e das interações de Vorcaro com o Brazil Journal. De acordo com o documento, as mensagens sugerem tentativas de garantir benefícios à família de Moraes, como o acesso privilegiado a eventos, e de influenciar a linha de cobertura de um veículo de imprensa.
Pedido anterior para alterar matéria sobre Tony Blair
O relatório também resgata um episódio anterior, datado de 26 de abril de 2024. Nas páginas 186 e 187, a PF registra que “Vorcaro já havia pedido a Geraldo (Brazil Journal) inclusão de informação de interesse de ‘Alexandre’ em matéria sobre reunião com Tony Blair”. O texto associa esse movimento à mesma estratégia de monitorar e tentar moldar notícias que citam o ministro.
Os investigadores destacam que, naquele momento, a articulação mirava uma reportagem relacionada a um encontro em Londres. O documento não descreve o teor exato da informação que Vorcaro queria incluir, mas enfatiza que o pedido era “de interesse de ‘Alexandre’”, expressão usada no próprio relatório.
Em trecho mais amplo, a PF afirma que essa sequência de episódios, distribuída ao longo de diferentes conversas, indica uma ação coordenada de Vorcaro para “controle de notícias” e para obter “vantagens para familiares do ministro Alexandre de Moraes”. A corporação ressalta, no entanto, que descreve dados extraídos do celular e que não realizou aprofundamento investigativo específico sobre ministros ou membros do Ministério Público.
Rede de influência sob escrutínio
O documento, entregue ao ministro André Mendonça em 27 de agosto de 2026, atende a uma ordem do Supremo para detalhar a “rede de influência e monitoramento” atribuída a Vorcaro. O aparelho analisado é um iPhone 17 Pro, série LTPF3F27YR, IMEI A 358829560150138 e IMEI B 358829560502072, apreendido em cumprimento de mandado de prisão e busca pessoal.
A PF usa ferramentas forenses para extrair mensagens de aplicativos e notas gravadas no dispositivo. Em diferentes trechos, os analistas interpretam menções a “Alexandre” como referência ao ministro Alexandre de Moraes, com base no contexto das conversas e em outros registros de contato. O relatório, porém, não certifica formalmente que todo número associado a esse nome pertence pessoalmente ao ministro.
As seções 5.7 e 5.8 do documento amarram as mensagens sobre convites para a filha de Moraes e as tratativas com o Brazil Journal ao capítulo que narra o evento em Londres. Os investigadores descrevem Fabio Faria como ponte frequente entre Vorcaro e “Alexandre” e apontam Ana Matos como peça operacional, encarregada de executar pedidos ligados a eventos e comunicação.
Impacto na imagem do Judiciário e da imprensa
A leitura da PF é que, em tese, a atuação de Vorcaro busca mesclar interesses empresariais com aproximação a autoridades do topo do Judiciário. As trocas envolvendo convites para a filha de um ministro e a tentativa de interferir em pauta jornalística alimentam dúvidas sobre a fronteira entre relações privadas e funções públicas.
No campo da comunicação, o episódio reforça a pressão permanente sobre redações que cobrem o eixo financeiro e político. A tentativa de incluir, em 26 de abril de 2024, um trecho de interesse de “Alexandre” em matéria sobre reunião com Tony Blair, somada ao pedido para checar uma “notícia no Brazil Journal” diretamente com o ministro, ilustra a busca por influência sobre conteúdos sensíveis.
No ambiente político-judiciário, as mensagens expostas podem afetar a percepção pública sobre a imparcialidade de quem julga casos de grande impacto. A PF frisa, porém, que o procedimento atual se limita a mapear contatos de Vorcaro e que não significa condenação de qualquer pessoa citada. Nenhum dos mencionados foi julgado nesse contexto, e a existência de investigação não comprova crime.
A reportagem busca contato com as defesas de Daniel Vorcaro, de Fabio Faria, de Ana Matos e com a assessoria do ministro Alexandre de Moraes para comentar os trechos do relatório. O espaço permanece aberto para manifestação de todos os envolvidos e para apresentação de versões e documentos que possam contestar ou esclarecer o material da PF.
Os próximos passos dependem das decisões do Supremo sobre a continuidade da Operação Compliance Zero e de eventuais desmembramentos para outras instâncias. O relatório sugere novas linhas de apuração sobre a rede de influência, mas eventuais acusações formais ainda exigem investigação complementar, contraditório e julgamento pelo Judiciário.
O que exatamente a PF atribui a Daniel Vorcaro nessas mensagens?
O relatório nº 3298613/2026 da PF atribui a Daniel Vorcaro, com base em dados do iPhone 17 Pro apreendido, pedidos de convites para a filha de Alexandre de Moraes, solicitações a Fabio Faria para consultar “Alexandre” sobre notícia no Brazil Journal e tentativa anterior de incluir informação favorável ao ministro em matéria sobre reunião com Tony Blair.
Essas mensagens significam que houve crime por parte de ministros ou jornalistas?
O relatório sigiloso da PF, juntado ao procedimento 2026.0098110–CGRC/DICOR/PF, não afirma que ministros, jornalistas ou outros citados cometeram crime; descreve apenas diálogos e interpretações preliminares, ressalta que não aprofundou investigações sobre autoridades com foro e destaca que qualquer eventual responsabilização depende de novas apurações e julgamento.
A investigação está em andamento e as suspeitas descritas são hipóteses da apuração. Nenhuma das pessoas citadas foi denunciada ou condenada, e todas têm direito à presunção de inocência. O espaço segue aberto para manifestação das defesas.