Delegado Da Cunha é demitido por Tarcísio: o que aconteceu hoje

Governador Tarcísio de Freitas afasta delegado por conduta irregular envolvendo prisão simulada.
Redação NC News
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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, demite nesta quinta-feira o delegado Carlos Alberto da Cunha da Polícia Civil. O parlamentar do União Brasil, conhecido como Delegado Da Cunha, perde o cargo após processo disciplinar que o acusa de abuso de autoridade e encenação de prisão para autopromoção nas redes sociais.

Encenação de prisão e vítima levada de volta ao cativeiro

O processo administrativo que leva à demissão de Da Cunha nasce de uma operação na Zona Leste de São Paulo, em 2020, quando uma vítima de sequestro é libertada e o responsável pelo cativeiro é preso. Depois de chegar atrasado à ação, o delegado decide reconstituir o flagrante, com câmeras ligadas, para gravar um vídeo.

Segundo a Corregedoria da Polícia Civil, Da Cunha manda que a vítima libertada e o sequestrador retornem ao cativeiro para encenar novamente o resgate, agora com a participação de policiais que não tinham atuado na operação original. Esses momentos são registrados em vídeo e divulgados nas redes sociais e em emissoras de TV.

“Da Cunha foi investigado pela Corregedoria da Polícia Civil, que o responsabilizou por abuso de autoridade e constrangimento ilegal durante uma operação da qual ele participou em 2020 em São Paulo”, afirma a Polícia Civil. A acusação sustenta que o delegado usa viaturas, armas e estrutura do Estado para construir uma narrativa heroica em benefício próprio.

Em vídeo posterior, o delegado admite a encenação, mas tenta classificá-la como reconstituição. Defende-se dizendo que reproduções de crimes fazem parte da rotina policial. A Corregedoria discorda e sustenta que esse tipo de procedimento, quando necessário, cabe à perícia oficial e ocorre em outra fase da investigação, não no calor do flagrante.

Processo travado por quase quatro anos até decisão de Tarcísio

O caso de Da Cunha é enviado à Corregedoria da Polícia Civil, que abre processo administrativo disciplinar. A apuração conclui que o delegado comete falta grave, ao submeter vítima e preso a constrangimento ilegal e manipular o uso da força do Estado para fins de marketing pessoal.

O Conselho da Polícia Civil, formado por diretores da instituição, endossa a avaliação e recomenda a demissão. “A decisão de demitir o delegado foi tomada para o bem do serviço público”, registra o colegiado em seu parecer. O entendimento interno é que a permanência de Da Cunha na corporação compromete a credibilidade da polícia.

Pela legislação paulista, delegados só podem ser demitidos por ato do governador. O processo deixa a esfera estritamente policial e passa à análise da Assessoria Jurídica do Governo. “O processo ficou pelo menos um mês sob avaliação de Rodrigo Garcia antes de ser transferido para o sucessor no Palácio dos Bandeirantes”, informa a assessoria jurídica do governo estadual.

O dossiê atravessa a transição de governo, acumula pareceres e chega à mesa de Tarcísio de Freitas, que mantém o caso parado por quase quatro anos desde o início das investigações. Hoje, às vésperas de se completar o prazo de cinco anos previsto em lei para aplicação de sanções administrativas, o governador assina a demissão.

Delegado-influencer, mandato em Brasília e processos criminais

Embora afastado da rotina policial há anos, o alcance de Da Cunha nas redes e sua atuação como parlamentar tornam a decisão ruidosa. Delegado de carreira em São Paulo, ele constrói fama como “delegado influencer”, divulgando vídeos de operações e bastidores de investigações.

“Desde 2020, o delegado influencer posta vídeos de ações policiais para seus seguidores. Só no Youtube, são mais de 3,7 milhões de fãs”, aponta relatório interno da Polícia Civil. No Instagram, ele soma mais de 2 milhões de seguidores. As imagens da operação encenada na Zona Leste ajudam a impulsionar essa audiência.

No meio da crise disciplinar, Da Cunha tira licença não remunerada, entra na política e se elege deputado federal por São Paulo. Começa o mandato por um partido e hoje integra o União Brasil. Está oficialmente afastado da Polícia Civil, sem salário, em razão do cargo em Brasília, e já se coloca como candidato à reeleição nas eleições de 2026.

Enquanto avança o processo administrativo, o caso chega à Justiça comum. O Ministério Público denuncia o delegado por abuso de autoridade e constrangimento ilegal pela encenação do flagrante do cativeiro. A Justiça aceita a acusação e transforma Da Cunha em réu. “Ele ainda não foi julgado”, resume o Ministério Público sobre a ação penal.

O deputado responde ainda por violência doméstica, em processo em que é acusado de agredir e ameaçar matar a ex-companheira no litoral paulista. O caso tramita sem data marcada para julgamento. A defesa do parlamentar não se manifesta até o momento.

O que muda com a demissão e o recado para a corporação

A assinatura de Tarcísio encerra o vínculo de Da Cunha com a Polícia Civil de São Paulo. Ele perde definitivamente o cargo de delegado, o que afeta aposentadoria futura, progressão na carreira e qualquer possibilidade de retorno à corporação. Segue, porém, com mandato parlamentar intacto, protegido por imunidade própria do cargo.

Dentro da polícia, a decisão é lida como um freio à espetacularização de operações e ao uso de estruturas públicas como cenário para crescimento digital. A Corregedoria vinha alertando para a linha tênue entre transparência e show policial, agravada pela multiplicação de agentes com canais em plataformas de vídeo.

A demissão também joga luz sobre a lentidão do próprio Estado em lidar com desvios graves. O processo fica parado por quase quatro anos entre pareceres, mudanças de governo e cálculos políticos, enquanto o investigado amplia projeção pública e se elege para o Congresso.

No Palácio dos Bandeirantes, auxiliares reconhecem, em privado, o risco de prescrição da sanção administrativa. A lei paulista estabelece cinco anos como prazo-limite para aplicação de punições disciplinares após a falta. A decisão de hoje encerra essa contagem, mas expõe o tempo excessivo de tramitação.

Fora da corporação, o agora ex-delegado tende a reforçar a narrativa de perseguição política e a se amparar na popularidade digital e na tribuna em Brasília. Os processos criminais em andamento, porém, correm em paralelo e podem impor novos desgastes à sua imagem.

A cúpula da Polícia Civil acompanha o desenrolar das ações na Justiça e se prepara para usar o caso como exemplo interno. A expectativa é que a demissão sirva de marco para balizar a atuação de outros policiais com presença forte nas redes sociais, num ambiente em que um vídeo de flagrante vale, muitas vezes, mais que o boletim de ocorrência.

Delegado Da Cunha ainda é policial?

Carlos Alberto da Cunha não é mais policial civil de São Paulo, porque o governador Tarcísio de Freitas assina hoje a demissão dele do cargo de delegado, após processo disciplinar que conclui por abuso de autoridade e constrangimento ilegal em operação encenada para gravação e divulgação em redes sociais.

Delegado Da Cunha pode perder o mandato de deputado federal?

O deputado Carlos Alberto da Cunha não perde automaticamente o mandato de deputado federal com a demissão da Polícia Civil, porque a exoneração atinge apenas o vínculo dele com o cargo de delegado; qualquer cassação na Câmara depende de processo político próprio e decisão dos parlamentares, não do governador.

Quais acusações criminais o Delegado Da Cunha enfrenta hoje?

Carlos Alberto da Cunha responde hoje a duas ações penais principais, uma por abuso de autoridade e constrangimento ilegal pela encenação de flagrante de sequestro em São Paulo e outra por violência doméstica, na qual é acusado de agredir e ameaçar matar a ex-companheira no litoral paulista, ambas sem julgamento concluído.


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