Vorcaro cita Kassab e PF em depoimento que pode abalar governo

Depoimento de banqueiro preso envolve figuras do governo e pode impactar investigações em curso.
Redação NC News
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O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, afirma ao Supremo Tribunal Federal (STF) que pretendia delatar pessoas do núcleo do atual governo e envolver o diretor-geral da Polícia Federal, mas vê suas alegações desautorizadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que pede o arquivamento por falta de provas.

O depoimento, prestado na última semana de agosto ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso Master, reacende a disputa em torno da delação premiada negociada pela defesa de Vorcaro e expõe tensões entre investigados, Ministério Público e cúpula da PF em plena investigação sobre um esquema de fraudes que atinge cifras bilionárias.

Banqueiro mira núcleo do governo, mas não entrega provas

Preso em Brasília, em presídio de segurança máxima, Vorcaro é apontado pela Polícia Federal como chefe de um esquema que teria desviado ao menos R$ 12 bilhões do Banco Regional de Brasília (BRB), mais de R$ 40 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e centenas de milhões de reais de fundos de previdência estaduais e municipais. Ele cumpre a prisão em uma cela de 6 m².

No depoimento, gravado em vídeo e registrado em ata, o banqueiro diz que sua colaboração mirava diretamente integrantes do governo federal. “Toda a minha colaboração, ela, no que tange a pessoas, são pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo”, afirma. Segundo ele, esses episódios teriam “cruzado linhas de moralidade, linhas de ilicitude” que ele desejava relatar.

Vorcaro, porém, não apresenta documentos, registros financeiros ou qualquer outro elemento concreto que comprove o que diz. A delação formal que sua defesa levou ao Ministério Público em 15 de junho já tinha sido rejeitada por não conter fatos novos nem material que justificasse o acordo. No pedido atual, o cenário se repete.

Em manifestação encaminhada ao STF, a PGR sustenta que o banqueiro não trouxe elementos capazes de embasar novas apurações. “Constata-se que o declarante não noticiou fato concreto ou juridicamente delimitado capaz de impulsionar providências investigativas próprias, tampouco conferiu o mínimo elemento de verossimilhança às assertivas ali formuladas”, registra o órgão.

Acusação de intimidação e desconforto com chefe da PF

Ao juiz auxiliar de André Mendonça, Vorcaro diz acreditar que a própria prisão serve como forma de pressão para silenciá-lo. “Desde que eu fui preso… Na verdade, a minha prisão, no meu entendimento, ela já foi uma intimidação para que eu não externasse os fatos que eu desejava falar desde o começo dessa operação”, afirma.

Ele relata que, com a entrada de um novo advogado, buscava “construir uma nova colaboração”, mas que se sente impedido de avançar porque, segundo sua versão, parte do que tem a dizer envolveria o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. “Me sinto desconfortável de propor uma colaboração, em que a gente tem um diretor-geral da Polícia Federal com quem eu tinha uma relação. Que frequentou eventos, que participou de todo esse crescimento do banco”, declara.

Vorcaro afirma que Rodrigues “esteve presente em diversas outras situações” que ele gostaria de narrar e responsabiliza diretamente o diretor pelo fracasso da delação. Na oitiva, cita viagens e despesas que teriam sido pagas em benefício do chefe da PF, mas novamente não apresenta qualquer prova. Para o banqueiro, “não tem a menor chance disso se viabilizar e dar certo” enquanto a Polícia Federal, potencialmente atingida pelos relatos, seguir no comando das tratativas de colaboração.

Em outro trecho, ele contesta a própria lógica da negociação em curso. “Pelo meu entendimento, não há possibilidade de eu prestar uma colaboração cujos fatos envolvam as pessoas que estão escutando a corroboração”, diz, numa crítica direta à participação da PF na análise das informações que ele ofereceria.

Rodrigues nega manter relação próxima com Vorcaro e afirma ter participado apenas de um evento do banco em Londres, sem qualquer vínculo pessoal ou benefício indevido. A cúpula da PF trata as acusações como tentativa de desqualificar a investigação que levou o ex-banqueiro à prisão.

STF confirma depoimento e PGR freia delação

O gabinete de André Mendonça confirma que o depoimento foi tomado na última semana de agosto, por um juiz auxiliar vinculado ao ministro. Em nota, a equipe registra que “o depoimento foi realizado por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência. Trata-se de ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar”.

O relato de intimidação, porém, não sensibiliza a PGR. Ao pedir o arquivamento das denúncias, o órgão afirma que Vorcaro apresentou apenas “leituras pessoais” dos fatos, sem amparo jurídico ou documental, e lembra que sua prisão já foi confirmada por decisão colegiada do Supremo. Para a cúpula do Ministério Público, as falas do banqueiro não passam no teste mínimo de plausibilidade exigido para abrir uma nova frente de apuração.

A rejeição da delação preserva, por ora, a estabilidade institucional do governo, ao evitar que um acordo frágil sirva de base para operações espetaculares contra figuras do Planalto. Também evita um choque imediato entre a PF e o Ministério Público sobre o destino do caso Master, que prossegue com foco técnico nas fraudes financeiras já identificadas.

Fraudes bilionárias e dúvidas sobre venda do Banco Master

Além das acusações políticas, Vorcaro tenta reescrever a narrativa sobre o negócio que tirou o Banco Master de suas mãos. No depoimento, ele defende a venda da instituição para o BRB e diz que a operação seria vantajosa para ambas as partes. Afirma que deseja explicar com detalhes como a negociação ocorreu e sustenta que a integração entre os dois bancos poderia ter sido “benéfica”.

A transação, no entanto, está no centro das suspeitas que hoje cercam o BRB. Em uma das frentes da operação batizada de Compliance Zero, a PF aponta que o banco público do Distrito Federal teria comprado créditos do Master sem lastro suficiente, em desacordo com práticas mínimas de governança. O próprio BRB calcula que cerca de R$ 8,8 bilhões desses créditos representam títulos inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação, considerados “crédito podre”.

O rombo potencial pressiona as contas do banco e, por tabela, as finanças do Distrito Federal. A direção do BRB diz que consegue recuperar cerca de R$ 2,2 bilhões com medidas internas, mas reconhece que pode precisar de financiamento adicional para cobrir aproximadamente R$ 6,6 bilhões em perdas. O episódio expõe falhas de fiscalização e controle no sistema financeiro e reforça o impacto de decisões de risco sobre recursos públicos.

Ainda que a delação de Vorcaro não avance, as investigações sobre o caso Master seguem no STF e na PF. A versão do banqueiro, hoje desprovida de provas e questionada pelos órgãos de controle, continua registrada nos autos e pode ser reavaliada se surgirem documentos ou testemunhos que lhe deem sustentação.

Na prática, o futuro do ex-dono do Banco Master depende de dois movimentos paralelos: a capacidade da defesa de apresentar elementos concretos sobre as supostas relações com figuras do governo e da PF, e o desfecho dos inquéritos financeiros que miram os desvios bilionários. Até lá, o caso alimenta desconfianças sobre a eficácia dos mecanismos de colaboração premiada e mantém sob escrutínio a transparência de operações que envolveram dezenas de bilhões de reais.

O que Daniel Vorcaro declarou em sua delação premiada?

Daniel Vorcaro declarou ao STF que sua proposta de delação premiada se concentrava em pessoas ligadas ao núcleo do atual governo, envolvendo episódios que, segundo ele, cruzariam linhas de moralidade e ilicitude, mas não apresentou provas concretas nem fatos juridicamente delimitados, motivo pelo qual a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento das denúncias.

Quais pessoas do atual governo são citadas na delação de Vorcaro?

Nenhuma pessoa do atual governo é nominalmente citada por Daniel Vorcaro em sua proposta de delação, que menciona genericamente o “núcleo do atual governo” sem identificar autoridades específicas nem trazer documentos, o que levou a Procuradoria-Geral da República a concluir que não havia fatos concretos ou verossímeis para justificar novas investigações.

Como Vorcaro descreveu sua relação com a Polícia Federal em depoimento ao STF?

Daniel Vorcaro descreveu ao STF uma relação que ele chama de “cordial” com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, alegando que o chefe da PF frequentou eventos ligados ao crescimento do Banco Master, teve viagens e despesas custeadas em seu favor e seria alvo de sua delação, mas sem apresentar qualquer prova dessas supostas vantagens.

Qual é o impacto da delação de Vorcaro no governo Lula?

O impacto da delação de Daniel Vorcaro no governo Lula é, por enquanto, limitado, porque a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento das denúncias ao considerar que ele não apresentou fatos concretos nem elementos de prova, o que impede a abertura de novas investigações formais contra integrantes do núcleo governista e preserva a estabilidade política imediata.


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