Bets aumentam inadimplência e reduzem limite de crédito, aponta estudo

Novos apostadores tiveram 20% mais inadimplência e 38,7% mais atraso no cartão no primeiro ano; limite de crédito caiu 16%
Redação NC News
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Começar a apostar em plataformas de apostas online (ou bets) pode ter um impacto significativo sobre a vida financeira dos brasileiros. Um estudo conduzido pelo professor Sérgio Firpo, do Insper, em parceria com pesquisadores da Stone, aponta que novos apostadores passaram a apresentar mais inadimplência, maior atraso nas faturas do cartão e redução no acesso ao crédito.

De acordo com a pesquisa, a proporção de pessoas inadimplentes ficou, em média, 20% maior nos 12 meses seguintes ao início das apostas. No mesmo período, a parcela de faturas de cartão de crédito em atraso aumentou 38,7% entre os novos apostadores.

O levantamento utilizou dados bancários e registros de transações via Pix de milhões de clientes para acompanhar o comportamento financeiro de pessoas que começaram a apostar e compará-las com indivíduos semelhantes que não passaram a utilizar as plataformas.

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Limite de crédito cai 16%

Outro efeito identificado pela pesquisa aparece justamente no acesso ao crédito. Depois de começar a apostar, os consumidores tiveram uma redução média de 16% no limite de crédito disponível.

Segundo os pesquisadores, o tamanho da queda é comparável ao impacto observado em situações como uma demissão, mostrando que a mudança no comportamento financeiro pode ser relevante também para a relação dos consumidores com os bancos.

Na prática, a combinação entre maior atraso de contas e menor limite disponível pode dificultar a capacidade de reorganização financeira de quem já enfrenta dívidas.

Um em cada dez compromete mais de 20% do dinheiro

O estudo também identificou casos em que as apostas passaram a consumir uma parcela expressiva dos recursos movimentados mensalmente.

Cerca de um em cada dez apostadores destinou às plataformas mais de 20% de todo o dinheiro que saiu de sua conta no mês.

Para os pesquisadores, esse comportamento ajuda a explicar por que o início das apostas pode ser acompanhado por uma deterioração das condições financeiras. Parte dos recursos que poderiam ser utilizados para despesas, pagamentos ou redução de dívidas passa a ser direcionada às plataformas.

Maioria não recupera o dinheiro apostado

Os dados também mostram como é difícil para a maioria dos usuários obter retorno financeiro com as apostas.

Nos primeiros seis meses após começar a apostar, 82,5% dos apostadores não receberam nenhum valor de volta. Além disso, 90,8% enviaram mais dinheiro às plataformas do que receberam delas no período analisado.

Os números ajudam a dimensionar a diferença entre a expectativa de ganhar dinheiro e o resultado efetivamente observado nas contas dos usuários.

Jovens aparecem entre os mais expostos

A pesquisa também identificou diferenças de comportamento de acordo com a idade. Jovens tendem a comprometer uma parcela maior da renda com apostas, ficando mais expostos às consequências financeiras observadas no levantamento.

O resultado ocorre em um mercado que ganhou grande dimensão no país após a regulamentação das apostas de quota fixa. O Ministério da Fazenda informou em agosto que cerca de 40 milhões de pessoas estavam ativas no sistema de apostas, enquanto 5 milhões já haviam deixado de acessar plataformas autorizadas por autoexclusão, programas sociais ou restrições relacionadas a dívidas.

Bets entram no debate sobre endividamento

O resultado do estudo aparece em um momento de preocupação crescente com o impacto das apostas sobre o orçamento das famílias brasileiras.

O Banco Central também vem alertando para o elevado nível de endividamento das famílias. Em julho, a inadimplência do crédito livre chegou a 6,4%, enquanto entre pessoas físicas atingiu 7,8%, segundo dados citados pelo próprio BC.

O avanço das bets passou a ser tratado, portanto, não apenas como uma questão de entretenimento ou comportamento individual, mas também como um fator com possíveis efeitos sobre consumo, crédito e endividamento.

Estudo aponta relação, não que todo apostador ficará inadimplente

Os pesquisadores analisaram a trajetória financeira dos consumidores após o início das apostas. Isso permite identificar uma associação entre começar a apostar e a piora de indicadores financeiros, mas os números não significam que todo apostador ficará inadimplente ou perderá acesso ao crédito.

O que o levantamento mostra é que, no grupo estudado, os indicadores financeiros se deterioraram após o início das apostas quando comparados à trajetória de pessoas semelhantes que não passaram a apostar.

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Entenda O Contexto

O crescimento das apostas online transformou as bets em um componente relevante da economia brasileira e também abriu uma discussão sobre seus efeitos sobre as famílias. A regulamentação do setor ampliou o mercado formal, mas o aumento do número de usuários veio acompanhado de preocupações com endividamento, perda de controle financeiro e acesso ao crédito.

O novo estudo do Insper e da Stone acrescenta dados sobre esse impacto ao acompanhar milhões de movimentações financeiras e identificar aumento da inadimplência, maior atraso no cartão e redução do limite de crédito entre pessoas que começaram a apostar.

Os resultados não significam que a aposta seja a causa isolada de todos os problemas financeiros de cada indivíduo, mas indicam uma deterioração relevante dos indicadores no grupo analisado. O cenário ajuda a explicar por que o tema passou a receber atenção crescente de órgãos públicos e instituições financeiras.

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