O grupo de varejo fundado por Ilson Mateus Rodrigues atravessa a fase mais dura desde que saiu de Balsas, no Maranhão, para se tornar gigante nacional. Em meio ao fechamento de 28 lojas, à demissão de 6,6 mil funcionários e a uma disputa fiscal bilionária, a fortuna do empresário encolhe R$ 4,2 bilhões em um ano.
O ajuste atinge em cheio a bandeira Eletro Mateus, dedicada a eletrodomésticos, móveis e eletrônicos, e redesenha a presença do grupo em seis estados do Norte e Nordeste. O impacto imediato recai sobre trabalhadores, fornecedores locais e o próprio controlador, que vê sua riqueza ligada às ações da companhia perder fôlego.
Fortuna encolhe enquanto receita cresce
Ilson Mateus, hoje com 63 anos, tem patrimônio estimado em R$ 3,5 bilhões, contra R$ 7,7 bilhões um ano antes. A perda de R$ 4,2 bilhões acompanha a reprecificação do Grupo Mateus no mercado e a percepção de maior risco num momento de lucro pressionado e incerteza tributária.
A empresa segue grande. Em 2025 registra faturamento bruto de R$ 43,5 bilhões e mantém posição como terceira maior rede de supermercados do país, atrás de Carrefour e Assaí. Opera cerca de 490 unidades em nove estados, com forte peso nas regiões Norte e Nordeste.
Os números mais recentes mostram um balanço ambíguo. No segundo trimestre deste ano, a receita líquida chega a R$ 9,85 bilhões, alta de 12,2% na comparação anual. O lucro bruto soma R$ 2,31 bilhões, avanço de 10,4%. O caixa segue girando forte, com expansão no varejo alimentar e no atacarejo.
O problema aparece na última linha do balanço. O lucro líquido do trimestre cai 39,3% frente ao mesmo período do ano anterior e fica em R$ 237 milhões. As vendas nas mesmas lojas recuam 8%, sintoma de perda de fôlego em unidades maduras e de um consumidor mais sensível a preço e crédito.
Fechamento de lojas e corte de 13,9% do quadro
A reação da companhia passa por uma reestruturação ampla. Entre o ano passado e o primeiro trimestre deste ano, o Grupo Mateus encerra as atividades de 28 lojas da Eletro Mateus e elimina 6.673 postos de trabalho. O quadro de colaboradores desce de 47,9 mil para 41,2 mil pessoas, queda de 13,9%.
As demissões concentram-se em unidades de Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia. Em muitas cidades menores, a Eletro Mateus é uma das poucas redes de grande porte no segmento de eletro, o que amplia o efeito social do fechamento. Trabalhadores dispensados enfrentam um mercado de trabalho local restrito e salários em geral mais baixos.
Na prática, o grupo decide encolher em eletro justamente para preservar e fortalecer o coração do negócio: supermercados, atacarejo e varejo alimentar. A direção fala em “otimização de portfólio” e em critérios mais rigorosos para novos investimentos, numa guinada clara de “crescer a qualquer custo” para “crescer com retorno”.
A mudança de rota ocorre depois de anos de expansão acelerada, alimentada por incentivos fiscais regionais, crédito farto e renda em alta no interior do país. Agora, com juros elevados, consumo mais fraco e fiscalização tributária mais dura, o modelo de crescimento rápido cobra sua conta.
Pressão fiscal e patrimônio da família
O aperto não se limita à operação. O Grupo Mateus enfrenta autuação fiscal de R$ 1,28 bilhão relacionada a créditos presumidos. O valor não pago, somado a eventuais multas e juros, pesa na leitura de risco de investidores e ajuda a explicar parte da queda na fortuna do fundador.
A maior parte da riqueza de Ilson Mateus está atrelada às ações da companhia listada na B3. Quando o mercado reavalia o potencial de lucro futuro, o preço do papel cai e, com ele, o patrimônio do controlador. É esse movimento que transforma o “imperador dos supermercados do Nordeste” em um bilionário mais apertado no papel.
A família também sente o baque. Os filhos Denilson Pinheiro Rodrigues e Ilson Mateus Rodrigues Junior, herdeiros de participações relevantes no grupo, veem seus patrimônios individuais recuarem de R$ 2,1 bilhões para cerca de R$ 1 bilhão cada. A perda combinada dos três chega a R$ 6,4 bilhões.
Apesar da redução, o clã Mateus mantém folga financeira e o controle do negócio. No discurso público, Ilson insiste em associar a empresa a uma missão quase religiosa. “O Grupo Mateus é uma bênção”, diz o fundador, em tom de agradecimento, quando fala da trajetória que começou com uma mercearia de 50 metros quadrados em Balsas.
Impacto regional e futuro da rede
O efeito econômico da reestruturação ultrapassa a folha de pagamento. Fornecedores de eletrodomésticos, móveis e eletrônicos perdem vitrines importantes em mercados regionais. Cidades de médio porte no interior do Maranhão, do Pará e do Piauí veem encolher a oferta de crédito e de produtos de maior valor agregado.
Na outra ponta, o varejo alimentar do grupo continua avançando. Prefeitos do interior ainda celebram inaugurações de novas lojas de supermercado, vistas como vitrine política e promessa de emprego. “Sextou com mais empreendimento na nossa cidade de Caxias, onde hoje nós estamos aqui entregando mais um supermercado Mateus”, comemora o prefeito Gentil Neto, numa inauguração recente.
O contraste entre cortes em eletro e abertura de supermercados mostra a aposta do grupo: reduzir exposição a segmentos mais voláteis e concentrar fichas no abastecimento básico, onde o tíquete médio é menor, mas a frequência de compra é maior e a previsibilidade, também.
Especialistas em varejo apontam que a estratégia pode sustentar margens melhores no médio prazo, desde que a empresa consiga estabilizar o lucro líquido e resolver a disputa fiscal. O risco é o ajuste prolongar a fase de vendas fracas nas mesmas lojas e abrir espaço para concorrentes em nichos abandonados pela Eletro Mateus.
A trajetória do fundador ajuda a entender o apetite por risco do grupo. Antes de erguer o império de supermercados, Ilson circula por bicos e ocupações precárias, de engraxate a garimpeiro. Esse passado de improviso aparece em momentos de crise no varejo regional, quando parte da elite política local responde com frases que viralizam. “Você bebendo, ó, você empurra o germe pro estômago e lá o germe se lasca porque tem ácido clorídrico”, diz o ex-governador piauiense Francisco de Assis de Moraes Souza, ao minimizar o perigo de contaminações em aglomerações no comércio.
No curto prazo, o Grupo Mateus promete disciplina. Novos projetos passam por filtros mais rígidos de retorno, a prioridade é recuperar margens e a ordem interna é fazer mais com menos. A capacidade de executar esse plano, e de negociar a conta de R$ 1,28 bilhão com o fisco, vai determinar se a queda recente da fortuna de Ilson Mateus é um tropeço pontual ou o começo de um ciclo mais longo de ajuste.
Qual foi o impacto da demissão de 6,6 mil funcionários no Grupo Mateus?
A demissão de 6.673 funcionários no Grupo Mateus representa um corte de 13,9% do quadro, reduzindo o total de 47,9 mil para 41,2 mil trabalhadores e afetando diretamente empregos, renda e consumo em Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia, especialmente em cidades médias dependentes do comércio local.
Por que o fundador do Grupo Mateus viu sua fortuna cair R$ 4,2 bilhões em um ano?
A fortuna de Ilson Mateus cai R$ 4,2 bilhões em um ano porque o valor de mercado do Grupo Mateus diminui em meio à reestruturação com fechamento de 28 lojas, queda de 39,3% no lucro líquido trimestral, recuo de 8% nas vendas mesmas lojas e pressão adicional de uma autuação fiscal de R$ 1,28 bilhão.
Como a crise no Grupo Mateus afetou o patrimônio da família?
A crise no Grupo Mateus reduz o patrimônio da família Mateus em cerca de R$ 6,4 bilhões, com o fundador caindo para R$ 3,5 bilhões e cada filho passando de R$ 2,1 bilhões para R$ 1 bilhão, reflexo direto da desvalorização das ações ligadas ao grupo e da percepção de maior risco sobre seus resultados futuros.