Maria Branyas Morera viveu 117 anos e despertou o interesse de pesquisadores justamente por apresentar uma combinação incomum: seu organismo carregava sinais claros de envelhecimento extremo, mas também apresentava características biológicas encontradas em pessoas muito mais jovens.
A espanhola morreu em 2024 e havia manifestado o desejo de que seu corpo fosse estudado pela ciência. Pesquisadores analisaram seu DNA, células, sistema imunológico e microbiota intestinal para tentar entender como ela conseguiu alcançar uma idade tão avançada mantendo boa saúde e autonomia por grande parte da vida.
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Entenda o que aconteceu
O caso de Maria Branyas chamou atenção porque sua idade biológica geral foi estimada em até 20 anos abaixo da idade cronológica em alguns aspectos analisados pelos pesquisadores.
Isso não significa que o organismo da supercentenária fosse simplesmente equivalente ao de uma pessoa de 97 anos. O que os cientistas encontraram foi uma combinação de características: algumas estruturas apresentavam alterações típicas do envelhecimento, enquanto outras funções permaneciam surpreendentemente preservadas.
O que os pesquisadores encontraram
A análise revelou sinais de envelhecimento dos telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos e relacionadas à proteção do material genético.
Ao mesmo tempo, Maria apresentava um sistema imunológico ativo e eficiente, característica que chamou a atenção da equipe responsável pelo estudo.
Os pesquisadores também observaram aspectos favoráveis em seu metabolismo e em outros indicadores relacionados ao funcionamento do organismo.
A combinação ajudou a reforçar a hipótese de que a longevidade extrema não depende de um único fator, mas de uma interação entre genética, estilo de vida, alimentação, sistema imunológico e microbiota intestinal.
Microbiota também chamou atenção
Outro aspecto observado no estudo foi a composição da microbiota intestinal de Maria.
O intestino da supercentenária apresentava níveis elevados de bifidobactérias, microrganismos associados à manutenção de um ambiente intestinal saudável e à regulação da inflamação.
Um dos hábitos que chamou atenção dos pesquisadores foi o consumo frequente de iogurte natural. A alimentação da espanhola seguia características da dieta mediterrânea e incluía azeite e alimentos considerados pouco processados.
Os pesquisadores, porém, não afirmam que o consumo de iogurte tenha sido responsável por sua longevidade. O achado é considerado uma possível peça de um conjunto muito maior de fatores.
Ela manteve atividades durante boa parte da vida
Maria Branyas nasceu em 1907 e teve uma vida marcada por diferentes atividades profissionais. Foi dona de casa, enfermeira e costureira.
Ela permaneceu independente por décadas e chegou a viver sozinha até os 94 anos, quando passou a ter dificuldades para caminhar e foi para uma instituição de cuidados.
Mesmo em idade avançada, manteve algumas atividades que exigiam coordenação e cognição. Segundo os relatos analisados pelos pesquisadores, ela ainda tocava piano com precisão aos 112 anos.
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A genética pode ter papel importante
A família de Maria também apresentava histórico de longevidade. Ela teve três filhos, e duas das filhas chegaram a idades superiores a 90 anos.
Esse histórico reforçou a hipótese de que fatores genéticos podem ter contribuído para sua longevidade excepcional.
A análise do DNA identificou variantes que poderiam oferecer alguma proteção contra determinadas doenças associadas ao envelhecimento. Mas os pesquisadores ressaltam que genética, sozinha, não explica completamente o caso.
O organismo humano é resultado da interação entre genes e ambiente ao longo de toda a vida.
O que isso ensina sobre envelhecimento
O estudo de Maria Branyas não representa uma fórmula para chegar aos 117 anos.
Os próprios pesquisadores destacam que se trata da análise de uma única pessoa, e os resultados ainda precisam ser investigados em grupos maiores para que possam ser transformados em conclusões aplicáveis à população.
Ainda assim, o caso ajuda a ciência a investigar uma questão importante: por que algumas pessoas conseguem envelhecer mantendo boa saúde por muito mais tempo do que a média?
A chamada longevidade saudável, ou healthspan, vem ganhando espaço justamente porque o objetivo da medicina não é apenas aumentar o número de anos vividos, mas ampliar o período em que a pessoa permanece independente e com boa qualidade de vida.
Entenda o contexto
O envelhecimento é um processo complexo que envolve alterações em praticamente todos os sistemas do organismo. Entre os fenômenos estudados estão mudanças no sistema imunológico, metabolismo, microbiota, células e material genético.
Casos de supercentenários como Maria Branyas são considerados especialmente importantes porque permitem observar organismos que conseguiram resistir por décadas ao desenvolvimento de doenças relacionadas à idade.
A pesquisa, no entanto, não significa que exista uma receita para viver 117 anos. Alimentação equilibrada, atividade física e outros hábitos saudáveis podem contribuir para o envelhecimento com mais qualidade, mas não garantem longevidade extrema.
O principal interesse científico está em descobrir quais mecanismos biológicos permitiram que Maria Branyas mantivesse determinadas funções do organismo preservadas mesmo em idade tão avançada. Esses conhecimentos podem, no futuro, ajudar pesquisadores a desenvolver formas de ampliar não apenas a expectativa de vida, mas principalmente os anos vividos com saúde.
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