Crise no STF trava caso Daniel Vorcaro e atrasa apuração Master

Disputa interna no STF causa atrasos na investigação da PF envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro.
Redação NC News
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A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master entra numa zona de incerteza enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) se divide sobre quem comanda o caso. A defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e de seu pai, Henrique, tenta explorar a crise interna da corte para adiar depoimentos e obter liberdade ou prisão domiciliar.

Disputa no Supremo paralisa investigação sensível

No centro do impasse está a definição sobre qual ministro ficará responsável pelo inquérito do chamado caso Master. Grupos ligados a André Mendonça e Alexandre de Moraes travam uma queda de braço silenciosa, e o presidente do STF, Edson Fachin, se torna peça decisiva nesse tabuleiro.

Enquanto isso, a PF intima Daniel e Henrique Vorcaro para novos depoimentos, etapa considerada crucial antes do fechamento da fase atual da apuração. Investigadores veem com preocupação o movimento dos advogados, que usam a indefinição no Supremo para pedir adiamentos sucessivos e tentar reverter prisões ou substituí-las por prisão domiciliar, começando por Henrique.

A estratégia aposta no tempo. A defesa calcula que, com o plenário tomado por embates sobre a própria organização do tribunal, qualquer decisão de mérito no caso Master tende a ser mais lenta e sujeita a revisão. Nesse cenário, Daniel Vorcaro resiste a firmar um acordo de delação premiada, depois de tentativas em que, segundo investigadores, falou muito e entregou pouco sobre personagens de maior peso político.

Reunião com Gilmar expõe bilionária disputa no setor sucroalcooleiro

Paralelamente à batalha processual, vêm à tona episódios que ajudam a dimensionar o alcance econômico do caso. Em abril de 2024, Daniel Vorcaro se reúne com o ministro Gilmar Mendes no gabinete do magistrado, na sede do STF, acompanhado de advogados do Banco Master, para tratar de uma causa ligada ao setor sucroalcooleiro.

Nessa disputa, a carteira do Banco Master concentra créditos bilionários em forma de precatórios — dívidas já reconhecidas judicialmente — atrelados a usinas que cobram indenizações da União. Estimativas da Advocacia-Geral da União calculam em R$ 145 bilhões o impacto potencial dessas indenizações para os cofres públicos.

Em nota, Gilmar afirma que a audiência segue o rito normal de atendimento a advogados e tenta afastar qualquer suspeita de favorecimento. “Foi realizada na sede do Tribunal, em ambiente institucional, e não em espaço privado”, diz o ministro. Ele sustenta ainda que, nos julgamentos posteriores sobre o tema, vota de forma sistemática contra os interesses do Banco Master e em linha com a posição da União.

Nos processos listados por sua assessoria, que envolvem grandes grupos como Raízen e Jalles Machado, o ministro vota contra o pagamento de precatórios em diferentes sessões, inclusive depois do encontro com Vorcaro. Em um dos casos, pede destaque e interrompe julgamento que se encaminhava a favor de uma usina, para reabrir a discussão no plenário virtual.

Consultoria milionária e influência no MEC entram na mira

As pressões do caso Master, porém, não se limitam aos trilhões da dívida pública e às turmas do Supremo. Interceptações e mensagens obtidas pela PF mostram que Daniel Vorcaro também investe pesado para atuar nos bastidores do Ministério da Educação, onde tramitam decisões sobre a abertura de novos cursos de medicina em universidades privadas.

Em 2024, o ex-banqueiro contrata o empresário cearense Francisco Feitosa, conhecido como Chiquinho e ex-cunhado do ministro Gilmar Mendes, para uma consultoria ligada a interesses do Banco Master no ensino superior privado. As conversas se estendem pelo menos de abril de 2024 a junho de 2025 e indicam negociações para um contrato com pagamentos mensais de R$ 500 mil, além de uma parcela inicial extra de R$ 800 mil.

Feitosa confirma a existência de contrato com a empresa Super Empreendimentos, hoje investigada pela PF por supostamente funcionar como canal de repasses de Vorcaro a milícias privadas e agentes públicos. Nega, porém, ter atuado como ponte entre o ex-banqueiro e o ministro do STF. “Não fui contratado para promover ou intermediar a aproximação entre quaisquer pessoas, ou muito menos o ministro Gilmar Mendes”, afirma.

Os diálogos revelam um esforço para abrir portas dentro do governo. Em uma troca de mensagens, Feitosa comenta o andamento de assuntos no Ministério da Educação com a frase: “MEC: Andando na velocidade esperada”. Em outro momento, Vorcaro pede que o consultor transmita um recado a um aliado influente na área. “Mande um abraço pro Camilo”, escreve, numa referência ao ex-ministro da Educação e hoje senador pelo PT do Ceará, Camilo Santana.

Em nota, Feitosa diz que a consultoria dura “curto período” e que a Super Empreendimentos atua em “vários segmentos”, sem detalhar valores ou serviços. Relata ainda uma reunião com Guiomar Mendes, mulher do ministro, em que Vorcaro teria se comprometido a apresentar dados sobre processos envolvendo o setor educacional. “Ele ficou de trazer para ela números de processos, coisa que nunca aconteceu”, afirma.

Pressão política, milícias privadas e desgaste institucional

O mosaico traçado pela PF vai além do Banco Master e de suas frentes de negócio. Ao investigar a Super Empreendimentos, os agentes rastreiam suspeitas de que a empresa seja usada para irrigar milícias privadas e bancar vantagens indevidas a servidores públicos, o que amplia o caso para as áreas de segurança e governança.

No plano político, o episódio coloca sob escrutínio a relação entre o STF, o Executivo e o setor privado. A revelação de encontros formais e informais, contratos milionários e tentativas de influência em decisões regulatórias alimenta o debate sobre até onde podem ir os lobistas de luxo num país em que juízes supremas julgam causas de centenas de bilhões de reais.

Dentro do Supremo, a crise aberta pelo caso Master já serve de munição para discursos em favor de uma reforma do Judiciário. Grupos de oposição no Congresso defendem mudanças em regras de competência e transparência, enquanto ministros se dividem em notas públicas e discursos indignados em plenário, numa disputa por narrativa e poder.

No curto prazo, quem ganha é a defesa de Daniel Vorcaro, que se ancora no ambiente conturbado para alongar prazos e testar saídas jurídicas menos gravosas. O custo, apontam investigadores e especialistas, recai sobre a própria credibilidade das instituições, que veem uma investigação sensível ficar à deriva no auge de uma disputa interna.

Os próximos passos passam pela decisão de Edson Fachin sobre a relatoria definitiva do caso, pela realização — ou novo adiamento — dos depoimentos de Daniel e Henrique Vorcaro e pelo avanço das frentes que investigam a Super Empreendimentos e seus vínculos com milícias e agentes públicos. A forma como o Supremo administrará esse conflito interno deve influenciar não só o desfecho do caso Master, mas também o modelo de condução de futuras investigações que toquem o topo do sistema político e econômico.

O que houve com Daniel Vorcaro no caso Master?

Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e dono do Banco Master, é alvo de investigação da Polícia Federal que apura negócios bilionários com precatórios, vínculos suspeitos com consultorias e possíveis repasses a milícias privadas e agentes públicos; ele foi intimado para novos depoimentos e tenta adiar a oitiva enquanto negocia sua estratégia de defesa.

Qual a relação entre Daniel Vorcaro e Gilmar Mendes?

Daniel Vorcaro se reúne com o ministro Gilmar Mendes em 11 de abril de 2024, no gabinete do STF, para tratar de uma causa bilionária do setor sucroalcooleiro, e posteriormente contrata o ex-cunhado do ministro, Francisco Feitosa, como consultor; Gilmar admite a audiência institucional, nega qualquer tratativa indevida e destaca que sempre vota contra os interesses do Banco Master nesses processos.

Como as investigações afetam Daniel Vorcaro e o Banco Master?

As investigações da Polícia Federal afetam diretamente Daniel Vorcaro e o Banco Master ao colocar sob suspeita a carteira de precatórios da instituição, estimada em bilhões de reais, os contratos de consultoria de até R$ 500 mil mensais mais R$ 800 mil iniciais e possíveis ligações com milícias e agentes públicos, criando risco de prisões, acordos de colaboração e perdas financeiras expressivas.

Qual foi a pauta bilionária discutida entre Vorcaro e Gilmar Mendes?

A pauta bilionária tratada entre Daniel Vorcaro e Gilmar Mendes envolve ações de usinas do setor sucroalcooleiro que cobram da União indenizações estimadas em R$ 145 bilhões, lastreadas em precatórios que interessam ao Banco Master; na reunião, o ex-banqueiro buscava ambiente favorável, mas o ministro afirma que depois votou reiteradamente contra o pagamento desses créditos.


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