Gravações feitas dentro da casa de um empresário investigado pela Polícia Federal revelam conversas sobre os bastidores da obtenção de acordos que permitiram a associações realizar descontos diretamente em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Nos vídeos, Anderson Cordeiro de Vasconcelos e Igor Dias Delecrode, integrantes do grupo de empresários conhecido como “golden boys”, relatam uma suposta articulação envolvendo José Carlos Oliveira, ex-presidente do INSS e ex-ministro do Trabalho e Previdência no governo Jair Bolsonaro.
Oliveira, que atualmente também usa o nome Ahmed Mohamad Oliveira Andrade, nega ter interferido na aprovação dos acordos e afirma que nunca manteve relação profissional ou particular com os empresários citados.
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“Eu que sentei lá com o Oliveira”
As imagens foram registradas em 22 de maio de 2025 por câmeras de segurança instaladas na residência de Anderson, cerca de um mês depois da primeira fase da Operação Sem Desconto.
Em aproximadamente 30 minutos de gravação, Anderson e Igor conversam sobre os negócios mantidos pelo grupo e sobre a origem de um dos primeiros acordos firmados por uma das entidades. Em determinado momento, Delecrode relata uma afirmação que atribui a Wilson Roberto Gomes, pai de Felipe Macedo Gomes, outro integrante do grupo.
Segundo o relato reproduzido na conversa, Wilson teria dito que foi ele quem conseguiu o negócio, que havia se reunido com Oliveira e dado garantias sobre os empresários. O conteúdo do vídeo registra aquilo que os dois empresários disseram entre si.
Isoladamente, portanto, não comprova que a reunião descrita tenha ocorrido da maneira relatada nem que Oliveira tenha interferido na aprovação do acordo.
“Faz pro meu filho como se fosse pra mim”
Anderson também reproduz na gravação outra frase que atribui a Wilson Gomes. Segundo ele, Wilson teria pedido a Oliveira que tratasse o interesse de seu filho como se fosse dele próprio.
Os investigadores apuram a relação entre Wilson, Felipe e integrantes do grupo que controlava as associações. A defesa de Wilson afirma que ele nunca teve relação com as entidades investigadas.
Grupo ficou conhecido como “golden boys”
Anderson, Igor, Felipe e Américo Monte Júnior são relacionados nas investigações ao núcleo apelidado de “golden boys”.
O nome passou a ser utilizado para identificar empresários relativamente jovens que apareceram formalmente no comando de entidades responsáveis por movimentar centenas de milhões de reais em descontos associativos. Entre as associações relacionadas ao grupo estão Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev, Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (Aasap) e Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (Andapp).
As entidades ligadas ao núcleo movimentaram mais de R$ 700 milhões em descontos sobre benefícios previdenciários.
Amar Brasil movimentou R$ 324 milhões
A Amar Brasil conseguiu seu primeiro Acordo de Cooperação Técnica com o INSS durante o período em que Oliveira ocupava posições de comando na estrutura previdenciária. O acordo foi assinado pelo então diretor de Benefícios Edson Yamada, que também passou a ser investigado pela Polícia Federal.
Yamada e Oliveira possuem relação societária fora do INSS. Oliveira afirma que a relação entre os dois é estritamente pessoal e não envolve questões funcionais relacionadas à autarquia. Entre 2021 e 2025, a Amar Brasil movimentou aproximadamente R$ 324 milhões em descontos.
Outros três acordos vieram no governo Lula
As demais entidades relacionadas ao grupo conseguiram outros acordos posteriormente, já durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva. Essas associações realizaram aproximadamente R$ 376 milhões em descontos.
Somados aos valores atribuídos à Amar Brasil, os números ajudam a explicar por que esse núcleo ganhou importância nas investigações da Polícia Federal. Os valores movimentados pelas entidades, entretanto, não podem ser automaticamente classificados em sua totalidade como dinheiro fraudado.
A investigação busca justamente identificar quais descontos eram autorizados e quais foram realizados irregularmente.
“Nem que ia dar um helicóptero pro big boss”
Outro trecho da gravação chama atenção dos investigadores. Durante a conversa, Anderson afirma que não sabia de determinados detalhes das articulações e menciona que desconhecia até uma suposta entrega de um helicóptero para alguém chamado de “big boss”.
O empresário não identifica, no trecho divulgado, quem seria a pessoa mencionada pelo apelido. Por isso, não há base para associar o “big boss” a José Carlos Oliveira ou a qualquer outro personagem específico sem elementos adicionais da investigação.
Quebra de sigilo encontrou pagamentos a Oliveira
Além das conversas, documentos obtidos a partir do afastamento de sigilo bancário identificaram transferências para José Carlos Oliveira. F
elipe Macedo Gomes transferiu ao ex-ministro R$ 8 mil, divididos em quatro transações realizadas entre outubro de 2021 e março de 2023. João Carlos Camargo Júnior, conhecido como “Alfaiate do INSS”, realizou outros cinco pagamentos que somaram aproximadamente R$ 12,1 mil entre junho de 2021 e dezembro de 2023.
A existência das transferências é um dado bancário sob análise das autoridades, mas, por si só, não determina que esses valores tenham origem criminosa.
PF já indiciou ex-ministro em outro núcleo
José Carlos Oliveira já foi indiciado pela Polícia Federal em uma frente relacionada à Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil (Conafer). Nessa investigação, a PF atribuiu ao ex-ministro suspeitas de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa.
Segundo a investigação policial, Oliveira teria recebido pelo menos R$ 550 mil em vantagens indevidas relacionadas à atuação da Conafer e teria desempenhado papel institucional relevante para o funcionamento do esquema atribuído à entidade. Oliveira nega ter recebido propina ou praticado qualquer ato ilícito. Indiciamento é uma conclusão da autoridade policial na fase investigativa e não representa condenação.
R$ 6,3 bilhões não são prejuízo comprovado
Um dos números mais repetidos desde o início da Operação Sem Desconto exige uma distinção importante. As investigações alcançaram um universo de aproximadamente R$ 6,3 bilhões em descontos associativos realizados entre 2019 e 2024. Isso não significa que todo esse montante tenha sido comprovadamente desviado.
Em uma das medidas judiciais adotadas para recuperar recursos, a Advocacia-Geral da União estimou preliminarmente prejuízo mínimo de R$ 2,56 bilhões relacionado às associações incluídas naquela ação. O valor final das fraudes continua sujeito à apuração.
Ex-ministro chegou a usar tornozeleira
Em abril de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou que Oliveira fosse submetido a monitoramento eletrônico, assim como outros investigados.
Os empresários do núcleo dos “golden boys” também passaram a utilizar tornozeleiras por determinação do STF. Oliveira, entretanto, não está mais submetido ao monitoramento eletrônico. Em 8 de setembro, Mendonça determinou a retirada da tornozeleira do ex-ministro.
Permaneceram outras restrições, entre elas proibição de contato com investigados e testemunhas e impedimento de deixar o país.
Investigação dos “golden boys” ainda não terminou
As gravações agora reveladas pertencem a uma frente que ainda está sob investigação. O inquérito relacionado especificamente ao núcleo dos “golden boys” está em fase avançada, mas seu relatório final ainda não havia sido apresentado na última atualização disponível.
Isso também exige separar essa apuração do indiciamento de Oliveira relacionado à Conafer, que já foi concluído pela PF. Eventuais novos indiciamentos dependerão da análise do conjunto de provas reunido pelos investigadores.
Defesas questionam gravações
Os advogados de Anderson, Igor e Felipe afirmaram desconhecer a existência, autenticidade e integridade dos vídeos divulgados. A defesa de Anderson também sustentou que, caso as imagens existam, sua obtenção e divulgação teriam ocorrido de forma ilícita.
Os advogados informaram ainda que os bens dos investigados estão bloqueados e que seus clientes permanecem à disposição das autoridades. A defesa de Wilson Roberto Gomes, por sua vez, afirma que ele nunca teve relação com as associações investigadas.
Oliveira nega ter aberto portas para associações
José Carlos Oliveira também rejeitou a interpretação de que tenha atuado para facilitar os acordos. Segundo sua defesa, ele não mantinha relacionamento particular ou profissional com os empresários mencionados nas gravações.
O ex-ministro sustenta ainda que não possuía ingerência sobre a celebração dos Acordos de Cooperação Técnica e que esses procedimentos passavam por análises técnicas, administrativas e jurídicas dentro do INSS. Oliveira admite conhecer integrantes da família Macedo, mas nega uma relação de amizade próxima com os envolvidos na investigação.
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Entenda O Contexto
A Operação Sem Desconto foi deflagrada em abril de 2025 para investigar cobranças associativas realizadas diretamente em aposentadorias e pensões do INSS. As associações conseguiam acesso à folha por meio de Acordos de Cooperação Técnica.
A investigação identificou suspeitas de que beneficiários tiveram valores retirados sem autorização. José Carlos Oliveira ocupou diferentes postos estratégicos na estrutura previdenciária: foi diretor de Benefícios, presidente do INSS e, posteriormente, ministro do Trabalho e Previdência no governo Jair Bolsonaro.
Em julho de 2026, ele foi indiciado pela PF em uma investigação relacionada à Conafer por suspeitas de organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
A defesa nega as acusações. As novas gravações dizem respeito a outro núcleo. Nos vídeos de maio de 2025, empresários dos chamados “golden boys” relatam que Wilson Roberto Gomes teria recorrido à relação com Oliveira para ajudar o filho e seus parceiros a conseguir um acordo no INSS. O ex-ministro nega ter participado da aprovação de qualquer ACT.
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