Barragem de garimpo vira alerta na Amazônia e eventual colapso pode atingir bacia do Rio Madeira
MPF investiga rachaduras, alterações estruturais e suspeitas de contaminação na Barragem Santa Cruz, em Ariquemes; responsáveis pela estrutura e ANM afirmam que intervenções garantem estabilidade.
A estrutura fica no garimpo Bom Futuro, em Ariquemes, Rondônia, a cerca de 200 quilômetros de Porto Velho. O local concentra uma das principais áreas de exploração de cassiterita da região e passou a ser acompanhado diante de relatos e registros relacionados às condições da barragem.
O ponto de maior preocupação é o caminho que os rejeitos poderiam percorrer em um eventual acidente de grandes proporções. O material poderia avançar pelo Vale do Jamari e alcançar a bacia do Rio Madeira, ampliando o potencial de danos ambientais para além da área de mineração.
O Ministério Público Federal em Rondônia acompanha informações relacionadas a rachaduras, alterações na estrutura e possíveis problemas ambientais na Barragem Santa Cruz.
Entre os pontos sob apuração estão intervenções que teriam sido realizadas sem autorização e relatos relacionados à presença de rejeitos em cursos d’água próximos. A investigação busca esclarecer as condições da estrutura e a atuação dos responsáveis pelo empreendimento.
O caso ganhou ainda mais atenção diante da dimensão da área que poderia ser afetada caso houvesse um rompimento. Rios da região do Vale do Jamari possuem conexão com o sistema hidrográfico do Madeira, um dos principais afluentes do Rio Amazonas.
Responsáveis afirmam que barragem está estável
A existência de uma investigação e de relatos sobre problemas na estrutura não significa que um rompimento esteja confirmado ou seja considerado inevitável.
A cooperativa responsável pela barragem nega a existência de vazamentos e sustenta que a estrutura apresenta condições de estabilidade.
A Agência Nacional de Mineração (ANM), por sua vez, informou que uma fiscalização realizada em março verificou a eficácia das intervenções corretivas executadas no local. Segundo o órgão, as ações de acompanhamento são contínuas e ocorrem em conjunto com outras autoridades.
Uma nova Declaração de Condição de Estabilidade da barragem deve ser apresentada até o fim de setembro, conforme informações atribuídas à ANM.
BACIA RIO MADEIRA
Denúncias também mencionam rejeitos em curso d’água
Moradores, garimpeiros e proprietários rurais da região já relataram episódios em que material apontado como rejeito teria alcançado o Rio Santa Cruz. Também surgiram relatos sobre um suposto vazamento ou rompimento no início de 2026.
Essas informações, no entanto, não devem ser tratadas como fatos comprovados enquanto não houver confirmação por meio de fiscalização, documentos técnicos ou análises dos órgãos competentes.
Os relatos aumentaram a pressão por avaliações técnicas capazes de determinar as condições atuais da estrutura e esclarecer se há risco efetivo para os cursos d’água da região.
Barragens de Bom Futuro já foram alvo de alerta
A preocupação com estruturas de mineração na região de Bom Futuro não começou agora. Em 2025, uma inspeção do Ministério Público Federal nas barragens Jacaré Inferior e Jacaré Superior, localizadas no mesmo distrito, identificou fragilidade no talude da Jacaré Superior.
Na ocasião, a proximidade da estrutura com um canal aberto durante os primeiros anos da exploração mineral levou a preocupações sobre a possibilidade de desmoronamento em períodos de chuva intensa.
A Agência Nacional de Mineração recomendou então um novo desvio do rio como parte das medidas relacionadas à segurança da área.
Rio Madeira já enfrenta pressão do garimpo
A discussão sobre a segurança da Barragem Santa Cruz ocorre em um momento de aumento da fiscalização sobre atividades de mineração na bacia do Rio Madeira.
No início de setembro, uma operação conjunta da Polícia Federal e do Ibama inutilizou 15 dragas e motores utilizados em garimpo ilegal no baixo Rio Madeira, em Rondônia. A ação também resultou na apreensão de mercúrio e aparelhos celulares.
As investigações daquela operação buscam identificar responsáveis pela execução e pelo financiamento da atividade ilegal. O episódio é distinto da situação da Barragem Santa Cruz, mas evidencia a pressão provocada pela exploração mineral sobre diferentes pontos da bacia.
Risco segue sob acompanhamento
Até o momento, não há confirmação de rompimento iminente da Barragem Santa Cruz. A apuração envolve as condições estruturais, intervenções realizadas no local e possíveis impactos ambientais associados à operação.
A posição apresentada pela Agência Nacional de Mineração é de que as medidas corretivas verificadas em fiscalização foram eficazes. A evolução do caso depende agora do acompanhamento técnico da estrutura e das apurações conduzidas pelos órgãos responsáveis.