MPF denuncia 35 pessoas por fraude de R$ 86 milhões no INSS em Minas Gerais

Investigação aponta criação de identidades falsas para receber benefícios destinados a idosos; esquema teria funcionado por mais de 20 anos.
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O Ministério Público Federal (MPF) denunciou 35 pessoas à Justiça Federal por suspeita de participação em um esquema de fraudes contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em Minas Gerais. Segundo a investigação, o grupo teria desviado mais de R$ 86 milhões por meio da criação de identidades fictícias utilizadas para receber benefícios assistenciais destinados a idosos em situação de vulnerabilidade. A denúncia foi apresentada em 6 de outubro e é resultado da Operação Leste do Espinhaço, deflagrada pela Polícia Federal no fim de agosto. De acordo com o MPF, a organização teria atuado por mais de duas décadas, utilizando documentos falsos, registros civis fraudulentos e pessoas que se passavam pelos beneficiários para obter e movimentar os recursos.
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Como funcionava o esquema de fraude no INSS?

Segundo a denúncia, os investigados criavam identidades de pessoas que nunca existiram para solicitar o Benefício de Prestação Continuada (BPC/Loas), destinado a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência que atendem aos critérios legais. O processo começava com registros tardios de nascimento em cartórios, acompanhados de declarações e testemunhos falsos. A partir das certidões obtidas, o grupo conseguia emitir documentos oficiais, como CPF e carteira de identidade, dando aparência de legalidade aos beneficiários fictícios. Com os documentos, os suspeitos solicitavam os benefícios assistenciais e passavam a receber pagamentos mensais. Segundo os procuradores responsáveis pelo caso, os valores foram recebidos “mês a mês, durante anos ou décadas”. As investigações apontam que diferentes integrantes desempenhavam funções específicas, desde a falsificação dos documentos até a realização dos saques e a administração dos recursos obtidos indevidamente.
Apreensões da operação contra esquema de fraudes no INSS • Polícia Federal

Grupo utilizava pessoas reais para simular beneficiários

Um dos mecanismos identificados pela Polícia Federal envolvia os chamados “dublês biométricos”. Eram pessoas reais que compareciam a repartições públicas e agências bancárias utilizando a identidade dos beneficiários fictícios. A estratégia permitia que os investigados superassem exigências de identificação presencial e cadastramento biométrico, necessárias para a emissão de documentos e a movimentação de determinados benefícios. Mais de 170 laudos papiloscópicos e biométricos produzidos pela perícia da Polícia Federal identificaram, segundo o MPF, impressões digitais iguais vinculadas a diferentes identidades cadastradas no sistema previdenciário. Outros integrantes do grupo teriam fornecido endereços e números de telefone, assinado procurações e realizado retiradas de dinheiro em agências bancárias e caixas eletrônicos.

Investigação identificou 457 benefícios fraudulentos

Ao longo da investigação, as autoridades identificaram 457 benefícios considerados fraudulentos. Desse total, 240 ainda estavam ativos e sendo pagos quando a operação policial foi realizada. Segundo o MPF, a interrupção dos pagamentos evitou um prejuízo adicional estimado em R$ 34,8 milhões aos cofres públicos. Na Operação Leste do Espinhaço, foram cumpridas 91 medidas judiciais, incluindo 25 mandados de prisão preventiva, 33 mandados de busca e apreensão e 33 medidas de bloqueio de bens. As diligências ocorreram em municípios de Minas Gerais e também em São Gabriel da Palha, no Espírito Santo. A apuração foi conduzida conjuntamente pelo Ministério Público Federal, Polícia Federal, Força-Tarefa Previdenciária em Minas Gerais e Núcleo de Inteligência Previdenciária (Nuinp/MG).

MPF aponta divisão de tarefas entre os investigados

Na denúncia, o Ministério Público Federal afirma que os investigados integravam uma organização criminosa com estrutura estável, divisão de funções e atuação coordenada. Os procuradores identificaram quatro principais frentes de atuação: articulação e liderança do esquema, falsificação de documentos, representação administrativa junto ao INSS, utilização de dublês biométricos e movimentação dos valores recebidos. Segundo a acusação, a atuação conjunta permitia que as identidades fictícias fossem mantidas por longos períodos, garantindo o recebimento continuado dos benefícios. Os principais investigados foram denunciados pelo crime de organização criminosa. As responsabilidades individuais e eventuais condenações ainda dependem de análise da Justiça Federal.

MPF pede devolução dos R$ 86 milhões e bloqueio de bens

Além da responsabilização criminal dos denunciados, o Ministério Público Federal solicitou o ressarcimento integral dos mais de R$ 86 milhões apontados como desviados da União. O órgão também pediu a manutenção das prisões preventivas dos investigados, sob o argumento de garantir a ordem pública, e a continuidade do bloqueio de bens para assegurar uma eventual recuperação dos valores. O processo ainda será analisado pela Justiça Federal, que deverá avaliar as acusações apresentadas pelo MPF e decidir sobre o prosseguimento da ação penal. A apresentação da denúncia não representa condenação. Os investigados têm direito à defesa e ao contraditório, e a responsabilidade criminal de cada um deverá ser definida ao longo do processo judicial.
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