O cientista político Antonio Lavareda avalia que o senador Flávio Bolsonaro (PL) chega à reta final do segundo turno presidencial como um “favorito vulnerável” diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo o especialista, a redução da diferença entre os candidatos nas pesquisas e o impacto da abstenção entre eleitores de baixa renda ajudam a explicar por que a disputa permanece aberta a cinco dias da votação, marcada para domingo (25).
A avaliação foi apresentada por Lavareda em análises recentes sobre o cenário eleitoral, incluindo declarações divulgadas pelo Metrópoles na segunda-feira (19). Para o cientista político, o desempenho de Flávio no primeiro turno não representa necessariamente uma mudança expressiva na orientação política do eleitorado brasileiro. Parte da vantagem obtida pelo senador estaria relacionada ao maior comparecimento de determinados grupos às urnas, enquanto a ausência de eleitores das periferias teria prejudicado Lula.
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de 1,87 ponto percentual. Agora, levantamentos divulgados na última semana mostram percentuais próximos entre os dois candidatos, embora com resultados diferentes conforme o instituto e a metodologia utilizada. Lavareda considera que a disputa continua marcada por uma divisão política profunda, na qual o comparecimento às urnas pode ter peso importante.
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Lavareda vê Flávio como “favorito vulnerável” na reta final
A expressão utilizada por Antonio Lavareda resume sua interpretação sobre a mudança no cenário eleitoral desde o início do segundo turno.
Em avaliações anteriores, o cientista político considerava que Flávio Bolsonaro havia iniciado a nova etapa da disputa em posição mais confortável. Entretanto, a aproximação dos percentuais nas pesquisas levou o especialista a rever essa leitura.
Na análise divulgada pelo Metrópoles, Lavareda destacou que a reação da campanha de Lula nas ruas e nas redes sociais contribuiu para reduzir a diferença numérica observada em alguns levantamentos.
O especialista também apontou que o eleitorado de Flávio demonstra maior disposição para comparecer às urnas, fator que considera relevante diante do histórico de abstenção entre grupos de menor renda.
Essa interpretação, porém, não representa uma previsão do resultado eleitoral. As pesquisas registram intenções de voto em períodos específicos, enquanto o resultado definitivo dependerá do comparecimento e dos votos efetivamente depositados nas urnas.
Abstenção nas periferias ajuda a explicar resultado do primeiro turno
Um dos principais argumentos apresentados por Lavareda está relacionado à participação dos eleitores no primeiro turno.
Segundo dados da Justiça Eleitoral, aproximadamente 33,5 milhões de brasileiros deixaram de votar em 4 de outubro, o equivalente a 21,08% do eleitorado.
Na avaliação do cientista político, a ausência de eleitores de baixa renda e menor escolaridade teve impacto especialmente importante sobre o desempenho de Lula, que historicamente registra apoio expressivo entre esses segmentos.
Lavareda argumenta que o resultado do primeiro turno pode produzir uma percepção distorcida sobre a dimensão das mudanças nas preferências políticas dos brasileiros.
O especialista classificou essa interpretação como uma espécie de “ilusão de ótica”, porque os percentuais de votos válidos não incluem os eleitores que deixaram de comparecer.
Ao considerar o conjunto de brasileiros aptos a votar, Flávio Bolsonaro recebeu o equivalente a 35,34% do eleitorado, enquanto Lula alcançou 33,94%.
A diferença nesse universo foi de 1,4 ponto percentual, menor do que a registrada entre os votos válidos.
Isso não significa que todos os eleitores ausentes votariam em Lula. A avaliação de Lavareda considera padrões de participação eleitoral e características sociais dos grupos que não compareceram às urnas, sem permitir identificar individualmente a preferência de cada eleitor.
Flávio teve crescimento limitado em relação a Bolsonaro em 2022, avalia especialista
Lavareda também comparou o desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026 com a votação recebida por Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2022.
Segundo a análise apresentada pelo cientista político, o avanço do senador, quando considerado o conjunto do eleitorado, foi de aproximadamente 2,7 pontos percentuais em relação ao desempenho de seu pai.
Para Lavareda, esse crescimento não seria suficiente para caracterizar uma transformação profunda nas preferências políticas do país.
A interpretação considera que o Brasil continua dividido em dois grandes grupos eleitorais, com diferenças relativamente pequenas entre os candidatos que representam os principais campos políticos.
A comparação entre eleições, entretanto, exige considerar mudanças no número de eleitores, no comparecimento, nas candidaturas e no contexto político de cada disputa.
Pesquisas mostram diferenças pequenas entre Lula e Flávio
A avaliação de Lavareda ocorre em um momento em que diferentes pesquisas apresentam percentuais próximos para os dois candidatos.
Na segunda-feira (19), o levantamento BTG/Nexus registrou Flávio Bolsonaro com 50,3% dos votos válidos, enquanto Lula apareceu com 49,7%.
A diferença de 0,6 ponto percentual ficou dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, caracterizando empate técnico.
O instituto ouviu 2.002 eleitores entre os dias 16 e 18 de outubro. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04499/2026.
No mesmo dia, a AtlasIntel/Bloomberg apontou Flávio com 51,1% e Lula com 48,9% dos votos válidos.
A distância numérica caiu de 5,6 para 2,2 pontos percentuais em comparação com a rodada anterior do instituto, divulgada em 9 de outubro.
Já o PoderData/Aya apresentou Flávio com 52% e Lula com 48%, também considerando apenas os votos válidos.
Os três levantamentos utilizaram metodologias diferentes. Por isso, os resultados não devem ser comparados como se representassem uma única série histórica.
A aproximação registrada em determinadas pesquisas é um dos elementos considerados por Lavareda em sua análise sobre o equilíbrio da disputa.
Rejeição elevada limita espaço para crescimento dos candidatos
Outro aspecto destacado pelo cientista político é a rejeição aos dois presidenciáveis.
Na pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda-feira, 47,8% dos entrevistados disseram que não votariam em Lula, enquanto 46,8% rejeitaram Flávio Bolsonaro.
A diferença de um ponto percentual mostra percentuais próximos de rejeição no levantamento.
Na interpretação de Lavareda, a resistência a ambos os candidatos ajuda a explicar as dificuldades para ampliar o apoio eleitoral na reta final.
Com parte expressiva dos entrevistados declarando rejeição a um dos concorrentes, as campanhas enfrentam o desafio de dialogar com eleitores que ainda não definiram o voto e de manter o apoio daqueles que já manifestaram preferência.
Os percentuais de rejeição, porém, não indicam automaticamente quantas pessoas deixarão de votar ou poderão mudar de candidato até domingo.
Economia familiar e avaliação do governo apresentam diferenças
Lavareda também aponta a economia como um dos fatores centrais para compreender o comportamento do eleitorado.
Em análises apresentadas a partir de levantamentos do Ipespe Analítica, o cientista político destacou uma diferença entre a percepção dos brasileiros sobre a própria situação financeira e a avaliação da economia nacional.
Segundo os dados apresentados pelo especialista, a percepção sobre a situação econômica familiar registrou saldo positivo de 41 pontos percentuais, enquanto a avaliação mais ampla da economia apresentou resultado menos favorável.
Esse contraste indica que a percepção individual sobre renda e condições de vida nem sempre acompanha a avaliação do desempenho econômico do país.
Para Lavareda, essa diferença ajuda a compreender por que melhorias percebidas por determinadas famílias não se transformam necessariamente em avaliações positivas do governo federal.
A análise também considera o histórico da popularidade de Lula durante o mandato, marcado por oscilações na aprovação e na desaprovação da administração.
A relação entre economia e voto, entretanto, envolve diferentes fatores e não permite concluir que uma única variável determine a escolha dos eleitores.
Polarização política permanece desde 2022
O cientista político também relaciona o cenário atual à redução das diferenças entre candidatos nas eleições presidenciais brasileiras.
Durante parte do período de disputas entre PT e PSDB, especialmente nas eleições de 1994, 1998, 2002 e 2006, os vencedores conquistaram vantagens expressivas sobre seus adversários.
A diferença diminuiu em disputas posteriores, incluindo a reeleição de Dilma Rousseff em 2014.
Em 2022, Lula derrotou Jair Bolsonaro com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10%, uma diferença de aproximadamente 1,8 ponto percentual.
Para Lavareda, o resultado de 2022 evidenciou uma divisão política que continua presente na eleição de 2026.
A permanência de dois grandes campos eleitorais não significa que todos os brasileiros mantenham as mesmas preferências ao longo do tempo. Mudanças individuais de voto, novos eleitores e diferenças no comparecimento também influenciam os resultados.
Governabilidade será desafio para qualquer vencedor
Além da disputa eleitoral, Lavareda avalia que o próximo presidente enfrentará dificuldades para construir apoio político e aprovar medidas no Congresso Nacional.
O cientista político considera que a fragmentação partidária e a divisão do eleitorado poderão limitar a capacidade de qualquer governo implementar mudanças amplas sem negociações com diferentes forças políticas.
No caso de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, o especialista entende que uma diferença pequena nas urnas não representaria, necessariamente, apoio popular majoritário a transformações profundas na estrutura do Estado.
Para Lula, uma possível reeleição também exigiria negociações políticas, especialmente diante dos índices de rejeição e das avaliações sobre o desempenho do governo.
Essas considerações representam a análise de Lavareda sobre os desafios institucionais do próximo mandato, e não uma conclusão antecipada sobre o resultado das eleições.
Próximos passos
Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno presidencial no domingo, 25 de outubro.
Até a votação, novos levantamentos deverão atualizar as intenções de voto, enquanto as campanhas seguem com compromissos públicos e atividades eleitorais.
Um novo debate entre os candidatos está previsto para sexta-feira (23), na TV Globo, dois dias antes da eleição.
Na avaliação de Antonio Lavareda, a abstenção, a rejeição aos candidatos e a proximidade dos percentuais nas pesquisas são elementos importantes para compreender a reta final da disputa.
O resultado definitivo, entretanto, será conhecido somente após a apuração oficial dos votos pela Justiça Eleitoral.