Após vitória de Lula, casa própria pode ficar mais cara? Entenda

Bradesco elevou juros do financiamento imobiliário para 15% ao ano após as eleições; Caixa e outros bancos ainda não anunciaram reajustes semelhantes
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O sonho da casa própria pode ficar mais caro para parte dos brasileiros após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no último domingo, 25 de outubro. O Bradesco elevou de 11,69% para 15% ao ano a taxa mínima de juros do financiamento imobiliário para a maioria dos clientes, acrescida da Taxa Referencial (TR). A mudança passou a valer na segunda-feira, 26, um dia depois do segundo turno das eleições presidenciais.

O aumento de 3,31 pontos percentuais chamou a atenção do mercado imobiliário pela dimensão do reajuste. A mudança, no entanto, está restrita ao Bradesco. Até esta quinta-feira, 29, a Caixa Econômica Federal, principal instituição de financiamento habitacional do país, não havia anunciado aumento semelhante.

A decisão do banco privado ocorreu em meio à forte alta dos juros futuros no primeiro pregão após a vitória de Lula. O movimento refletiu uma reação de investidores às expectativas para a política econômica e para as contas públicas nos próximos anos.

Apesar da proximidade entre os acontecimentos, não há confirmação de que o resultado eleitoral, isoladamente, tenha provocado o reajuste. Em manifestação divulgada à imprensa, o Bradesco atribuiu a atualização das taxas ao aumento dos juros praticados no mercado financeiro.

Quanto ficou mais caro financiar um imóvel?

O impacto pode ser significativo para quem pretende contratar um novo financiamento pelo Bradesco. Em uma simulação publicada pela EXAME, considerando R$ 500 mil financiados em 30 anos pelo Sistema de Amortização Constante (SAC), a primeira prestação passaria de aproximadamente R$ 6.020 para R$ 7.246.

Isso representa um aumento de R$ 1.226 somente na primeira parcela. Ao longo do contrato, o total de juros pagos subiria de cerca de R$ 836 mil para R$ 1,06 milhão, diferença aproximada de R$ 224 mil.

A simulação considera as duas taxas de financiamento, sem incluir a TR, os seguros obrigatórios e outras tarifas. Os valores reais dependem do perfil do comprador e das condições da operação.

O reajuste também não atinge automaticamente quem já possui financiamento contratado com taxa de juros definida em contrato.

E a Caixa Econômica Federal? Os juros também vão subir?

Até o momento, não há anúncio de reajuste nas taxas de financiamento imobiliário da Caixa em resposta ao movimento do mercado após as eleições.

Segundo levantamento da plataforma MySide, atualizado em outubro, a instituição oferece linhas tradicionais de financiamento com juros a partir de 10,26% ao ano, mais TR, dependendo do perfil do cliente e das condições da contratação.

O banco público continua apresentando taxas inferiores às praticadas pelo Bradesco na comparação das principais linhas habitacionais.

Também não foi anunciada alteração nas taxas do programa Minha Casa, Minha Vida em decorrência da decisão do Bradesco. O programa possui condições próprias de financiamento, com juros diferenciados conforme a renda familiar e as regras de cada faixa.

Outras instituições também não anunciaram aumentos semelhantes. O Santander informou que mantém linhas com juros a partir de 11,69% ao ano mais TR. O Itaú afirmou que acompanha os movimentos do mercado para avaliar eventuais ajustes, enquanto o Sicredi declarou não prever alterações em suas margens de juros neste momento.

Isso significa que o aumento observado no Bradesco ainda não representa uma elevação generalizada do custo do financiamento habitacional no Brasil.

Por que os juros subiram depois da eleição de Lula?

O principal fator apontado pelo Bradesco foi a alta das taxas de juros de mercado. Na segunda-feira, 26, primeiro dia de negociações após a reeleição de Lula, os contratos de juros futuros registraram aumentos expressivos. Esses indicadores refletem as expectativas de investidores sobre o comportamento dos juros e os riscos da economia brasileira nos próximos anos.

Parte da reação do mercado esteve associada às preocupações com a trajetória das contas públicas e a condução da política fiscal do próximo governo.

Os bancos levam essas expectativas em consideração porque os financiamentos imobiliários podem durar 30 anos ou mais. Para conceder crédito por períodos tão longos, as instituições precisam avaliar o custo de obtenção de recursos e os riscos envolvidos.

O Bradesco informou que as condições finais de financiamento continuam sendo negociadas individualmente, considerando o perfil de cada cliente e as características da operação.

Outros bancos podem aumentar os juros da casa própria?

A possibilidade existe, mas ainda não há confirmação de novos reajustes.

Paulo Prado, cofundador da MySide e especialista em crédito imobiliário, afirmou à EXAME que não descarta movimentos semelhantes de outras instituições nos próximos meses.

A evolução dos juros futuros, o custo de captação dos bancos e as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) devem influenciar as próximas revisões.

A próxima reunião do Copom está prevista para os dias 3 e 4 de novembro. Atualmente, a taxa básica de juros, a Selic, está em 13,75% ao ano.

Para quem pretende comprar um imóvel, a orientação é comparar as condições oferecidas pelos bancos antes de assinar o contrato. Também é importante verificar o Custo Efetivo Total (CET), que considera não apenas os juros, mas os seguros, as tarifas e outros encargos do financiamento.

Carregar Comentários